"Passei o Natal de 1974 com Jonas Savimbi e Zau Puna"

Entrevista a Helder Adegar Fonseca, professor catedrático em Évora, historiador hoje muito focado na África Austral, incluindo essa Angola onde nasceu e que deixou em 1975 para só lá regressar mais de três décadas depois. Conta a sua adesão, muito jovem, à UNITA e também a rutura com o movimento por causa do nepotismo nascente. Agora que se vai aposentar imagina o futuro como investigador associado a instituições relevantes na escrita da história da África Austral, e chama a Angola a sua mátria.

Numa aula sua de doutoramento na Universidade de Évora chegaram a estar sentados o número um e o número dois das forças armadas de Angola e ainda um terceiro general. Como é que tem alunos tão especiais? É por causa da sua ligação a Angola, onde nasceu?
De facto é também devido a uma especial ligação a Angola. Em 2008-09, a Universidade de Évora iniciou um programa de cooperação com a Universidade Metodista que incluiu a oferta de alguns programas de mestrado. Na sequência dessa experiência, as ligações estenderam-se ao ISCED (Instituto Superior de Educação - UAN) de Luanda, no domínio do mestrado em Ensino de História.

Professores de Évora passaram a ir a Angola dar aulas?
Ao ISCED, sim, no mestrado em Ensino de História de África e Angola. No âmbito desse mestrado, que era muito frequentado por oficiais militares, alguns dos estudantes fizeram a tese de mestrado connosco e depois mostraram interesse em prosseguir na Universidade de Évora os seus estudos doutorais.

Estamos a falar, entre esses militares, do general Nunda, que foi chefe do Estado-Maior até 2018?
Não, neste caso refiro-me aos generais "Kamorteiro" e França. O general Nunda fizera anteriormente o mestrado no ISCED, mas demonstrou também interesse em fazer o doutoramento connosco.

Explique melhor essa ligação a Angola.
Eu nasci em Angola, vivi lá até março de 1975, fiz várias coisas em Angola, e algumas delas ficaram na memória de algumas pessoas. Regressei a Angola como professor da Universidade de Évora e cheguei à Universidade Metodista num domingo de manhã - a surpresa foi que nesse dia houve uma generosa fila de pessoas que sabiam que eu tinha chegado e me foram visitar.

Pessoas que o conheciam?
Alguns eram velhos amigos e pessoas que me conheciam dos anos 1960-70. O facto surpreendeu a então reitora Teresa Silva Neto e pareceu-me não haver nenhuma razão para não evocar as minhas antigas ligações à UNITA. Em 1974-75, quando eu estava a sair da UNITA - saí em agosto de 1975 - estavam a entrar no Movimento os agora generais "Kamorteiro" e França...

O professor nasce em Angola. Onde e quando?
Eu nasci em Angola em 1954, na pequena vila de Teixeira de Sousa - término do Caminho de Ferro de Benguela (CFB), hoje Luau -, que ficou particularmente conhecida devido ao ataque da UNITA, em 25 de dezembro de 1966, que assinalou a entrada deste movimento na luta armada.

Estava lá nessa altura?
Não. Eu nasci lá, o meu pai era então empregado numa serração mas eu saí de lá com meses. Voltei em novembro de 1972 como professor primário. Tinha 18 anos, recordo que o meu pai teve de assinar a emancipação.

Era habitual alguém de 18 anos dar aulas?
Não era vulgar, mas acontecia. Era uma das oportunidades de trabalhar. Na altura, eu fiz uma escolha. Alguém me disse: "Vais para Portugal estudar, para a Universidade de Coimbra, com estas condições que eu ofereço..." e eu respondi que não era esse o meu caminho.

Preferiu ficar em Angola, apesar da guerra?
Sim. A guerra existia e nós tínhamos a noção da guerra e dos seus propósitos. Teixeira de Sousa era uma vila cercada.

