Quando uma só pessoa cruzar uma fronteira é notícia mundial

A notícia de que alguém vindo da Coreia do Sul tinha cruzado a DMZ e entrado na Coreia do Norte parece ilógica, tamanho é o fosso de desenvolvimento económico entre as duas metades da península, além de que a escolha é entre uma vibrante democracia e uma ditadura que junta resquícios de estalinismo com ultranacionalismo e culto da dinastia Kim. Mas não é algo inédito, pois conhecem-se alguns casos, sobretudo de fugitivos do Norte que nunca se habituaram ao modo de vida no Sul. E até de alguns soldados desertores americanos, como Charles Robert Jenkins, que viveu quase meio século na Coreia do Norte, casou-se com uma japonesa raptada pelo regime e teve com ela duas filhas.

Do ponto de vista histórico, e também linguístico, só existe um povo coreano, uns 80 milhões de pessoas se somarmos os 50 milhões que vivem na Coreia do Sul com os 25 milhões que habitam a Coreia do Norte e algumas comunidades na China, na Rússia e no Cazaquistão. Mas a divisão em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, da península em duas metades sob a esfera de influência soviética (acima do paralelo 38) e americana (abaixo) levou à criação em 1948 de duas repúblicas inimigas e praticamente de costas voltadas desde que a guerra de 1950-1953 terminou num empate, com ligeiras alterações fronteiriças.

DMZ significa zona desmilitarizada, mas, como testemunhei em três visitas vindo de Seul, na verdade é a fronteira mais vigiada do mundo, com campos de minas ao longo de uma faixa de quatro quilómetros de largura que se estende por 248 quilómetros entre os dois mares que banham as Coreias. A hipótese mais realista de ter sucesso numa fuga é na zona muitas vezes identificada como Panmunjon, onde estão os pavilhões azuis que serviram para assinar o cessar-fogo de 1953: os mesmos pavilhões, ainda há pouco tempo, num dos raríssimos momentos de distensão Norte-Sul, serviram de cenário para apertos de mão entre Kim Jong-un e Moon Jae-in e também entre o líder norte-coreano e Donald Trump, então presidente dos Estados Unidos, que o regime de Pyongyang considera o adversário com quem a paz por assinar deve ser feita.

Num discurso há dias, Kim afirmou que 2022 será um ano para as atenções se centrarem na economia. Apesar das escassas informações que chegam da Coreia do Norte, o encerramento do país por causa da covid-19 terá ainda deixado em piores condições a já frágil economia. Com o presidente Moon de saída (há eleições neste ano), acumulam-se as incógnitas sobre a relação intercoreana. E se os discursos de um lado e do outro têm evitado ser belicistas ao extremo, nenhuma das Coreias abdica de investimento na defesa, ao ponto de o Norte ter armas nucleares e não pensar em desistir delas por muitas promessas de ajuda económica que venham do Sul ou da América. Mesmo assim, talvez o tratado em falta esteja próximo.

Qualquer que tenha sido a razão para o cruzamento da DMZ deve servir para mostrar que uma divisão que foi um legado da Segunda Guerra Mundial e que depois se tornou um legado da Guerra Fria continua tão cheia de riscos que uma única pessoa atravessar uma fronteira se tornou notícia.

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