Governo francês pode ceder na guerra com coletes amarelos

O presidente não cede quanto aos responsáveis pela violência que assolou a França. Mas de um extremo ao outro do espetro político - partidários de Macron incluídos - exige-se ouvir os revoltosos e suspender o aumento do preço dos combustíveis.

Atormentados pela crise dos coletes amarelos, os deputados da República em marcha (LRM) têm saído a terreiro defender soluções para a crise. E se isso já era uma realidade antes da violência de sábado - comparável ao Maio de 68 - mais correligionários do partido de Emmanuel Macron exigem uma moratória sobre os aumentos do imposto sobre o combustível.

Entre a maioria parlamentar, há quem defenda que o executivo, primeiro-ministro Edouard Philippe à cabeça, não mostrou abertura. "A violência de ontem é inaceitável. Nós não podemos deixar o nosso país entrar no caos. Os deputados da LRM deram os alertas e propostas, o primeiro-ministro deve ouvi-las. É urgente abrir o diálogo e propor soluções imediatas ", tuitou a deputada da ala esquerda do partido, Emilie Cariou.

No canal LCI, o deputado Sylvain Maillard defendeu não só a suspensão da aplicação do aumento da carga fiscal, mas também o aumento do salário mínimo nacional. "O que os coletes amarelos nos dizem é 'eu não posso fazer face às despesas'." Mostrou-se agradado pelo facto de representantes dos coletes amarelos se mostrarem recetivos a falar com o governo. "Tudo deve estar em aberto", defendeu.

O deputado Florent Boudié também defende a suspensão do aumento dos impostos. "Partilho a ideia de vários dos meus colegas de uma moratória fiscal, em especial o imposto do carbono", disse ao Le Monde, para depois defender mais do que isso. "Desde sábado, o movimento dos coletes amarelos entrou em uma nova dimensão. Há urgência em responder à violência, mas a resposta não pode ser limitada à segurança pública. A questão não é apenas de tributação ecológica, mas mais amplamente a da relação entre os concidadãos e os seus representantes", defende.

O Le Monde também deu conta de que o deputado ecologista da LRM, Matthieu Orphelin, tinha chamado a atenção do primeiro-ministro para a introdução de medidas sociais relacionadas com a transição energética. E propôs a criação de um bónus a título excecional e transitório para os cidadãos das áreas rurais e suburbanas. Esse bónus seria pago nos anos em que o preço do barril de petróleo estivesse elevado.

Ameaças de moção de censura

A convergência da oposição contra o executivo começou antes do sábado de caos e destruição. O Senado votou pela suspensão do imposto de consumo sobre produtos energéticos, o que pode abrir espaço a que a Assembleia Nacional siga o exemplo dos senadores, quando a proposta de lei for discutida em meados do mês.

À direita, o presidente republicano Laurent Wauquiez pediu para "dar a palavra aos franceses" e reiterou a sua ideia de um referendo sobre a política económica e fiscal de Emmanuel Macron.

Já a extrema-direita, através de Marine Le Pen, e a extrema-esquerda, através de Jean-Luc Mélenchon, defenderam a dissolução da Assembleia Nacional através de moções de censura.

"Há que introduzir a proporcionalidade e dissolver a Assembleia Nacional para organizar novas eleições legislativas", escreveu Le Pen.

"A solução em democracia é sempre a democracia: dissolução da Assembleia Nacional", escreveu Mélenchon, que pouco depois lembrou que todas as revoluções francesas começam por revoltas de natureza fiscal.

Ao centro-esquerda, o líder do PS, Olivier Faure, propôs a suspensão do imposto e a realização de uns Estados Gerais sobre o poder de compra.

Horas depois, Faure escreveu a Macron a pedir uma concertação nacional, um diálogo que envolvesse partidos, sindicatos, associações e organizações não governamentais, além de um debate parlamentar e a ideia anteriormente apresentada dos Estados Gerais.

A primeira resposta do executivo foi a de manutenção do rumo. No domingo, segundo o Eliseu, Emmanuel Macron insistiu na necessidade "de que nenhum dos atos" ocorrido no sábado "ficasse sem resposta judicial".

"Dissemos que não mudaríamos o rumo porque é o correto", disse o porta-voz do governo, Benjamin Griveaux..No entanto, abriu a porta ao diálogo. "Por outro lado,estamos mais abertos ao diálogo", revelou, para acrescentar que o executivo estava pronto para discutir com representantes dos coletes amarelos que assinaram um texto no Journal de Dimanche a defender o diálogo .

Por fim, o presidente Emmanuel Macron deu indicações para o chefe do governo, Edouard Philippe começar, já nesta segunda-feira, a receber os líderes dos partidos, além dos representantes dos coletes amarelos.

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