Voando sobre uma velha e hoje tão necessária "entrevista" 

Esta semana, o DN não publicou, republicou a entrevista dada por Adolfo Hitler a António Ferro, um nome grande deste jornal. O pretexto foi uma efeméride feliz, festejam-se os três quartos de século do suicídio de Hitler, e a entrevista foi feita há 90 anos. Repita-se, pois, a "Agitada e sensacional entrevista com Adolfo Hitler, chefe dos nacionais-socialistas", como dizia a manchete original do DN, num domingo de novembro de 1930 - e repita-se tantas vezes quanto, falte ou não como o pão para a boca, o bom jornalismo é sempre pão.

O artigo é uma exposição das contradições da vida, ensino sem o qual não entendemos o que nos rodeia, ontem ou hoje. Aquele Ferro que, no artigo, lemos sobranceiro com um ditador a brotar (segundo nas eleições desse ano, iria ganhar as de 1933 e afogar a democracia alemã, e de seguida as europeias), estivera pouco antes fascinado a escrever sobre Mussolini.

E será fotografado pouco depois, atento, venerador e obrigado, assistindo outro ditador (Salazar) a ser esculpido num busto que ele, Ferro, encomendara, nas suas funções oficiais de propagandista. Contradições da vida que são úteis de conhecer num autor. Na última frase do seu artigo, Ferro permite-se ser grandiloquente: "Não é assim que se faz história? Talvez não. Mas é assim, pelo menos, que se faz jornalismo". Uau, que campeão da liberdade!, poderia ironizar quem, sabendo de Ferro, veria ali uma contradição...

Acresce que a "sensacional entrevista" é uma tanga. A dado passo, ainda sem o encontro com Hitler, o próprio Ferro teme pelo "naufrágio" da sua reportagem. E

E o mesmo crítico até podia fundamentar o desdém. António Ferro escrevia assim sobre Hitler porque ao contrário de outros ditadores, o alemão dos "olho azuis, alucinados" que criava à volta de um "teatrinho de marionetas, de fantoches articulados" mandou o jornalista português passear mais à entrevista...

Acresce que a "sensacional entrevista" é uma tanga. A dado passo, ainda sem o encontro com Hitler, o próprio Ferro teme pelo "naufrágio" da sua reportagem. E o que vem a seguir são três perguntas arrancadas num corredor e uma delas até a pedido dos propagandistas do entrevistado ... E outra sem relevância politica (monarquia era então a menor das preocupações dos alemães)... E a terceira pergunta parece ser para Hitler encaixar um slogan: que os nazis eram "pela paz, mas não paz de Versalhes".

Então, porque o alarido sobre este trabalho de António Ferro e a repetição de este jornal ao publicá-lo? Pois, pela mais elementar das razões: porque é histórico e é grande, grande jornalismo. Contradição com o que eu disse atrás? Claro. Justíssimo exemplo de que o mundo está cheio de contradições e de gente contraditória. Mas o problema é nosso quando nos negamos a navegar entre as contradições e os contraditórios e estes têm qualidade. Perdemos. E mais grave, não sabemos o que perdemos. Ora António Ferro tinha múltiplas qualidades como jornalista.

Desde logo, o talento do faro. Mesmo quando ainda não percebia a enormidade que vinha com Hitler, a verdade foi que partiu para a capital do mundo do horror a vir, Munique. E a verdade é que mesmo sem poder adivinhar quem viriam a ser aqueles que se cruzaram com ele, Ferro pôs-se a jeito para lá estar. Um dos lados mais deliciosos deste texto é a tanta gente não citada, mas presente e que terá papéis históricos em breve.

Se entrevista de Ferro pode ser um simples gancho, trazendo Hitler como isco, a reportagem que ele consegue de um quase não-encontro é dos mais notáveis textos jornalísticos da língua portuguesa.

O Dr. Hanfstaengl que é o seu guia pela cidade, vai acabar a década traindo Hitler e estará no gabinete do presidente americano F. Roosevelt, como conselheiro sobre a Alemanha nazi. Ferro quer uma foto para o DN publicar?

Vai ao estúdio de Heinrich Hoffmann, o fotógrafo oficial de Hitler, onde encontra "empregadinhas gentis, que passeiam as suas mãos, todo o dia, sobre o insensível chefe..." Como não suspeitar que Ferro esteve com Eva Braun, que há meses trabalhava na loja do seu tio Hoffmann? Sim, essa mesma que há 75 anos se suicidaria com o seu marido, Adolfo Hitler. E como estes exemplos, tantos mais.

Se entrevista de António Ferro pode ser um simples gancho, trazendo Hitler como isco, a reportagem que ele consegue de um quase não-encontro é dos mais notáveis textos jornalísticos da língua portuguesa. Traz o eu do repórter logo para a primeira palavra: "Chego", diz ao pôr o pé em Munique, como Hemingway escrevia romances nesses anos 20. Os diálogos com o guia Hanfstaengl são secos, curtos e irónicos, fazem lembrar o brasileiro Luis Fernando Verissimo. António Ferro é moderno como o jornalismo português precisa urgentemente de ser. Parece uma contradição, e é.

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