Carta aberta e esperançosa às gerações mais velhas

Diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues escreveu a pedido do DN uma carta aberta às gerações mais velhas, às quais chama de tesouro inestimável da nossa sociedade.

Espero que seja verdade o que escreveu o dramaturgo russo Anton Tchékhov: só abrimos bem os olhos quando somos infelizes. Se assim for, teremos a capacidade coletiva de aprender durante a travessia da tempestade que é esta pandemia, olhando melhor para o que é mais importante. Seria bom que os dias difíceis que estamos a viver nos tornassem mais sábios e servissem para compreendermos que as gerações mais velhas são um dos tesouros inestimáveis da nossa sociedade. Seria fundamental que compreendêssemos que aqueles que, nas últimas semanas, nos habituámos a nomear como um grupo de risco são, na verdade, um grupo que não podemos arriscar perder. É a vós, os mais velhos de entre nós, que endereço estas palavras e a minha esperança.

Espero que neste tempo de distanciamento social tenhamos a capacidade de sentir (de sofrer, mesmo) a falta que nos fazem e a falta que vos fazemos. Ao abandonarmos de modo gradual o confinamento a que temos estado sujeitos, o regresso à vida não deveria significar voltarmos à normalidade de antes. Devíamos aproveitar para trilhar convosco um caminho que nos dirija a uma sociedade em que envelhecer não seja sinónimo de solidão, negligência, abandono. Não apenas por vós, mas por nós e pelos vindouros. Devíamos, com a força das coisas inadiáveis, compreender que o que fizermos por vós hoje é o que podemos aspirar a que façam por nós no futuro. Devíamos saber cuidar de vós.

Espero que nos ajudem a entender que não faz sentido falar do "vosso tempo" porque quem está vivo está sempre no seu tempo. Agora que nos vai ser exigido um esforço extraordinário para regenerar as nossas comunidades, devíamos encontrar maneira de contar com a vossa experiência para levar a cabo essa tarefa. Devíamos apelar com humildade à vossa participação na família, no trabalho, no lazer. A escritora inglesa Virginia Woolf escreveu que, com a idade, passamos a apreciar melhor a primavera. Em todos os setores da nossa sociedade, precisamos de gente que saiba apreciar a primavera. Precisamos de avós, biológicos ou não, mas sobretudo afetivos e culturais.

Como nos diz o psiquiatra Daniel Sampaio, "ser avô é uma paixão" e as nossas crianças precisam mais do que nunca dessas relações em que a empatia e o prazer são soberanos, em que o exercício da memória e o fenómeno de transmissão asseguram uma educação com valores. Também em muitos setores da sociedade devíamos saber pôr de lado a nossa arrogância e a nossa obsessão pela produção e pelo consumo desenfreados. O poeta e cardeal José Tolentino de Mendonça escreveu recentemente que "a velhice é um laboratório de vida presente e não só passada, uma escola onde se aprofunda o significado da esperança e do amor". Nas empresas, nas escolas, nos hospitais, nos teatros, nos estádios, não podemos dar-nos ao luxo de continuar a dispensar a vossa proverbial sabedoria. Devíamos deixar-vos cuidar de nós.

Espero que sejamos capazes de tratar-vos como iguais, usando de compaixão, mas não de condescendência. Isso significa termos consciência de que entre vós estão muitas pessoas que contribuíram para as profundas desigualdades sociais e a precariedade laboral com que ainda se debate a nossa sociedade, flagelos como a violência doméstica e o racismo sistémico, ou a crise climática em que está mergulhado o planeta. No entanto, entre vós estão também as pessoas que construíram a democracia em que vivemos; que conquistaram a liberdade de que agora beneficiamos; que foram perseguidas, presas e torturadas pela ditadura fascista em nome dos direitos que hoje nos são garantidos; que construíram o Sistema Nacional de Saúde que hoje vem em nosso socorro; que se bateram pela igualdade e pela justiça; que pesquisaram e puseram a ciência ao serviço do nosso bem-estar; que trabalharam a terra e desenvolveram as indústrias; que criaram as obras artísticas a que hoje chamamos o nosso património cultural; que se sacrificaram, com um sorriso, em nome das gerações futuras, migrando, trabalhando, educando, pesquisando, semeando, defendendo, criando, cuidando de um futuro que agora é o nosso presente. Estar na vossa presença é estar em face da substância das pessoas e do povo que somos. Devíamos cuidar melhor do que fizeram por nós.

Espero que vos saibamos amar da maneira que merecem, com esse amor que é a forma mais perfeita de atenção e respeito. Sei que somos inúmeros, os que esperamos que este amor seja cada vez mais possível. Mas não basta esperarmos. Temos de fazer melhor do que isso. "Podes esperar tudo da vida, mas nunca fiques à espera", dizia-me a minha avó Ana, vendo-me empoleirado durante tardes inteiras na cerejeira da minha infância, distraído da tarefa que me tinha sido atribuída de colher as cerejas maduras. Por isso, aqui vai a pergunta que tinha para vos fazer: se pedirmos com educação, ensinam-nos a apreciar a primavera?

Diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II

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