Pandemia põe em risco 945 mil empregos no curto prazo

Estudo da Universidade Católica antecipa efeitos negativos no emprego até 2022, mas que poderão diluir-se com as medidas que o Governo decidir tomar.

A pandemia do novo coronavírus põe em risco 945 mil postos de trabalho, de acordo com as contas do Prosper - Centro da Economia para a Prosperidade, da Universidade Católica, que lança hoje o seu primeiro estudo. É um efeito de curto prazo, que a taxa oficial de desemprego continua a não espelhar devido à passagem de muitos à inatividade e que o mecanismo de lay-off simplificado tem minimizado, com pelo menos 804 mil trabalhadores abrangidos até aqui.

O futuro destes empregos é incerto, e muito vai ser decidido ainda pelas políticas de apoios e de emprego a adotar pelo Governo nas próximas fases de estabilização e recuperação. Mas ficam assinaladas desde já as vulnerabilidades.

O estudo do novo centro da Católica fez contas aos empregos em setores paralisados ou quase paralisados na primeira fase de pandemia, àqueles que não são compatíveis com teletrabalho e, bem assim, aos que estão mais suscetíveis a passarem a ser executados por máquinas ou software. No embate direto estão 400 mil a 700 mil postos de trabalho, conforme o grau de imobilização provocado pelo surto. A estes, somam-se entre 130 mil a 245 mil outros empregos dependentes dos primeiros, enfraquecidos por arrasto. No total, os 945 mil trabalhadores em risco representam quase um terço do mercado privado de emprego.

"Não quer dizer que estas pessoas todas tenham de ir para o desemprego. Algumas quererão mudar de emprego, outras serão abrangidas pelo lay-off e não foram ainda, e agora empresa tem que manter os postos de trabalho durante algum tempo pela regra do Governo", explica Joana Silva, a diretora do centro.

Mas são os números de quem está em risco imediato nos três meses de abalo covid no mercado de trabalho nacional, que deverá ainda ter efeitos ao longo de três anos. "É uma análise da emergência criada numa situação bastante grave inicial. Claro que este número vai progressivamente diminuindo, mas temos ainda nas nossas projeções que em 2022 podemos ter efeitos negativos no emprego, ou seja, perdas de emprego".

Mais proteção para todos

A este primeiro grupo vulnerável, junta-se outro, não coberto pelas medidas de apoio ao emprego e outros apoios sociais de emergência já criados. São 400 mil recibos verdes com rendimentos incertos e outros 250 mil trabalhadores independentes não registados na Segurança Social.

Para não deitar fora as competências destes trabalhadores, também vai ser preciso continuar a alargar apoios não contributivos, sugere o estudo. "Há 650 mil trabalhadores que por definição não estão abrangidos e podem cair numa situação de perda de rendimento muito gravosa e em comportamentos que prejudicam o seu capital humano no longo prazo", refere a economista.

O estudo da Católica estima que o Estado venha a gastar, com os mecanismos de apoio já existentes, perto de 3,5 mil milhões de euros (1,8% do PIB). Com o lay-off simplificado, que até à última terça-feira resultou em pagamentos num total de 441 milhões de euros, estima uma despesa de 755,4 milhões de euros até ao final deste mês.

Já os custos das isenções de Taxa Social Única que acompanham o mecanismo, e que António Costa, o primeiro-ministro, assumiu ontem que serão entregues pelo Orçamento à Segurança Social, poderão somar 576,7 milhões de euros. Outro custo associado ao lay-off é o do apoio extraordinário de um salário mínimo por trabalhador às empresas após o fim da medida. Deverá custar 508 milhões de euros.

O estudo também faz contas à despesa com novos subsídios de desemprego, esperando apenas 165 mil novos beneficiários, num custo de 326 milhões de euros. Os apoios aos trabalhadores independentes, que até aqui não custaram mais de 63 milhões, deverão custar ainda cerca de 215 milhões de euros. Outro dos grandes custos da pandemia ainda diz respeito às baixas por quarentena e subsídio de doença, que fazem prever a saída de 795 milhões de euros dos cofres da Segurança Social.

Além do foco na necessidade de redistribuir rendimento, o estudo do Prosper também recomenda maior alinhamento de qualificações dos trabalhadores, investimento na educação, maior complementaridade entre empresas, maior incorporação tecnológica, mais emprego em empresas com bons desempenhos internacionais e nova atração de investimento direto estrangeiro.

Importa ainda que a economia use "tecnologias que levam ao aumento da produtividade, incentivos a que os setores mais promissores floresçam, mas sem escolher". Um risco que, para Joana Silva, se apresenta nas políticas industriais que selecionam campeões. "Em algumas instâncias, tem resultados positivos, mas na maior parte das vezes não teve. Muitas vezes, os políticos não têm informação suficiente para preverem quais são as empresas que vale a pena apoiar." Para a economista, a ideia deverá ser antes "evitar fazer mal" e evitar também que "as empresas tenham constrangimentos que bloqueiem a criação do emprego".


Jornalista do Dinheiro Vivo

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