A Fundação Calouste Gulbenkian e a resposta à crise da covid-19

A par da crise sanitária, o mundo vive uma crise social, económica e política. A situação das comunidades mais frágeis agrava-se e intensifica as desigualdades. O futuro vai depender do que fizermos agora para preservar a dignidade das pessoas.

1. A par de uma crise de saúde, o mundo atravessa uma crise social, económica e política com uma dimensão incalculável e que abala as estruturas mais profundas da nossa sociedade. Esta crise agrava, por isso, a situação das comunidades mais frágeis, intensificando as desigualdades de uma forma que ainda não conseguimos completamente discernir.

Podemos não saber o que vai acontecer, mas tenho a certeza de que o nosso futuro vai depender do que fizermos agora para preservar a dignidade das pessoas e a sobrevivência das instituições da sociedade civil mais atingidas por esta pandemia.

Devemos, por isso, mobilizar todos os esforços, públicos e privados, para responder a estes desafios, sob pena de a "nova normalidade" que vier a ser conquistada perecer por falta da equidade que marca as nossas sociedades.

2. Para as fundações, a atual crise lança, por isso, um desafio, eu diria, quase de identidade, uma vez que estamos mais vocacionados para trabalhar no longo prazo e menos para atuar na emergência.
Na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), no entanto, as nossas mais de seis décadas de existência ensinam-nos que devemos estar sempre preparados para ir para o terreno e levar a ajuda a quem mais dela necessita e fazê-lo o mais rapidamente possível.

A assistência imediata não deve, porém, perder de vista a necessidade de preparar a recuperação - o regresso ao que ainda podemos considerar o curso normal das coisas, qualquer que ele venha a ser -, sob pena de apenas funcionar como um paliativo e não como uma verdadeira terapia.

3. Por este motivo, desde o início do estado de emergência, decretado em Portugal em 19 de março, a FCG constituiu um fundo de emergência com um montante inicial de cinco milhões de euros.

Ao todo são 18 iniciativas nas diferentes áreas em que a FCG normalmente atua - saúde, ciência, sociedade civil, educação e cultura (ver quadro), que numa primeira fase atendeu a duas dimensões essenciais: por um lado, com prestação de ajuda direta às populações mais fragilizadas, desde os doentes, os idosos, as minorias étnicas, os refugidos e, em geral, as pessoas em risco de pobreza; por outro lado, dando uma maior flexibilidade na gestão dos apoios que já tinham sido atribuídos, garantindo assim a necessária continuidade quer das organizações da sociedade civil que prestam serviços essenciais às populações quer dos projetos de investigação dos nossos bolseiros.

4. A FCG foi capaz de repensar o seu programa e concretizar no terreno estas ações de emergência num inédito curto espaço de tempo. Foi capaz de, ao mesmo tempo que prestava apoio às comunidades mais marginalizadas, contribuir para a capacidade nacional de produzir equipamento médico de primeira necessidade (projeto do CeiiA de produção de ventiladores). Manteve as ações mais estruturantes usando a já referida flexibilidade na gestão dos projetos que já estavam em curso e lançou novas iniciativas viradas para o futuro, como o apoio a soluções tecnológicas para resolver questões de saúde e a investigação científica.

Através do apoio a soluções de base tecnológica de implementação rápida - plataformas e apps - procurou-se fazer o acompanhamento à população, designadamente no apoio a lidar com o isolamento, à partilha de informação fidedigna e à gestão adequada da sintomatologia e da doença.

Por outro lado, no domínio da ciência, aproveitaram-se as plataformas tecnológicas e as competências científicas do Instituto Gulbenkian de Ciência para promover o conhecimento científico sobre o vírus e, juntamente com outras instituições na área de Lisboa, estamos a desenvolver novos testes para produção e implementação, designadamente serológicos, tendo em conta que o diagnóstico é a ferramenta mais forte que temos neste momento contra o vírus.

5. Por último, acredito que esta crise obriga-nos a pensar mais longe, a focarmo-nos no que é essencial, com uma estratégia que deve incorporar as lições entretanto adquiridas. Refiro-me sobretudo aos bons exemplos de cooperação institucional, que sobressaem nos momentos mais difíceis, e a capacidade de a FCG se adaptar de forma construtiva e solidária a um momento de crise incomparável.

Como subscrevi na semana passada, numa carta do antigo presidente da França, fundador e presidente da Re-Imagine Europa, Valéry Giscard d'Estaing, publicado em simultâneo em diferentes jornais europeus: "Temos de aproveitar esta oportunidade para re-imaginar o nosso sistema social e económico, para que seja mais justo, mais sustentável e mais resiliente."

Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian

Mais Notícias