Esse abismo que nos olha

Enquanto todos os dias dezenas de milhares de europeus são infetados e mortos pelo novo coronavírus, as linhas de fratura dentro da UE, e em especial da zona euro, estão a ficar ao rubro. O que está em causa é a recusa de quatro países - Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia - em aceitar uma emissão conjunta de títulos de dívida europeia para acudir a esta dupla emergência, que atinge a saúde pública e danifica a economia europeia e global. Na verdade, com a França, a Itália e a Espanha a favor dos coronabonds, com o BCE disposto, no que toca à política monetária, a prosseguir e a amplificar a via de Mario Draghi, o que continua a faltar é a coordenação orçamental que nas presentes circunstâncias só poderá ser conseguida com endividamento conjunto, para conseguir capital suficiente a taxas de juro baixas. Trata-se de um esforço titânico: reconstruir uma Europa capaz não só de superar o covid-19 como também de resistir aos gigantescos impactos da crise climática.

A Alemanha não se comoveu, ainda, com os argumentos nem com as baixas, que ela própria sofre e vai sofrer. Berlim sabe que com os coronabonds é o "seu" atual modelo de união monetária low-cost, desigual e assimétrica que tem os dias contados. Berlim cedeu a Paris na moeda comum em 1992, apenas e só na condição de ser ela a escrever o código de funcionamento de uma união onde a moeda é comum, mas os orçamentos, o acesso aos mercados financeiros e a despesa social estão todos situados numa blindada esfera nacional. Escrevendo as regras em 1997, reforçadas depois entre 2010 e 2013, Berlim não hesitou em deixar os parceiros expostos à especulação sobre as dívidas, como método disciplinar. Depois de recorrer à habitual ajuda de Haia - cujo governo transformou a evasão fiscal em política pública -, a Alemanha convocou na recusa dos eurobonds os seus principais campeões na frente europeia: Klaus Regling, o presidente vitalício do MEE, e a senhora Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, deixando claro para onde se inclina a sua lealdade.

Parece-me definitivo que para sobreviver ao covid-19 a UE precisa de federalismo como de uma vacina. O conselho que daria a António Costa, mas sobretudo a Macron, é o de deixarem de esperar pela Alemanha. Os países que são favoráveis à emissão de dívida comum têm ampla base legal para avançar nesse sentido. Não só no recurso à "cooperação reforçada", mas também devido ao evidente estado de necessidade que enfrentam. O doloroso mês de abril será o teste para saber se a Europa do velho limes romano ainda tem um sopro vital. Por seu turno, Berlim terá tempo de meditar sobre as vantagens de permanecer no euro, ou regressar ao marco. A força exportadora da economia germânica é também o seu calcanhar de Aquiles. Em 2009, o seu PIB caiu 5% (a pior queda portuguesa foi de 4%, em 2012). O que aí vem será bem pior. Berlim acabará, provavelmente, por ceder, sem glória e rabugenta. Este é o tempo em que a lucidez e a fibra moral de muito poucos europeus moldará o destino de todos os outros.

Professor universitário

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