A segunda vida de Fernando Pessoa

E se Fernando Pessoa regressasse aos nossos dias sob a forma do seu heterónimo Vicente Guedes, aquele que foi preterido como autor de o Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito que o DN vai publicar nos próximos dias em 12 capítulos, de autoria do seu grande-repórter João Céu e Silva, autor de quatro livros de ficção.

"Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida.

De Vicente Guedes não se sabe nem quem era, nem o que fazia

Este livro não é dele: é ele.

Mas lembremo-nos sempre de que, por detrás de tudo quanto aqui está dito na sombra, misterioso

Para Vicente Guedes ter consciência de si foi uma arte e uma moral; saber foi uma religião.

Ele viveu definitivamente a anestesia interior, aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um aristocrata completo."

Fernando Pessoa

O poeta regressa à Casa Fernando Pessoa

Era mais que certo que ao bater à porta da Casa Fernando Pessoa iria revolucionar a minha vida e a do poeta para toda eternidade. Afinal, a ressurreição não está à mão de qualquer ser humano que a reclame, nem o avanço da ciência a tornou mais fácil. Não estou a referir-me ao voltar à vida através de bruxarias, complexas cirurgias, processos de congelamento ou outros progressos da tecnologia, daqueles que se vão ouvindo de vez em quando nas notícias.

Não, o meu caso é diferente e mais difícil de compreender, mesmo que para o aceitar seja necessário crer em alguma coisa. Porque para mim foi um passo dado sem dificuldade, quase natural como o de uma criança que começa a caminhar. Estou certo, repito, que ao bater à porta da Casa Fernando Pessoa irei revolucionar a minha vida e a do poeta para toda a eternidade. Afinal, o que vou dizer aos que estão resguardados pelas paredes grossas daquela construção e que mandam na minha antiga morada não é o que escutam todos os dias da boca dos visitantes que vão à procura das memórias de Fernando, nem o que querem ouvir sobre o Pessoa que guardam oficialmente.

E como não desejo ser aquele sobre quem existam dúvidas, tenho de lhes dizer toda a verdade logo desde o princípio, convencendo-os de que não sou um turista de passagem e que apareceu neste ano de 2010 por acaso, ou talvez um louco que decide fazer uma habilidade especial. Antes, devo-lhes mostrar que a eternidade das palavras que têm por missão preservar não está, como pensam, numa arca meio cheia mas na parte meio vazia para a qual só eu tenho a chave que abrirá de novo a sua tampa.

Decerto que a novidade que lhes vou dar não será a que esperam, mesmo que passada a previsível grande tempestade devam ficar satisfeitos com a revelação. Não me custa pensar que assim será porque os últimos dias têm mostrado como é uma experiência complicada esta de certificar que o poeta não morreu para sempre. Que não é como o Luís de Camões, morto e enterrado sabe-se lá aonde e que ficou esquecido por muito mais tempo do que Pessoa no que diz respeito à sua obra. De uma coisa estou certo antes de bater à porta da Casa e de lhes dizer ao que vou: não contem comigo para inventar uma mentira. Tudo o que vai acontecer nos dias que se seguirão foi montado aos poucos, como se eu observasse uma casa a crescer desde as fundações até ao teto. Foi assim que ficou definida a minha missão, como se fosse uma segunda vida que Vicente Guedes dá a Fernando Pessoa, depois de ter sido um heterónimo quase esquecido e substituído pelo Bernardo Soares no Livro do Desassossego.

O que eu disse ao porteiro não o surpreendeu. Olhou de alto a baixo e reconheceu-me. O que seria de esperar, porque eu era exatamente como o têm descrito; bigode, nariz circunspecto, fato negro e chapéu, tudo a combinar com a imagem que existe nas fotografias.

- Bom dia Senhor Fernando Pessoa. Como tem passado?

Diria mesmo que foi mais educado do que poderia esperar do guardião da casa onde vivi tanto tempo, pois poderia ter respondido torto ao achar que vinha reclamar o que era meu e ficaria sem emprego. Ou pensar que, portando-se bem, o manteria, pois nenhum poeta famoso dispensa um funcionário para todo o serviço como ele parecia poder vir a ser. Portanto, fiquei satisfeito com a forma como decorreu a primeira situação, mesmo que tivesse antevisto vários outros desfechos.

