Wigan Athletic. Foi clube-milagre e agora é o primeiro insolvente devido à pandemia

Dave Whelan tem uma estátua no estádio porque foi ele que, em 1995, reinventou um clube pequeno que havia de conquistar a Taça de Inglaterra. Agora, assiste ao declínio porque os novos donos, de Hong Kong, deixaram o Wigan ao abandono por causa da covid-19.

Wigan é uma cidade situada a meio caminho entre Manchester e Liverpool, precisamente as duas principais metrópoles do norte de Inglaterra, onde se localizam os dois clubes que têm dominado o futebol inglês nas últimas temporadas - Manchester City e Liverpool. Só que esta cidade de pouco mais de 80 mil habitantes vive momentos de angústia por causa do seu clube, o Wigan Athletic Football Club, o primeiro a declarar insolvência por causa da pandemia de covid-19.

A situação é complicada e obriga os Latics, assim são conhecidos, a serem desde já geridos por uma administração judicial de insolvência. Além disso, de acordo com os regulamentos, já sabem que vão perder 12 pontos na classificação... só não sabem quando. A equipa ocupa atualmente o 14.º lugar do Championship, o segundo escalão do futebol inglês, com 50 pontos, oito acima da zona de despromoção.

Na prática, se o Wigan conseguir no campo pontos suficientes para a permanência, os 12 pontos serão deduzidos de imediato, podendo essa subtração levar à descida para a League One. No caso, de o Wigan descer de divisão, antes da aplicada a penalização, começará a próxima época no terceiro escalão com 12 pontos negativos. Os adeptos sentem a guilhotina por cima das suas cabeças e já não se livram de uma crise financeira que ameaça o futuro do clube.

Amargura de Dave Whelan "criou" o Wigan

O Wigan Athletic foi fundado em 1932, mas andou sempre nos escalões secundários, até que em 2005 subiu pela primeira vez à Premier League, atingindo em 2013 o grande feito da sua história ao conquistar a Taça de Inglaterra numa final com o vizinho Manchester City, com um triunfo por 1-0, graças a um golo de Ben Watson em cima do minuto 90. Curiosamente, um troféu que chegou no ano em que a equipa... desceu de divisão. Até essa altura, os adeptos do Wigan eram os únicos que podiam cantar a plenos pulmões que nunca tinham sido despromovidos na Premier League.

Estes sete anos na ribalta do futebol inglês só foram, no entanto, possíveis graças a Dave Whelan, um homem que tem hoje 83 anos e que deu uma nova vida ao Wigan quando em 1995 comprou o clube com a promessa de o levar à Premier League. Não só conseguiu esse feito como também construiu um novo estádio, razão pela qual na entrada principal do recinto esteja uma estátua sua a segurar a Taça de Inglaterra.

Foi uma relação de sucesso que, curiosamente, nasceu de uma enorme frustração de Dave Whelan, quando era defesa do Blackburn Rovers e sofreu uma das maiores desilusões da sua carreira naquele que devia ter sido o jogo mais importante da sua carreira: a final da Taça de Inglaterra de 1960, em Wembley, que acabaria por perder (0-3) para o Wolverhampton.

Mas pior do que isso foi o facto de Whelan não ter sequer terminado essa partida, pois aos 43 minutos sofreu uma entrada duríssima de Norman Deeley e fraturou a perna. E como um mal nunca vem só, acabou por ser dispensado no final da época, tendo por isso estado dois anos sem jogar. Acabou por ingressar no modesto Crewe Alexandra, onde ainda jogou quatro épocas, antes de se virar para o ramo dos negócios.

Dave Whelan montou uma rede de supermercados que tiveram um enorme impacto na sociedade britânica no final da década de 1960. Começou a construir um império, que em 1978 lhe permitiu arrecadar uma fortuna na altura - 1,5 milhões de libras (1,6 milhões de euros ao câmbio atual). Whelan mudou então de ramo e fundou uma empresa de retalho de artigos desportivos, tornando-se um dos líderes do mercado no Reino Unido.

A fortuna que amealhou fez com se reacendesse o desejo de voltar ao futebol e, uma vez que enquanto futebolista não pode representar o seu clube do coração, decidiu comprá-lo, em 1995. O Wigan estava no quarto escalão, em 1999 inaugurou o novo estádio com capacidade para 30 mil espectadores e em 2005, dez anos depois de se ter tornado dono do clube, festejou a subida à Premier League. Foram sete anos de sonho para um clube modesto, que se foi mantendo numa das principais ligas mundiais com classificações sempre abaixo do 10.º lugar.

Novos donos de Hong Kong não apareceram

A conquista da Taça de Inglaterra em 2013 foi o ponto mais alto do clube, mas ao mesmo tempo o início de um duro regresso ao passado. Já com quase 80 anos, Dave Whelan passou a presidência do clube ao neto e a consequência foi a queda do clube no terceiro escalão. Mas havia uma questão de honra, era preciso deixar o clube numa posição aceitável e, como tal, em 2018, depois de garantido o regresso ao Championship, a família Whelan vendeu o Wigan a uma empresa sedeada em Hong Kong, sem qualquer ligação sentimental àquele clube pequeno que ousou fazer frente aos gigantes de Inglaterra.

O negócio passou a sobrepor-se ao futebol propriamente dito e o Wigan acumulou um défice de nove milhões de libras (quase 10 milhões de euros) logo na primeira época dos novos donos, que começaram a fazer contas à vida por causa do Brexit. Em dezembro, começaram as negociações com outra empresa de Hong Kong, a Next Leader Found, tendo a operação sido concluída por 40 milhões de libras (44 milhões de euros) durante o mês de maio, no auge da pandemia de covid-19. O problema é que a injeção de capital nunca chegou, o que levou o Wigan à insolvência.

Gerald Krasner, um dos administradores de insolvência do clube, admitiu à rádio BBC Manchester que o Wigan "era muito bem gerido", o grande problema foi que "o financiamento não entrou nas contas". E, nesse sentido, revelou que não conseguiu ter qualquer contacto com os novos donos do clube, admitindo que "pode ser algo relacionado com a pandemia". Agora, a administração de insolvência tem como objetivo salvaguardar os empregos e encontrar um novo proprietário, até porque Krasner já avisou que "é preciso entrar dinheiro rapidamente" para resolver os problemas.

Quem ficou destroçado com a situação do Wigan foi Dave Whelan que já veio dizer que está disponível para ajudar. "Vou ter de me meter nisto porque estou chocado com o que está a acontecer. Trata-se do Wigan, eu construí o estádio e tenho obrigação de ajudar de alguma forma", disse o empresário de 83 anos ao portal Talksport.

O problema é que o Wigan não deverá ser o único clube inglês em situação complicada a nível financeiro por causa da pandemia, até porque ao contrário da Premier League e do Championship, o terceiro e quarto escalões não foram retomados, pelo que, sem receitas, é bem possível que em breve sejam conhecidos outros emblemas em situação de insolvência.

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