"Projeto europeu só prosseguirá se a Alemanha nele estiver empenhada"

"A Alemanha é o único país europeu com uma política de memória coerente, que pretende fomentar a recordação crítica do nazismo e não o seu esquecimento", refere o professor universitário

Com estes 15 anos no poder, Angela Merkel já se tornou a figura marcante da Alemanha pós-1990, suplantando Helmut Kohl, o chamado chanceler da reunificação?
Parece-me ainda prematuro fazer essa avaliação. Mesmo no plano quantitativo, Helmut Kohl terá alguma vantagem estatística e substantiva sobre Merkel. Kohl presidiu a cinco governos, durante 16 anos (de outubro de 1982 a outubro de 1998). Como os leitores se devem recordar, em outubro de 2018, Merkel iniciou a sua despedida, renunciando a concorrer para um quinto mandato como chanceler em eleições que, no mais tardar, terão de ocorrer até 24 de outubro de 2021, saindo também da presidência do seu partido (CDU) em dezembro de 2018. Isso significa, se não existir uma mudança de rumo, que ela perderá para Kohl com menos um governo e menos um mês na Chancelaria... Mas o que importa é o plano substancial. Kohl foi um chanceler transformativo, aproveitou as circunstâncias imprevisíveis do destino para operar mudanças de alcance histórico, enquanto Merkel tem conseguido navegar sem naufragar na longa tempestade - para a Alemanha e a UE - iniciada em 2008 com a crise financeira, aprofundada em 2010 com a crise do euro e intensificada em 2020 com a pandemia global da covid-19, cujo desfecho é sombriamente incerto. Kohl conseguiu arrancar a Alemanha federal de uma fase dura da Guerra Fria (a "crise dos euromísseis"), apoiou Gorbachev na altura certa para conseguir a reunificação alemã, que hoje celebra 30 anos, apoiou a criação da União Europeia e da moeda única exigida por Mitterrand, impondo as regras através de arquitetos germânicos do euro como Theo Waigel, Hans Tietmeyer e Otmar Issing. É claro que Merkel, se o quiser, tem ainda a possibilidade de ficar na história como a maior chanceler alemã e a líder que operou uma mudança qualitativa na organização e no funcionamento da UE. Mas só ela sabe se e quando recuará perante a sua saída anunciada em 2018.

O facto de Merkel, que cresceu na RDA, ter tido tanto sucesso político é sinónimo de reunificação bem-sucedida, com as diferenças enormes a nível económico pouco a pouco a desaparecerem?
A Alemanha é a quarta economia mundial, mas é entre os grandes países europeus aquele com maior desigualdade e concentração de riqueza. De acordo com um estudo de 2019 do Crédit Suisse, 1% da população detém 30% da riqueza (contra 22% em Itália e França, e 24% no Reino Unido) e 41% dos alemães têm um rendimento anual de apenas dez mil dólares. As diferenças entre o oeste e o leste, apesar do imenso esforço de convergência desde 1990, ainda são sensíveis. Para além disso, nos últimos anos tem crescido uma autêntica nostalgia iconográfica pela RDA, que se traduz numa expansão kitsch dos símbolos do tempo de Honecker, que dá expressão ao ressentimento e à tensão que permanecem 30 anos depois de uma integração, para alguns demasiado rápida e algo mutiladora no plano cultural.

Dos quatro partidos tradicionais (CDU/CSU, SPD, FDP e Verdes) em 1990 o Bundestag passou a contar com seis, com a adição de dois partidos dos extremos, o Die Linke e a AfD. Que estes partidos mais afastados do centro tenham força, especialmente na ex-RDA, faz sentido?
Faz todo o sentido. Die Linke resultou da convergência em 2007 entre os antigos comunistas da RDA (o SED), cuja figura de referência foi Gregor Gysi, e os dissidentes de esquerda do SPD, chefiados pelo carismático Oskar Lafontaine (que governou o estado federado do Sarre durante mais de uma década). Lafontaine perdeu para Schröder a luta pela liderança do SPD (embora tenha sido ministro das Finanças no primeiro governo deste), saindo em rutura contra uma política ultraliberal que nem CDU/CSU ousaria levar a cabo. Não se pode comparar o Die Linke, que habita no quadro constitucional, com a AfD, um partido semeado de nazis e oportunistas que se alimentam do simples facto de que a RDA não fez nenhuma política de desnazificação, muito ao contrário da RFA, que o fez de modo exemplar. Seja como for, neste momento o partido Die Linke e a AfD colhem apenas, respetivamente, 7% e 10% das intenções de voto.

Prejudicado pelo papel de parceiro menor da coligação governamental, o SPD corre riscos de ser ultrapassado pelos Verdes, assim tornados primeira força da esquerda?
O SPD remonta a 1863. É um partido com enorme resiliência, capaz de sobreviver aos seus recorrentes erros. Neste momento vale 17% das intenções de voto, contra 19% para os Verdes. Julgo que está tudo em aberto. Entre 1998 e 2005, os Verdes foram parceiros do SPD, numa coligação que não deixou boas memórias. Em 2021, com grande probabilidade, será a CDU/CSU a decidir quem quer convidar para a valsa governativa.