Pedi-lhe, então, que me mostrasse a casa. Em menos de um minuto, o funcionário estava do lado de fora do balcão que antes nos separava e deu início à visita guiada.

- Temos tido muito cuidado com a casa e está tudo em condições, mesmo que às vezes o dinheiro seja curto para as despesas de manutenção. Acho que vai gostar do que lhe vou mostrar e irá ficar surpreendido com as melhorias que os diretores têm feito.

Realmente estava tudo alterado em relação ao tempo em que vivera num andar deste prédio da rua Coelho da Rocha. Já lá iam muitos anos, no entanto reconhecia o lugar com facilidade, pois alguns edifícios mantinham-se como eram na memória apesar de estarem mais degradados do que nos quinze anos em que habitara no bairro, entre 1920 e 1935. As paredes que antes dividiam os pisos tinham sido destruídas e o espaço à vista era bem maior. Se me perguntassem, confessaria sem problemas que nunca teria conseguido imaginar que os apartamentos fossem tão capazes de emparedar quem morava dentro deles e apagar-lhes o exterior. Que largueza e amplitude que estas mudanças teriam oferecido aos antigos moradores!

- Bem, se morassem cá todos não poderíamos ter feito estas alterações.

O funcionário fora rápido na resposta ao meu comentário, fazendo-me pensar até que ponto este meu regresso não estava encenado na sua cabeça há bastante tempo. Passaria ele os dias a pensar no que me diria caso eu voltasse a esta casa ou seria apenas um empregado cuidadoso? Posso dizer que para o primeiro contacto estava a ficar com uma boa opinião sobre a Casa e que se todos os funcionários fossem como este a instituição estava bem entregue.

Continuámos a visita ao rés-do-chão, sempre com ele à minha frente a mostrar-me a habitação, tendo rapidamente desistido de continuar refazer mentalmente como era ela nos tempos em que aqui tinha habitado. Encaminhou-me para a escadaria que ligava ao primeiro andar e, certo de que iria fazer uma surpresa, perguntou se queria subir pelos degraus ou preferia experimentar o elevador.

- Tenho a certeza de que isto é que não estava cá no seu tempo?

Realmente este regresso à minha última morada era uma surpresa constante. Olhei para os degraus de madeira e contei-os um a um para confirmar se o seu número se mantinha o mesmo. Com tanta obra feita entretanto... Era a mesma quantidade de degraus, o que me permitia continuar a repetir a contabilidade que antigamente executava todos os dias ao chegar a casa. Porque seria que eu contava os degraus, perguntei-me? A questão seria antes o porquê de o fazer neste regresso e de como é que me lembrava desse tique após quase um século passado? Voltei ao presente devido à pergunta do funcionário e respondi-lhe que preferia subir pelos degraus.

- Como fazia antigamente, não é?

Respondi-lhe que sim enquanto reparava nos pormenores de decoração da casa, sempre com a minha imagem espalhada a cada canto. Eram estátuas, frases, poemas e desenhos. Uns meus, uns de outras pessoas sobre mim, mas sempre em torno do mesmo tema: eu. Coisas que não tinha reparado com tanto cuidado na minha visita anterior à Casa Fernando Pessoa, às escondidas e ainda distante de ser quem vim a ser. O funcionário aproveitava a minha demora em percorrer cada metro para ir explicando o significado do mobiliário novo e contava-me a sua história, mesmo que se notasse que estava com alguma pressa em chegar a uma das salas mais à frente. De tão entusiasmado, não conseguiu deixar de soltar uma pista.

- Creio que no piso de cima vai encontrar algo que o deixará surpreso e feliz.

Não esclareceu qual seria a surpresa que me deixaria nesse estado de felicidade que antecipava e também não o pressionei, afinal se a minha intenção era tomar posse da Casa seria conveniente que a olhasse bem nesta primeira visita como Fernando Pessoa. Aliás, para que nada falhasse olhei-me num espelho onde estava desenhado o meu rosto e aproveitei para retocar o bigode, deixando-o conforme a ilustração mostrava ter sido. Estava a aproveitar este momento como mais nenhum outro na minha vida, continuando o passeio em câmara lenta como se fosse o espetador de um filme que rodava depressa de mais para acompanhar o argumento.

