Mulheres da Tunísia

De Wassila ben Ammar, a influente mulher de Habib Burguiba, a Leila Trabelsi, a truculenta mulher de Ben Ali, não faltam exemplos de tunisinas de personalidade forte capazes de se afirmar numa sociedade árabo-muçulmana. Claro que comparar o prestígio da mulher do pai da independência em 1956 com a má fama da mulher do ditador expulso em 2011 pode parecer abusivo, mas ambas, uma com bem mais mérito do que a outra, dificilmente seriam possíveis em outros países da mesma área religioso-cultural. E por isso o percurso das duas antigas primeiras-damas ajuda muito a explicar que, com a recente nomeação de Najla Bouden, a excecional Tunísia consiga, mesmo em pleno século XXI, ser o primeiro país árabe a ter uma primeira-ministra. Dificilmente teria sido outro, no Magrebe ou no Machrek, outra forma de designar aquela região que costumamos chamar de Médio Oriente. Os direitos das tunisinas já eram vastos antes da Primavera Árabe e foram reforçados no período democrático da última década.

Falo do primeiro país árabe a ter uma primeira-ministra, porque no vasto mundo muçulmano já houve mulheres a ocupar importantes cargos, e se é possível apontar Benazir Bhutto, que foi chefe do governo do Paquistão, Megawati Sukarnoputri, presidente da Indonésia, ou Khaleda Zia e Sheika Hasina, ambas primeiras-ministras do Bangladesh, destaco sobretudo a turca Tansu Ciller. É que se Benazir foi a pioneira, em 1988, muito do seu capital político tem que ver com pertencer a uma dinastia de governantes, tal como os outros três nomes que referi. Pelo contrário, Ciller, primeira-ministra da Turquia em 1993, chegou ao cargo por si, culminando uma carreira que já lhe tinha dado protagonismo em várias pastas.

Voltando à Tunísia, de sublinhar que a nova chefe de governo é uma escolha pessoal do presidente Kaïs Saïed, que em julho demitiu o governo e suspendeu o Parlamento alegando que era a própria democracia a estar em risco com os jogos de alianças partidárias que estavam a paralisar o Estado, desde o combate à covid-19 até à luta contra a corrupção, passando pelo relançamento da economia. Professor de Direito, Saïed foi eleito por vasta maioria em 2019, apresentando-se como um candidato antissistema. E a sua decisão de assumir o controlo do país parece contar com forte adesão popular, mesmo havendo vozes que dizem ser a atitude do presidente agora o maior risco para a sobrevivência da democracia no único caso de sucesso da Primavera Árabe (que, aliás, começou na própria Tunísia, antes de se espalhar e fazer cair líderes como o egípcio Hosni Mubarak ou o líbio Muammar Kadhafi).

Formada em Geologia, doutorada por uma universidade francesa, professora e alto quadro do Ministério da Educação, Bouden é, assim, uma chefe de governo de transição que ilustra a Tunísia no seu melhor, uma sociedade onde os direitos das mulheres são um dado adquirido, mas que também está perante o desafio de se revelar muito mais que mera peça decorativa nas movimentações do presidente e ajudar de facto o país a sair mais forte da atual crise política. Não lhe faltam exemplos para se inspirar, da Sr.ª Burguiba às jovens que hoje são a maioria dos estudantes nas universidades tunisinas, com destaque para os cursos técnicos (58% de diplomadas), em que a UNESCO as coloca na segunda posição a nível mundial.

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