Um sorriso para o Carlos do Carmo

2021 começou triste com a partida de Carlos do Carmo. Ele que fez Lisboa Menina e Moça para o mundo inteiro ouvir. Ele que é a Voz de Lisboa, que interpretou como nenhum outro a alma e o sentir da cidade.

Desaparece o homem mas a voz e os fados ficam porque Carlos do Carmo e Lisboa não se separam. A sua voz e o seu reportório são, por direito, como que uma espécie de banda sonora de Lisboa, onde todos nós, coletivamente, nos reconhecemos. Carlos do Carmo permanecerá em todos nós sempre que alguém entoar as Canoas do Tejo ou quando em qualquer rua ou viela de Alfama alguém assobiar Os Putos. Sim, Carlos do Carmo será sempre "O Homem (da) na Cidade" de Lisboa.

Carlos do Carmo desempenhou um papel fundamental na reconciliação do Portugal democrático com o fado, ao ultrapassar as visões que no pós-25 de Abril entendiam limitar o fado a uma expressão datada e politicamente associada. Homem de esquerda, de pensamento e intervenção, filho de fadista e com o fado em si desde cedo, Carlos do Carmo desempenhou esse papel (e porventura seria o único a conseguir fazê-lo naqueles tempos) de afirmação do fado como expressão profunda e agregadora da cultura portuguesa. Foi nessa altura, através das cassetes que minha avó repetidamente punha a passar, que ainda criança conheci a sua voz e aprendi a gostar dos seus fados.

Carlos do Carmo foi um dos grandes artífices da modernização e da projeção internacional do fado. Foi mentor entusiasta do Museu do Fado - hoje uma das instituições mais emblemáticas da Câmara de Lisboa - e o embaixador da candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade. E de forma tantas vezes invisível agregou as forças e as energias do fado, apoiando, incentivando, projetando o que são hoje os grandes nomes das novas gerações de fadistas, guitarristas e outros artistas e as múltiplas inovações que têm introduzido. O fado como expressão do Portugal moderno e cosmopolita é também obra de Carlos do Carmo.

Por todas estas razões a Câmara de Lisboa fez dele a única personalidade a quem atribuiu as Chaves da Cidade, não sendo ele chefe de Estado ou de Governo. Foi em novembro de 2019, no seu último concerto no Coliseu de Lisboa, aos 80 anos, num momento memorável de despedida dos palcos. Momento ainda mais marcante para quem conhecia de perto a frágil situação de saúde com que se debatia nos últimos anos e o que a preparação daquele concerto representava. Durante os meses que o antecederam muitos amigos tentaram dissuadi-lo da ideia, temendo que algo não corresse bem. O Carlos teimou e fez do concerto mais uma prova da sua excelência, do seu profissionalismo e do seu profundo amor e respeito ao público e ao fado.

Por último uma palavra sobre o amigo. Comecei a privar com o Carlos há cerca de sete anos, por altura das eleições autárquicas de 2013 em que o Carlos apoiou a candidatura de António Costa que eu integrava. Separavam-nos muitos anos e gerações de diferença (pois tenho a idade do Gil, seu filho mais novo) e aproximavam-nos muito as referências políticas, a atitude cívica, e, naturalmente, Lisboa e o seu futuro. Anos mais tarde, quando concorri à presidência da Câmara de Lisboa, o Carlos deu-me o privilégio da sua confiança e do seu apoio. Ofereceu-me na altura um papel manuscrito com uma lista de princípios, recomendações e ideias para o meu mandato (soube na altura que fizera o mesmo com António Costa anos antes e em circunstâncias semelhantes). Nos múltiplos encontros que ao longo dos anos fomos mantendo, o manuscrito era invariavelmente início da conversa que continuávamos: "Ainda se lembra do papel? Tem lido? Olhe que é importante..." Hoje releio o manuscrito que me deixou e que começa com uma palavra, destacada e isolada, escrita em letras grandes: "Sorriso". Sim, porque para tudo, e apesar de tudo, no Carlos o sorriso é espelho da grandeza da alma. Hoje, Carlos, não conseguimos. Mas amanhã cá estaremos todos a continuar a sorrir contigo.

Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

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