Com a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989 e a rápida reunificação de outubro de 1990, a Alemanha destacou-se como o maior dos países membros da União Europeia. Tem sido a União Europeia mais alemã desde 1990?
Como já referi, a liderança alemã da UE foi reforçada sobretudo na era Kohl, no desenho da arquitetura do euro. Depois, com o Tratado de Lisboa, que coloca o centro da política europeia no Conselho Europeu, e a degradação das relações entre Estados membros, no quadro da crise do euro, Berlim transformou-se no líder ostensivo da UE. Não há garantia de que a hegemonia alemã salve a Europa, mas o projeto europeu só prosseguirá se a Alemanha nele estiver empenhada.

Com a participação na guerra contra a Sérvia em 1999 e desde 2002 no Afeganistão, a Alemanha tornou-se de novo um país normal, ultrapassando de vez o legado do nazismo?
A Alemanha é o único país europeu com uma política de memória coerente, que pretende fomentar a recordação crítica do nazismo e não o seu esquecimento. Por toda a parte se encontram marcas museológicas a honrar as vítimas do III Reich. Por outro lado, ser um país normal no quadro militar, seria, por exemplo, a Alemanha enveredar por um arsenal nuclear, como o têm a França e a Grã-Bretanha. Pelo que conheço da Alemanha, o governo que o propusesse seria varrido por uma revolta popular. Estou convencido de que será no quadro da UE, agora que a NATO está ameaçada por Trump, que a Alemanha continuará a equacionar o futuro da sua política de defesa.

Esta Alemanha de 2020, que de portas abertas recebeu um milhão de refugiados em 2015, está preparada para dar o exemplo à Europa de como ser democrática, próspera e multicultural?
Penso que a folha de serviço alemã neste domínio, mesmo descontando os acordos dúbios com a Turquia para conter a vaga desordenada de 2015, é positiva. A posição de Merkel em relação à questão dos refugiados em 2015 foi ditada por duas componentes. Uma humanitária, de que se fala, e outra, muito esquecida, de puro realismo estratégico, que consiste em olhar para o profundo envelhecimento da sociedade alemã e europeia (no caso da UE a média etária é quase de 44 anos!). Sem o rejuvenescimento da força laboral e da base tributária, o Estado social colapsará. Infelizmente, muita gente, e não só os vociferadores chauvinistas, está a atrasar uma política ativa de acolhimento ordenado e seletivo de imigrantes, abrindo o caminho para mais balbúrdia no futuro.

Terminando com a economia, a Alemanha, maior PIB da UE e quarto do mundo, tem condições para liderar a Europa na recuperação da crise criada pela pandemia?
Reina aqui muita incerteza, a começar pela dúvida em relação ao futuro de Merkel. Os desafios são imensos. A pandemia vai causar um rombo no PIB alemão muito superior à queda de 5% do ano de 2009, e ninguém sabe para onde iremos - a Alemanha e o resto da UE - em 2021. Por outro lado, se Trump ganhar um novo mandato, as pressões negativas sobre a economia alemã serão ainda maiores. Uma coisa é absolutamente certa: a força exportadora da economia alemã é hoje também a sua principal fraqueza, devido à queda do comércio internacional. Para mudar as coisas num sentido favorável, seria preciso abolir a insana ortodoxia do Pacto Orçamental de 2013, e vencer os dogmas absurdos que orientam pessoas como o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann (alguém para quem a ideologia é mais importante do que o mundo real), e marcam presença forte no Tribunal Constitucional de Karlsruhe.

O dogmatismo do ordoliberalismo, que a Alemanha incutiu nas regras do euro, tem sido moderadamente corrigido por Merkel no apoio às medidas do BCE, com Draghi e agora com Lagarde. Mas, para sairmos dos desafios da fragmentação protecionista dos mercados, e se quisermos ser verdadeiros nas promessas de um Pacto Ecológico Europeu que pretende reinventar uma economia amiga do ambiente, então temos de fazer o upgrade federal da UE. A resposta da UE à pandemia, com uma primeira e tímida modalidade de mutualização da dívida europeia (algo que no passado, Merkel rejeitou completamente) vai no bom sentido. Mas se a Europa quiser sobreviver perante a crise ambiental e climática que cada vez será maior, mantendo-se como o lugar mais habitável do planeta, então teremos de confiar uns nos outros, aumentando as competências e os meios da ação coletiva através de uma UE sem medo do federalismo. É uma questão vital, que Merkel já parece ter percebido, mas penso que muita gente, na Alemanha ou em Portugal, continua a ignorar ou fingir desconhecer.

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