Club Istambul

Quem conhece a história de Gracia Mendes ou Nasi, a judia lisboeta que foi uma das grandes banqueiras da Europa no século XVI e encontrou no Império Otomano refúgio das perseguições religiosas, poderá ter uma ideia da língua que falaria em família se vir Club Istambul, uma série turca que terá segunda temporada na Netflix já esta semana.

Extraordinária pela reconstituição do ambiente de época, a cosmopolita Istambul da década de 1950, Club Istambul brilha também no cuidado com que os atores que interpretam judeus turcos aprenderam ladino para vários diálogos. E quem vir a série, se estiver atento, perceberá que aquilo que parece espanhol não o é realmente. O ladino é a língua dos judeus ibéricos, muito influenciada pelo castelhano, mas que inclui expressões como "meu portugalinho". O já falecido Sam Levy, nascido em Izmir e cuja família tinha fugido de Portugal no tempo de D. Manuel I, decidiu em meados do século XX voltar ao país dos antepassados e costumava contar que era assim que a mãe o chamava para junto dele em criança.

A par dos Países Baixos, potência protestante, o Império Otomano, cujos sultões seguiam o islão mas praticavam uma política de tolerância religiosa, foi o grande refúgio dos judeus sefarditas, palavra que vem de Sefarad, Hispânia em sentido abrangente ou Península Ibérica. Em Club Istambul são visíveis os traumas que os tempos finais do Império Otomano, desafiado por sucessivos nacionalismos, deixaram na República da Turquia. Fundada em 1923 por Mustafa Kemal Ataturk, esta fez-se garante da sobrevivência do povo turco, cujos interesses as grandes potências tinham ignorado no final da Primeira Guerra Mundial. E, a par da modernização e da adoção do laicismo, emergiram pouco a pouco pressões para a turquização das várias minorias. A comunidade judaica não escapou a essas pressões e é disso que Club Istambul fala com uma admirável sinceridade, ignorando tabus.

Um dia ouvi a Coreia do Sul ser elogiada não apenas por produzir filmes e séries de sucesso que apresentavam o país como um modelo de perfeição mas sim por também conquistar a admiração global ao exibir obras críticas da sua sociedade, como o oscarizado Parasitas. Club Istambul funciona dessa forma para a Turquia, pois faz-nos apaixonar por Istambul e por toda a modernidade legada por Ataturk ao país contando-nos uma história nem sempre bonita.

Durante décadas, o alinhamento da Turquia com o moderno Israel ajudava a que se pensasse que, desde o tempo de Gracia Nasi, também conhecida como A Senhora, tudo tinha sido perfeito nas relações turco-judaicas. Mas desde o episódio de 2010 do Mavi Marmara, barco turco que tentava chegar a Gaza em solidariedade com os palestinianos, muito mudou. Nove ativistas turcos foram mortos e as responsabilidades foram atribuídas aos militares israelitas. As relações bilaterais arrefeceram, afastando a Turquia de Israel, e logo quando vários países árabes, em sentido contrário, decidiam normalizar os laços com o Estado Judaico.

Quem vir Club Istambul notará que a tentação de partir para Israel era forte entre os judeus turcos, mesmo que alguns na comunidade relembrassem que ao fim de quatro séculos aquele país já era a sua casa e não havia razão para emigrar. Hoje serão talvez no máximo 20 mil os judeus turcos.

O que sentirão esses sobreviventes de uma comunidade que em tempos foi numerosa ao verem a série na Netflix não sei, mas posso assinalar como razões para otimismo a recente restauração da sinagoga de Kilis, cidade turca próxima da fronteira com a Síria, onde foi celebrado o Hanukkah pela primeira vez em 60 anos. E sobretudo o sinal dado pelo presidente Recep Erdogan ao convidar de surpresa em dezembro para um jantar em Ancara, enviando o avião oficial buscá-los, os rabinos de países muçulmanos reunidos em Istambul, como o rabino-chefe da Turquia, Isaak Haleva.

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