A ameaça comunista e a ideologia do contrário

Não será segredo para ninguém que o centro-direita está com dificuldades em estabelecer um discurso. As últimas crises financeiras deixaram-no em boa parte sem discurso.

Curiosamente, o nosso centro-direita, ao contrário dos partidos do mesmo espectro político na Europa, não deveria estar a sofrer do mesmo problema. Sempre foi moderado, pragmático, nunca foi saudosista da ditadura (bem ao contrário de boa parte do PP espanhol, por exemplo) e sempre rejeitou os delírios dos liberais de badana.

A verdade é que a esmagadora maioria dos votantes no centro-direita português continua a seguir essa linha. Porém, tem sido difícil recuperar dos tempos da troika. E não só por as pessoas casarem aqueles tempos difíceis com o PSD e o CDS, mas por estes partidos terem aderido à absurda tese dos donos da Europa do "viver acima das possibilidades" e terem assumido que aquele era o caminho certo com o célebre "ir além da troika". O facto é que esses tempos corresponderam a um delírio ideológico distante da essência do PSD, e até do CDS, que levará tempo a ser esquecido sobretudo por parte do eleitorado tradicionalmente votante no PSD e das margens que vagueiam entre os dois partidos do centro.

O PSD está de regresso à sua génese, mas existe uma franja à direita que apesar de muito marginal é muito audível. Conta com um jornal (o Observador, bem entendido) e uma presença desproporcionada nos media para o que de facto representam socialmente.

Ainda não se percebeu quais são exatamente os valores políticos dessa gente. Alguma coisa entre o tal liberalismo de badana, as políticas austeritárias, o culto da autoridade, um conservadorismo serôdio e, mais do que tudo, um suspirar permanente pelo regresso de Passos Coelho. No entretanto, por não saberem exatamente o que querem ou por não quererem dizer, optaram por uma teoria da conspiração que sendo perigosa chega a ser divertida.

Para esta rapaziada, que dá vazão aos seus delírios nas redes sociais, no site referido e esporadicamente em órgãos de comunicação social, o mundo em geral vive hoje sob a ameaça comunista.

Aqui em Portugal vivemos numa fase avançada de socialismo, aliás. A coletivização está em marcha, os comunistas (em todos os partidos, aparentemente) dominam isto tudo e não fora a vigilância destes defensores da liberdade já o Vasco Gonçalves tinha ressuscitado para tomar conta disto.

O próprio PSD, neste momento, não passa de um aliado dos socialistas/comunistas, pois não só não denuncia o comunismo vigente como, imagine-se, até dirige a palavra a pessoas de partidos à sua esquerda.

Se alguém os levar a sério e tentar dizer que não é exatamente esse o extremismo que está a alastrar pelo mundo, é certo e sabido que leva com o Maduro ou com a Coreia do Norte.

Lembrar que já há na Europa governos tomados pela extrema-direita e que noutros países as votações em partidos desses são muito significativas é perda de tempo. E se se disser que não há um único caso de um país na Europa que tenha partidos que queiram instaurar um regime comunista ou de tipo soviético, é garantido que se é chamado de comuna avençado.

É vê-los argumentar que um sinal avançado do socialismo-comunismo das pessoas é criticarem muito o Orbán, mas não falarem logo do Maduro (como se um democrata pudesse em consciência defender um miserável da envergadura do venezuelano) ou do Iglesias. Nuns casos é só desconversa, noutros militância troglodita e, claro, há os que no fundo gostam mesmo dos Orbáns e quejandos.

Repito, é um pequeno grupo.

O problema é que tem afetado verdadeiros democratas de centro-direita que são necessários à reafirmação desse espaço.

Veja-se o exemplo das eleições brasileiras. Nessa altura, não faltaram pessoas insuspeitas de gostarem de ditaduras a afirmar que se pudessem votar abster-se-iam. Eram públicas as declarações de Bolsonaro a favor da ditadura, os elogios a torturadores, o desprezo pela democracia e pelo Estado de direito, mas como o outro candidato era de esquerda não votariam nele. Entre um tipo com quem partilham os valores essenciais e outro que defende tudo o que combatem, escolhem a imparcialidade, ou seja, ajudam o admirador de torcionários.

Não duvido de que sabem que essa esquerda é tão democrática como a direita de que fazem parte, mas deixaram-se influenciar por uma perigosa doença política: a definição pelo contrário.

Não será necessário explicar o ridículo que é rejeitar qualquer ideia, qualquer conceito apenas porque veio de um outro lado da democracia. O perigo vem da descredibilização do setor político que tem esta conduta e essa, infelizmente, afeta-o em geral, mesmo existindo uma clara demarcação.

Claro que há intenções mais sinistras nesta estratégia, com que os moderados estão, no limite, a pactuar. Quer-se dividir, criar trincheiras, tornar o diálogo impossível. Não é em vão que muitos dos que fazem o discurso da definição pelo contrário recorram tantas vezes ao insulto pessoal e à desconsideração absoluta pelos argumentos do outro.
A democracia exige espaços de consenso, e para os criar é necessário o mínimo de diálogo, de empatia com os adversários políticos. O que os radicais pretendem é que as pessoas façam escolhas tribais em questões que dizem respeito a todos, obrigá-las a escolher barricadas, a antítese da democracia liberal.

No fundo, a rejeição da própria democracia.

Agora somos nós

Não há sucesso nenhum quando uma doença mata e empobrece tanta gente em tão pouco tempo.

Por esta altura, o que sabemos é que, ao nível da saúde pública, não correu demasiado mal: em vários países mais ricos do que nós as coisas correram bem pior. O nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) não colapsou e conseguiu-se criar estruturas de emergência em tempo recorde. Além disso, não houve problemas de ordem pública e o abastecimento de bens essenciais manteve-se inalterado.

O combate ao vírus ainda está no princípio e a possibilidade de descobrir uma vacina, produzi-la e distribuí-la ou a descoberta de um medicamento eficaz é ainda um cenário longínquo.

O que já está muito presente é a crise económica e social, não havia alternativa que não fosse começar a trabalhar com a normalidade possível. Claro que vamos passar por muitas dificuldades, não só porque ainda vai haver muitas limitações mas também porque a nossa recuperação depende dos nossos mercados externos, do regresso do turismo etc., etc., etc.

Seja como for, com ou sem o plano governamental, as pessoas tinham mesmo de sair de casa. Neste momento, o Governo está a tentar gerir uma situação que podia tornar-se incontrolável.

Sendo inevitável a reabertura do país, cabe agora a todos nós decidir a dimensão do surto que inevitavelmente surgirá - temos um baixíssimo nível de imunidade, a consequência menos boa do confinamento.

Todos sabemos quais as medidas de segurança a ter, os meios de contágio, o facto de se poder ser portador do vírus e não se saber. Estas semanas tornaram cada português um especialista nesta pandemia.

Às autoridades pouco resta fazer. Agora cabe à comunidade decidir se quer que o SNS se mantenha operacional e com capacidade de resposta e se está interessada em proteger os nossos pais e os nossos avós. No fundo, se somos uma verdadeira comunidade e não um simples conjunto de indivíduos.

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