Desconfinar

Vivemos um ciclo político que acumula várias crises e para as quais ainda não vimos respostas eficazes. À crise económica e social juntaram-se a crise ambiental, a crise humanitária e a crise pandémica. Se é verdade que estas crises exigem respostas internacionais, também é verdade que precisamos de respostas nacionais. A crise pandémica que vivemos veio reforçar a necessidade de rutura com o modelo atual. Numa altura que os países se preparam para abandonar gradualmente as medidas mais restritivas, quais são os sinais no sentido dessa mudança?

Hoje, mais do que nunca, tornou-se visível a importância e a centralidade do Estado e dos serviços públicos. Basta pensar na tragédia que teria sido se respondêssemos a esta crise com as regras dos privados. Hoje, mais do que nunca, é visível o preço que pagamos pelo desinvestimento no serviço nacional de saúde e pelos ataques à legislação laboral. Pois é, tudo isto parece evidente, mas os primeiros sinais não são tão cristalinos. A par do anúncio das medidas de desconfinamento, o Ministério da Saúde veio anunciar que o SNS irá recorrer mais aos privados para recuperar a atividade. Ora, o tempo é o de reforçar o SNS, de reconhecer os seus profissionais, de contratar os profissionais que faltam, de equipar os serviços. Transferir dinheiro público para os privados, que não hesitaram em fugir quando a crise começou, é o gesto contrário ao que seria necessário. Do lado das entidades patronais chega-nos o apelo da Confederação da Indústria Portuguesa para uma entrada do Estado que salve da crise. Isso mesmo, os que antes bradavam por menos Estado são os que agora pedem que este seja mais presente. Não falamos obviamente das pequenas, médias ou micro empresas, falamos daquelas que optam por fugir aos impostos e obrigações em Portugal e que agora recorrem ao Estado português.

Esta crise terá vastos impactos económicos e sociais e temos já o desemprego e a pobreza a atingirem largas franjas da população. Esta crise tornou ainda mais visíveis as desigualdades existentes. Isso é particularmente evidente quando se abandonam tantos trabalhadores e trabalhadoras em situação de precariedade, quando se recorre ao lay-off, quando se deixa tanta gente sem rendimentos e, ao mesmo tempo, assistimos à distribuição de rendimentos pelos acionistas de grandes empresas, como foi o caso da Galp logo depois de ter anunciado a suspensão de atividades na refinaria de Sines.

Já o sabíamos antes, mas é hoje mais visível ainda que a solução para esta crise não virá nem das políticas neoliberais nem da extrema-direita, mas não virá também do modelo de política atualmente dominante. Os primeiros sinais não foram famosos. Esperemos por uma reorientação que seja uma resposta efetiva que não deixe ninguém para trás e que ajude a democratizar a nossa economia para que possamos viver sem medo.

Eurodeputada do BE

Mais Notícias