Daí que tenha ignorado a confusão que estava a acontecer poucos degraus acima daquele em que me encontrava agora, maravilhado e curioso. É que na balaustrada aonde ia dar este primeiro vão de escada esperava-me meia-dúzia de pessoas, acompanhando cada passo que dava e analisando cada gesto que fazia. Observei-as e notei nesse olhar incrédulo com que era habitual repararem em mim desde que ressurgira como Pessoa. Se para alguns a primeira sensação era o espanto perante a diferença entre a reprodução física em movimento e a cores do poeta que só conheciam de fotografias a preto e branco e estáticas, para outros o mais estranho era o facto de eu falar. Notara essa incapacidade em aceitarem como real a fantasia que tinham de mim nestes últimos tempos em que ocupava os meus dias no Martinho da Arcada a reviver o passado. Havia os que passavam a correr e ficavam com uma leve impressão de um engano; os que iam a caminhar em paz e a perdiam com o vislumbre de alguém que consideravam estar morto; os que paravam e fixavam os olhos no poeta enquadrado por um cenário que era mais literário do que possível; os que não queriam acreditar e me questionavam, e os que não se surpreendiam, talvez por já terem visto de tudo. Aliás, a existência de vida para um heterónimo de Fernando Pessoa após a sua morte não era coisa que acontecesse pela primeira vez, já que antes um escritor até fizera um romance inteiro sobre o reaparecimento de Ricardo Reis por nove meses!

A verdade é que as pessoas ainda se surpreendiam com o meu regresso, mesmo que todos soubessem de tal novidade devido à quantidade de notícias publicadas nos últimos dias, e continuavam a ficar especadas tal como acontecia com as que me aguardavam no fim do lance de escadas que me levava até ao primeiro piso da Casa Fernando Pessoa. A razão deste espanto não seria de estranhar, visto que a segunda vinda do poeta era palpável na carne do meu corpo e não como mero protagonista de um livro. Se me espetassem sairia sangue, coisa que ao Ricardo Reis do romance jamais aconteceria, porque era feito de palavras. Aliás, se me dessem tempo, o que iria sangrar era a continuação da obra do poeta. E isso é que era importante, até porque faltava aos portugueses alguém em quem acreditar e que lhes devolvesse a sua própria voz. Quem melhor do que um poeta para interpretar esta angústia tão visível num povo que já elegera um outro poeta como o seu patrono do dia nacional? A única condição que colocaria, quando fosse o tempo certo, era a de não me virem com a história do V Império. Não queria mais ilusões!

Eram já mais de uma dúzia as pessoas que me esperavam no primeiro andar da Casa. Se fora lento a subir as escadas, elas foram rápidas a concentrar-se junto ao corrimão, mesmo que não tivesse reparado no ajuntamento devido à atenção prestada ao que estava pendurado ou pintado nas paredes. Curiosas e receosas, iam recuando cada vez que eu avançava ladeado pelo funcionário que me encaminhava para o lugar que definira como sendo o de uma "surpresa feliz". Eis senão quando a diretora da Casa interrompe a minha entrada triunfal e me manda parar.

- Alto. Como se atreve a entrar na Casa Fernando Pessoa depois de tanto mentir sobre a sua identidade nos jornais?

O funcionário ainda quis intervir mas a diretora não o deixou pronunciar uma única palavra. Olhava para mim furiosa e capaz de me empurrar pela janela fora, ordenando que a seguisse até ao seu gabinete para termos, disse ela, "uma conversa muito séria". Respondi-lhe imediatamente que sim, afinal convencer a diretora antes de mais era a minha estratégia e a sua chegada intempestiva apenas facilitava dar início ao processo.

Cinco minutos após o confronto entre a diretora da Casa e Fernando Pessoa, tempo que o funcionário conseguiu para exibir a recriação do meu quarto como teria sido enquanto ali vivera, mostrando-o em todo o seu esplendor e descrevendo os bens que se tinham recuperado, ficámos frente a frente.

O escritório onde nos sentámos tinha uma vista para os telhados dos prédios próximos. Olhei primeiro para o céu e, baixando os olhos calmamente, reparei nas muitas imagens que representavam o poeta espalhadas pela sala. A brincar, perguntei-lhe se nos achava parecidos, mas não lhe dei tempo para responder porque iniciei um discurso em que a cumprimentava pela função; pelos cuidados que eram bem visíveis na manutenção da minha antiga casa e no bom gosto com que tudo estava decorado. Confessei-lhe que nunca pensara que a minha posteridade preocupasse tanta gente e que nos últimos tempos tinha-me surpreendido o interesse na minha obra, da qual, infelizmente, ficara na maior parte por publicar. Daí que contasse com o seu apoio para tornar bem-sucedido este meu regresso, situação que serviria a ambos e à literatura nacional. Ia continuar o discurso, mas fui interrompido pela sua pergunta brusca.

