Os Mercedes, Audi e BMW eram melhores do que os Trabant mas isso nem era o mais importante

Já andei um semestre no Goethe de Lisboa, já passei meses a ouvir as gravações do sistema Pimsleur, já cheguei a comprar livros tipo German for Dummies, mas a verdade é que nunca fui até ao fim na vontade de aprender alemão. Um dia ainda arrisquei perguntar em Berlim a alguém que passa de bicicleta onde ficava a Estação do Zoo, mas depressa tive de me render e confessar que não falava a língua: Ich spreche kein Deutsche.

E, no entanto, sou fascinado pela Alemanha, país que neste sábado celebra os 30 anos da reunificação. Fascinado sobretudo pela história, mas também por uma certa arte de viver, simbolizada talvez na caricatura do bávaro a beber uma caneca de cerveja e a comer uma salsicha na Oktober Fest. E que dizer da cultura alemã, evidente nos museus magníficos como os que há em Berlim (o Pergamon mais do que todos, para mim), também na literatura (em Lübeck não deixei de visitar a casa de Günter Grass) e sobretudo na música (está a celebrar-se os 250 anos do nascimento de Beethoven)?

Esse meu fascínio estende-se a alguns dos seus estadistas, desde logo o chanceler Bismarck, arquiteto da unidade alemã (a outra, a conseguida em 1870), mas também de medidas sociais que foram pioneiras no mundo. Admiro igualmente Konrad Adenauer e Willy Brandt, chanceleres notáveis, um como fundador da RFA em 1949, o outro como obreiro na normalização de relações com a RDA, o que lhe valeu o Nobel da Paz em 1971. Ambos, um democrata-cristão e o outro social-democrata, foram opositores a Hitler, pagando a recusa do nazismo com a prisão (Adenauer) e o exílio (Brandt). Claro, é impossível não realçar também Helmut Kohl, justamente chamado chanceler da reunificação, e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Hans Dietrich-Genscher. Aproveitaram genialmente os ventos da história, da vontade de abertura do soviético Mikhail Gorbachev à inesperada queda do Muro de Berlim. Nem sequer um ano passou entre 9 de novembro de 1989 e 3 de outubro de 1990, mas a dupla Kohl-Genscher foi capaz, com o apoio americano, de ultrapassar alguns líderes europeus que, lembrando-se das duas guerras mundiais, ironizavam nos bastidores gostarem tanto da Alemanha que preferiam que houvesse duas.

Nisto de estadistas alemães fascinantes, saltemos para 2020. Estará de partida não tarda muito Angela Merkel, filha de um pastor protestante, criada no leste, por quatro vezes eleita chanceler da nova Alemanha pós-1990. O seu legado é enorme: manteve o país no caminho do sucesso económico (quarta economia mundial, primeira europeia), revelou-se um exemplo ético (do marido a voar em low-cost para se juntar a ela numa visita a Itália às compras na mercearia do bairro), mostrou-se uma humanista quando em 2015 abriu as fronteiras da Alemanha a um milhão de refugiados sírios e, sobretudo, tem sido a líder de que a União Europeia precisa nestes tempos de crise causados pela covid-19. Não esquecer que Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, é uma ex-ministra de Merkel e em especial alguém muito próximo dela. Tal como se viu na crise do euro, em que a chanceler chegou erradamente a ser diabolizada pelos países do Sul, por muito importante que seja o eixo Paris-Bona, o sucesso do projeto de construção europeia depende em grande medida da capacidade de liderança da Alemanha. Veremos como será o pós-Merkel.

Um dia, em reportagem para o DN (sentindo muito a falta de mais aulas no Goethe), andei de comboio de Munique para Dresden, depois para Berlim, por fim para Frankfurt. Eram as legislativas de 2005 e o chanceler social-democrata Gerhard Schröder estava a ser desafiado pela democrata-cristã.

Arranjei maneira de dar um salto a Templin, não longe de Berlim mas já no Brandeburgo. Uma aldeia com muralhas a mostrar que é terra antiga, uma praça central agradável, igrejas. É assim que me recordo do sítio onde Merkel cresceu e ao qual, para se chegar, foi preciso apanhar comboio e autocarro. E redobrei a minha admiração pela jovem que sempre se mostrou estudante de excelência e que acabou por se tornar cientista, não se deixando limitar. Relembra-me um pouco o que senti em Hope, no Arkansas, terra natal de Bill Clinton, outro jovem genial que foi capaz de ir longe, encarnando no seu percurso até à Casa Branca o chamado sonho americano.

Parabéns, pois, Alemanha, por estes 30 anos da reunificação. Que aquilo que correu menos bem seja corrigido, e estou a falar dos extremismos que renascem sobretudo na ex-RDA. Que a Ostalgie, essa nostalgia de um mundo perdido, compensada em parte pelo sucesso do Trabant e do filme Adeus Lenine!, não faça esquecer nunca que não era a RFA que mantinha presos os seus cidadãos com um muro, e isso até é mais importante do que os Mercedes, Audi e BMW serem bem melhores do que os carrinhos simpáticos feitos na RDA. Duvido de que no sistema que caiu de podre em 1989-1990 Merkel alguma vez tivesse sido o que tem sido para a Alemanha e para a Europa em geral.

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