A sirene do medo e a democracia

Voltar a não ter medo. Eu sei quando vou poder dizer que a vida voltou a ser o que era: quando aquele silvo rouco ao meio-dia deixar de me fazer lembrar o prenúncio de desespero e voltar a pôr-me um sorriso na cara por ainda não saber porque está tão presente na minha vida. E esse dia não estará longe.

1. A sirene do meio-dia faz parte da minha vida. Lembro-me de a escutar sentado na carteira da minha escola primária, umas vezes nítido, outras mais distante, consoante o vento soprava de sul ou não. Vinha do outro lado do rio e parece que mandava os trabalhadores da Lisnave almoçar, mas não sei se foi aí que entrou na minha vida.

Pode ser que por volta do meio-dia, num dia e numa altura qualquer, tenha acontecido algo de importante na minha vida e aquele silvo rouco tenha ficado pregado num lugar especial da minha memória.

Nunca soube bem se ecoa mesmo ou não, mas eu, onde quer que esteja, oiço-o sempre. Uma espécie de rotina, de constância na minha vida, como estender o braço para o rádio quando acordo ou fechar as gavetas e os armários do meu quarto antes de adormecer. Gestos, rotinas, ou o que lhe chamem, do meu quotidiano.

Há uma eternidade, aquela sirene era um sinal de vida. Da minha vida e das minhas memórias, conscientes e inconscientes, imaginadas ou vividas.

Agora, ouvi-la é um luto. Um prenúncio de mais doença, de mais mortes e de mais irmãos que estão sozinhos numa luta desesperada pela vida. Uma doença que fere, que mata e que também nos quer destruir a alma. Impor que para lutar contra ela nos tenhamos de afastar é a suprema maldade. Mas é, sobretudo, cruel para quem está doente, para aqueles que estão a lutar contra a morte numa cama de um sobrelotado hospital sozinhos. No momento em que mais precisamos de, pelo menos, sentir o olhar dos que amamos, ele é-nos negado.

O silvo que agora ouço transporta-me para a frente da televisão. Vou como se estivesse hipnotizado. Só vejo quem fala, não ouço. Não preciso, cinco minutos antes já tinha lido a notícia nos jornais. Não percebo o que me faz ligar a televisão. Talvez seja respeito por aqueles que nos vêm contar aquilo que não queriam; talvez seja uma maneira de alguma coisa me fazer não ignorar, de me obrigar a chorar pelos meus irmãos, de não me deixar enfiar num livro ou numa série e simplesmente esperar que me digam que posso sair de casa, que posso ver e agarrar os que amo, que já posso não ter medo.

Voltar a não ter medo. Eu sei quando vou poder dizer que a vida voltou a ser o que era: quando aquele silvo rouco ao meio-dia deixar de me fazer lembrar o prenúncio de desespero e voltar a pôr-me um sorriso na cara por ainda não saber porque está tão presente na minha vida. E esse dia não estará longe.

2. É sobretudo em momentos como os que passamos que mais se sente a influência da política na comunidade. Há quem confunda, porém, decidir em função do interesse público, ou seja, fazer política e a definição dos grandes princípios que norteiam essas decisões.

Se as circunstâncias em que vivemos deixam claras as opções em si mesmas, não pode haver pior momento para tentar definir princípios ou analisar a validade de ideologias.

Recordo uma polémica que surgiu sobre umas declarações de um gerente de uma cadeia de padarias. Não faltou quem destratasse o homem por ele ter pedido ajuda ao Estado quando, noutras alturas, ele ou os seus sócios defendiam ideologias que defendem maior limitação à intervenção estatal. O moralismo que tantos criticaram, por exemplo, na crise de 2008 é o mesmo que agora exibem. Como se quem representa a comunidade não tivesse a obrigação de a todos ajudar independentemente do que alguém defende dentro das margens da democracia.

Ninguém acha que Rui Rio tenha virado um fanático socialista por ter defendido que os bancos devem ajudar os portugueses que tanto os ajudaram, ainda há muito pouco tempo. Como não aguardo a adesão de António Pires de Lima ao PCP por defender a nacionalização da TAP.