- O que pretende realmente com esta visita?

Era muito fácil perceber que a diretora não estava com disposição para ouvir contar a verdade que eu tinha para revelar e que considerava mentirosas as minhas palavras. Tentei acalmá-la e reiniciar o pensamento, retomando um discurso que não ultrapassara o minuto de duração na primeira tentativa.

- Eu já o vi na televisão a dizer que é Fernando Pessoa e já li todas as suas entrevistas a explicar a razão de estar por aqui. Mas não vou nessa conversa fiada porque se é quem diz já morreu há muitos anos e está a fazer tijolo há bastante tempo.

Compreendi que a conversa iria ser difícil, mas não esperava outra situação. Decidi inverter o fio do discurso e contar-lhe em primeiro lugar o que ela desconhecia para só então explicar o que dizia ser do seu conhecimento. Comecei por afirmar que era minha intenção deixar nos próximos dias o hotel onde estava alojado para vir morar na minha antiga casa...

- Está-se mesmo a ver que o vou deixar! Estou a dirigir esta Casa desde 2008 e não vou deitar tudo a perder com a sua falsa aparição.

... Logo que possível gostaria de me reunir consigo para lhe mostrar muito do trabalho inédito em prosa e poesia que tinha para ser publicado...

- Nem pense que a Casa vai dar cobertura a textos apócrifos!

... Continuei com a informação de que poderia ceder mais património pessoal para a Casa, até a famosa arca onde guardava os meus textos.

- Essa já cá temos, não a viu no primeiro piso?

Entendi que me estava a experimentar no caso da veracidade da arca e respondi-lhe que sabia bem que não era a verdadeira pois tinha sido mandada fazer a um marceneiro de acordo com a original e que a verdadeira estava noutro lado e com dono.

- Não sei do que está a falar!

A resposta mostrou-me que lhe fizera nascer uma primeira dúvida. Era hora de passar para a segunda fase do discurso e explicar porque é que eu era o Fernando Pessoa que diziam ter falecido, bem como a razão de ali estar a reclamar um quarto e a continuação da minha vida na casa onde vivera. Para que como poeta voltasse a ter uma vida normal era minha convicção, disse-lhe, que nada seria melhor do que regressar ao ninho.

- Até agora nada do que disse me convence!

Para fazer sentido tudo o que lhe estou a tentar dizer, respondi-lhe, tem que ouvir a minha história. Basta isso, e não é nada que a diretora da Casa com o meu nome não tenha por obrigação fazer.

Ia começar a contar a história quando a diretora recebeu um telefonema interno. Respondeu um "sim, vou já ver" ao interlocutor e imediatamente ligou a televisão.

- Que grande confusão que você armou neste país!

Estava a passar em direto o debate entre parlamentares na Assembleia da República e o tema era o regresso de Fernando Pessoa - o meu! Uma deputada sugeria a criação de uma comissão para investigar o caso, enquanto outro adiantava-se com a proposta de votação para se fazer um referendo sobre o poeta reaparecido. Foi assim que vi que estava a ser tema de debate nacional e que, confirmei, este continuava a ser um país de poetas.

- Uma coisa já fez, que os deputados falem sobre cultura no parlamento!

Assistimos a mais um pouco do debate antes de começar a contar a minha história, tendo ouvido dos parlamentares as mais diversas opiniões sobre a minha pessoa. Curiosamente, nenhum dos deputados questionava a razão de ser da minha existência, mas sim o que fazer dela. Enquanto uns recordavam o passado e outros projetavam o futuro, o presente ou o que significava a minha segunda vida era ignorado no debate. Situação que mostrava que o plano estava bem delineado e que a surpresa perante a notícia do meu regresso ocupava mais a atenção das pessoas do que a ausência de uma explicação para tal incongruência. Que era exatamente o que interessava neste momento.

Bem, vamos lá contar esta história desde o princípio...

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