Em defesa de Sherlock

Sir Arthur Conan Doyle não sabe, mas Sherlock Holmes acaba de ganhar uma irmã. Chama-se Enola, e está em cartaz na Netflix num filme com este nome, Enola Holmes. Ela seria a irmã caçula do famoso detetive e do seu irmão mais velho, Mycroft. Parece que, após a morte do pai deles, Sherlock e Mycroft saíram para o mundo e para a glória, abandonando mãe e irmã. E de tal forma que, em todo o cânone de Holmes - como se definem os 56 contos e quatro romances de Conan Doyle sobre Sherlock -, não há uma única referência a elas. Donde só podemos concluir que Sherlock e Mycroft eram dois egoístas, monstruosamente insensíveis, capazes de deixar ao desamparo uma pobre viúva e uma infeliz e indefesa orfãzinha, mesmo sendo sangue do seu sangue. Tsk, tsk.

Vamos com calma. A ideia de criar uma Enola Holmes só foi possível porque, em 2000, os personagens de Conan Doyle, morto em 1930, caíram em domínio público. Significa que, a partir daí, pode tomar-se qualquer liberdade com Holmes, desde não apenas filmar as suas histórias sem pedir autorização como submetê-lo e à sua saga aos mais disparatados acréscimos ou supressões. E o cinema não nos tem poupado disso. Nos últimos anos, o vitoriano Holmes já foi trazido ao século XXI sem mais aquela, descoberto vivo e com mais de 90 anos em 1946 e até descongelado de uma criogenia a que teria sido submetido décadas atrás e ressuscitado no futuro. Tudo, claro, com o propósito de "atualizá-lo" - como se Sherlock precisasse disso e o seu universo pudesse dispensar as lupas, os cabriolés e os cães suspeitos por não latir.

Enquanto a obra de Conan Doyle esteve sob o controlo do seu espólio, havia mais critério nas adaptações. Geralmente, os pedidos de transposição dos personagens para novas histórias no cinema, na literatura ou em qualquer meio eram submetidos a organizações dedicadas ao estudo e à preservação da imagem do personagem. A mais importante eram os Baker Street Irregulars, um círculo internacional fundado em 1934, em Nova Iorque, composto por scholars capazes de responder a qualquer pergunta sobre Holmes - por exemplo, qual era a composição de fumos que ele usava em seu cachimbo ou o número do regimento em que o Dr. Watson, amigo do detetive, serviu na Índia como médico antes de conhecer Sherlock. Os próprios netos e bisnetos de Conan Doyle eram e são autoridades em Holmes.

Nos livros de Conan Doyle, como sabe todo o autêntico sherlockiano, os "irregulares" - pequenos delinquentes - de Baker Street eram os miúdos de rua que o detetive às vezes usava para entregar uma mensagem ou vigiar um suspeito nas vizinhanças - o líder deles, Wiggins, parecia descendente direto do Artful Dodger, de Charles Dickens, em Oliver Twist. Na vida real, os Baker Street Irregulars analisavam cada pedido para decidir se este se adequava ao cânone ou se seria impróprio para os padrões estabelecidos. Foram eles que autorizaram, por exemplo, que, em 1962, o escritor W. S. Baring-Gould compusesse a sua opulenta biografia, Sherlock Holmes, com a ousada tese de que Holmes e Watson realmente existiram e que Watson foi o verdadeiro autor das histórias, sendo Conan Doyle apenas o responsável pela publicação delas - quase um agente literário. Os próprios herdeiros de Sir Arthur aprovaram essa ideia, sinal de que ela se sustentava.

Outra grande autorização dos Irregulars foi para um dos seus membros, o escritor Nicholas Meyer, que, em seu livro A Solução Sete por Cento, de 1974, recriou a viagem de Holmes a Viena em 1890, levado por Watson para se tratar com um certo médico local, Dr. Sigmund Freud. Pelo visto, somente este Dr. Sigmund, através de novas especialidades, a psicanálise e a hipnose, conseguiria livrar Holmes de sua conhecida dependência da morfina e da cocaína (o sete por cento do título referia-se à quantidade da droga que ele misturava com um solvente ao se injetar). Foi quando soubemos que o professor James Moriarty, que Holmes considerava o cérebro por trás de todos os crimes importantes na Londres do seu tempo, fora na verdade seu tutor e professor de Matemática na juventude - matéria com que Holmes nunca se deu bem e, por isso, o inofensivo Moriarty tornou-se um arquicriminoso em seus delírios provocados pelas substâncias.

Outro livro que veio preencher um importante lapso em tudo o que sabíamos de Sherlock foi The Missing Years, de 1999, do tibetano Jamyang Norbu, que reconstituiu o que aconteceu após a "morte" de Sherlock nas cataratas de Reichenbach, na Suíça, em luta contra um hipotético Moriarty. Na verdade, Holmes passou os dois anos seguintes na Índia e no Tibete, incógnito, protegendo-se de um plano dos seus inimigos para matá-lo. Ao mesmo tempo, na pele de um explorador norueguês chamado Sigerson, fez descobertas arqueológicas que impressionaram o mundo e, de passagem, ajudou a solucionar tramas que confundiam a polícia da região. O próprio nome Sigerson já era uma pista - o pai de Holmes, como revelado na biografia por Baring-Gould, era de origem norueguesa e chamava-se Siger. O livro de Norbu baseou-se nas reminiscências de Hurree Chunder Mookerjee, funcionário do governo indiano e que esteve ao lado de Sherlock naquelas peripécias, as quais lhe valeram ser admitido na Royal Society de Londres, seu sonho na vida.

Como se vê, até ao romper do milénio, tudo que envolvia Sherlock Holmes era submetido ao mais rigoroso escrutínio. Se ele tivesse uma irmã ela já teria sido detetada há muito tempo. Donde nós, sherlockianos rigorosos, só podemos concluir ser uma fraude essa súbita e espúria interferência no cânone. E temer que algum aventureiro o conspurque ainda mais com alguma história de Sherlock Holmes às voltas com a covid-19 e canastrões como Donald Trump ou, Deus proteja Sherlock, até mesmo Jair Bolsonaro.

Jornalista e escritor brasileiro

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