Fosse qual fosse a ideologia de quem está no poder, não é possível combater uma crise desta dimensão sem o Estado concentrar em si um poder quase total.

Quando assim é, torna-se totalmente espúrio falar de ideologias ou de conclusões sobre grandes princípios para o futuro.

Sim, há um enorme alargamento do poder discricionário do Estado. Sim, concordamos com medidas que numa situação normal juraríamos que nem um acontecimento extraordinário nos faria defender. Sim, as nossas convicções ficam muito frágeis, rigorosamente todas.

Claro que há vários princípios fundamentais para uma democracia que sofrem grandes limitações, mas só podemos falar sobre as linhas vermelhas que estão a ser pisadas porque ela está bem viva.

Que ninguém duvide, só sairemos deste desastre se estivermos unidos. Unidos no nosso afastamento físico, unidos no cumprimento das recomendações sanitárias, unidos na defesa de quem nos abastece e nos trata e, depois, unidos e solidários entre nós e com os outros povos nas dificuldades económicas que vamos passar. Desta ninguém consegue sair sozinho.

Escrevi no início da pandemia que tinha uma confiança cega em quem nos governa. Foi a forma que encontrei para exprimir a convicção de que sem confiança nas nossas instituições a catástrofe podia sempre acontecer, mas, sem ela, aconteceria de certeza. Mas essa confiança só acontece porque vivemos em democracia. Porque nesse regime acreditamos tanto uns nos outros que defendemos com unhas e dentes o direito de o outro ter uma opinião que até nos pode ofender. E quem nos dirige tem de ser a expressão dessa união e da confiança entre nós.

Temos de ser uma democracia que acredita nas suas instituições, na generosidade e na noção de serviço público de quem está no poder, mas sobretudo no que é a sua essência: a noção de que é um regime do povo e para o povo.

Somos a democracia e neste momento temos de nos lembrar do que nos une e não do que nos dividiu no passado e irá dividir-nos no futuro.

O desespero que vence o medo

Ainda nem começamos a tratar da crise sanitária e já a económica está atingir-nos como um raio. O pronome é abusivo. Por esta altura, sou um privilegiado. Ainda tenho capacidade para suprir as minhas necessidades e daqueles que estão ou sinto a meu cargo. Mas não estou sozinho, sei das dificuldades que tantos dos meus concidadãos já passam. Muitos desempregados, outro com os seus já parcos rendimentos reduzidos, com a maioria das suas despesas fixas inalteradas e sem conseguir fazer-se ouvir, sem que a sua angústia e o seu desespero cheguem a quem tem a responsabilidade de os ajudar.

É sempre assim nestas crises profundas, há uma imensa multidão de gente invisível que sofre e não consegue sequer mostrar o seu sofrimento. Serão esses as principais vítimas. Se a doença nos atingir, é o desespero vestido de fome que os vai vergar. Aí não há medida de confinamento que os trave, não há ameaça ou vírus que consiga travar um homem quando os seus filhos sofrem.

Orbán

A ditadura que Viktor Orbán instaurou é muito mais do que um golpe de estado, é uma antevisão do que a Europa arrisca tornar-se se optar por um caminho de cada um por si. Verdade seja dita que a União Europeia consentiu tudo e mais alguma coisa a este novo ditador. Antes disto, já a Hungria não era uma democracia liberal, mas sim uma caricatura com limitações violentas à liberdade de expressão, de imprensa e sem independência do poder judicial. O que se passa, a reboque da crise sanitária, é apenas um pretexto para que tudo fique preto no branco.

A crise será tão profunda que se a reação não for muito forte, concertada e capaz de obstar a que uma vaga de miséria assole a Europa, os velhos sentimentos nacionalistas, autoritários e xenófobos regressarão em força. Não faltarão Orbáns a aproveitar a fraqueza dos povos para aplicar as suas agendas ditatoriais.

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