Olhar o mapa

Portugal tem de se tornar mais relevante no mundo. Para isso tem de apostar e investir mais na política externa. São necessários mais meios mas também mais ambição.

A nossa rede diplomática é deficitária, o que torna Portugal quase ausente em regiões e países onde há muito já deveria ter embaixada. Desde logo África. Mas também a Ásia. Portugal está bem presente na África lusófona mas pouco presente na restante África, em especial na Subsariana. É por isso que temos que identificar rapidamente uma estratégia portuguesa na relação com o continente africano. Uma estratégia ambiciosa. Outros países já a têm há muitos anos. Desde logo França, China, Japão, Turquia, Reino Unido, Rússia, Qatar, Índia, Arábia Saudita, etc. Todos estes países apostam fortemente no continente africano. E têm toda a razão.

No continente africano residem grandes oportunidades mas também potenciais problemas futuros para a Europa. É por isso que África deve ser prioritária para a Europa, em geral, mas para Portugal em particular. Devemos contribuir ativamente nas instituições europeias para que exista de facto uma ambiciosa agenda de parceria com o continente africano. Infelizmente o governo português nem foi capaz de ficar com a organização da próxima Cimeira UE-África, que deveria ocorrer durante a nossa presidência. Uma enorme derrota do governo português.

Em África devemos rapidamente abrir embaixadas na Costa do Marfim, no Gana e na Tanzânia. Reforçar a nossa presença diplomática junto da União Africana em Adis Abeba. Sermos membro observador da CEDEAO (organização multilateral regional da África Ocidental). Devemos também efetuar, ao mais alto nível do Ministério dos Negócios Estrangeiros, visitas oficiais regulares e constantes aos países africanos (não só países lusófonos), o que não tem acontecido. Devemos continuar a apostar muito na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa [CPLP] cada vez mais como um fórum político para uma estratégia comum que abrange a América Latina, a Europa, África e a Ásia. Também deveríamos contribuir para que a CPLP tenha escritório de representação em Nova Iorque junto das Nações Unidas.

Na Ásia (incluindo a Ásia Central) é urgente reforçar as nossas embaixadas com mais diplomatas e abrir rapidamente embaixadas no Vietname e nas Filipinas e estudar a abertura na Malásia, no Sri Lanka, no Bangladesh e em Myanmar. Mas abrir embaixadas disponibilizando bons meios humanos e financeiros, associados a uma boa estratégia, para que existam resultados rápidos dessa aposta e oportunidade.

Portugal tem de voltar a ter uma diplomacia presente no mundo inteiro apostando na diplomacia política, na diplomacia económica, na diáspora, na diplomacia cultural, do património, da língua e da história e na diplomacia gastronómica. Apostar cada vez mais numa diplomacia digital. Deve também apostar numa diplomacia aérea através da companhia TAP, que já tem uma muito boa rede na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos, boa em África mas má na América Latina e inexistente na Ásia. Ainda nesta "diplomacia aérea" apostar num grande hub aeroportuário em Lisboa. Para isso apostar em ter mais ligações aéreas com cidades da China. Apostar em ligações aéreas diretas com hubs importantes como Singapura e Banguecoque, na Ásia. Ligação direta a Buenos Aires, cidade do Panamá, Bogotá e Cidade do México, na América Latina. Ao Cairo, a Adis Abeba e a Joanesburgo, no continente africano. Portugal deve seguir o exemplo dos EAU, da Turquia, da Etiópia e do Qatar, que utilizam a sua principal companhia aérea como fazendo parte de uma estratégia de política externa.

Portugal também tem de apostar num eficiente serviço de inteligência com elementos em algumas cidades decisivas, nesta matéria, como Londres, Moscovo, Teerão, Telavive, Riade, etc. Informação é poder.
Em matéria de organizações regionais Portugal deveria ser membro observador do Caricom (reúne os países das Caraíbas), da SICA (reúne os países da América Central) e do Fórum do Pacífico (reúne os Estados insulares do Pacífico). Portugal deveria também reforçar as suas cotas e contribuições para a banca multilateral, como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), a CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina), o BAD (Banco Africano de Desenvolvimento) e do BAI (Banco Asiático de Investimento). Reforçando a nossa participação acionista nestas instituições, as nossas empresas terão maior acesso a créditos para que possam concorrer a grandes obras na América Latina, em África e na Ásia. Também a nossa presença na SEGIB (Secretaria-Geral Ibero-Americana) deve ser ainda mais reforçada. Portugal deve ter cada vez mais uma política evidente de defesa do multilateralismo - com destaque para as Nações Unidas - e de uma política de defesa comum através da NATO. Naturalmente que como membro da União Europeia devemos contribuir para o reforço deste fantástico projeto. Um projeto de integração regional excecional que tem mantido a paz e contribuído para o desenvolvimento da Europa, do Mediterrâneo e do mundo.

Devemos também apostar muito mais numa política atlântica e do mar. Não só porque somos na verdade um país Euro-Atlântico como também, na União Europeia, temos essa obrigação acrescida depois da saída - na minha opinião lamentável - do Reino Unido. Mas principalmente devido ao facto de termos sobre a nossa gestão uma enorme área de mar atlântico que nos é dada pela Madeira e pelos Açores - regiões decisivas nesta estratégia de política externa - e que justifica uma clara aposta de hub atlântico triangular entre as Américas, a Europa e África.

Assim, a nossa política externa deve continuar a apostar, mas reforçar, aquilo que é. Uma política externa credível, séria, previsível, moderada, generosa e de diálogo (de paz), multilateral. Nunca seguidista. Sempre com opinião própria.

Deputado e presidente do IPDAL

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