Era uma zona da UNITA?
Era zona de trânsito da UNITA e do MPLA, embora na época a UNITA já estivesse instalada (empurrada) um pouco mais para o interior (Bié). Digamos que era uma zona de passagem de guerrilheiros com alguma ação. Em 1972 ocorreu um episódio que ficou na memória: notando a falta de interesse das instituições civis, o líder do clube recreativo da vila chamou a atenção do administrador do Concelho para a necessidade de organizar alguma coisa para celebrar o Dia de Portugal. Lusitano Tolstoi, que era um euro-africano, disse que o faria, mas aquilo correu mal. E correu mal porque os professores do liceu recusaram as celebrações, o padre da missão católica também não alinhou e houve uma grande confusão na programação que se traduziu numa muito fraca participação da população. Recentemente li um relatório da DGS local sobre o assunto: nele o agente comentava que na área de Teixeira de Sousa os movimentos de libertação estavam praticamente controlados e inativos, o problema estava "[n]estes [professores] euro-africanos que são quase todos separatistas".

Quem eram exatamente os euro-africanos?
Ele referia-se especificamente a pessoas brancas e mestiças que eram naturais de Angola. E o agente tinha razão. Na verdade, naquele período notava-se uma grande distância entre uma parte expressiva da população branca, as forças armadas e a metrópole.

Conte um pouco das suas raízes. Pai e mãe nascidos em Angola?
O meu avô materno (carpinteiro de ofício, natural de Ovar) foi para Angola no início do século XX e participou no processo de ocupação do planalto de Huambo (via CFB), instalando-se na zona do Catchiungo/Bela Vista. Fez parte do grupo dos pioneiros daquela região e a minha mãe, que era a quarta de uma grande prole, nasceu em 1927. Por conseguinte, tratada como "branca de segunda" como os irmãos. O meu pai nasceu na região de Viseu (1929), filho de lavradores, e foi para a colónia em 1946/47, pós-Segunda Guerra Mundial.

É um período de migração para Angola?
Sim. Começou então um movimento mais intenso para o povoamento branco de Angola e de Moçambique. O meu pai, então muito jovem, foi puxado por uma rede familiar que de Benguela se estendeu ao Huambo. Começou uma vida como empregado comercial. Depois estabeleceu-se como comerciante (1955) no Planalto, num povoamento comercial (Alto Chiumbo), próximo de outro onde então vivia o meu avô materno (Chiumbo). Ali vivemos até eu e o meu irmão atingirmos a idade escolar, que motivou a mudança para a Bela Vista (1960).

Quando se torna professor primário, é suposto ser chamado para o serviço militar?
Em janeiro de 1974 fiz a inspeção. Um ano depois, no centro de recrutamento do Huambo, foi-me perguntado se eu queria prosseguir no exército português e a minha resposta foi não. Abriu-se uma "questão" militar só ficou resolvida quando eu estava a acabar o curso em Coimbra.

O 25 de Abril, para si, um branco de Angola, numa terra que já estava a começar a sentir essa divisão entre a metrópole e um novo projeto de nação, como é que foi visto?
Fui aluno do Liceu Norton de Matos em Nova Lisboa/Huambo (1970-1972), tendo aí completado o 7.º ano (alínea de Direito). Admito que a memória seja essencialmente uma criadora do passado, mas a ideia que eu conservo da minha sociabilidade estudantil é que, de um modo bastante generalizado, havia um grande distanciamento identitário em relação à metrópole e havia mesmo a perspetiva de fratura a curto prazo. A nossa geração provavelmente fá-lo-ia.

Mas era no âmbito do nacionalismo angolano ou havia a tentação de seguir o modelo da Rodésia?
É provável que tenha havido a tentação de uma independência branca. E contrariamente à ideia mais comum de que os brancos em Angola eram uma gente despolitizada, que estava dependente da metrópole, que tinha uma posição subalterna no sistema político e na administração, eu tenho muitas dúvidas sobre a generalização daquela perspetiva. É provável que algumas das pessoas que têm escrito sobre este período da descolonização estivessem à espera de encontrar em Angola uma tentação rodesiana. Eu acho que os brancos em Angola tinham duas características: uma parte expressiva, cerca de metade, já eram naturais de Angola, sendo a outra metade maioritariamente composta por naturais de Portugal; mas no conjunto, a maioria, a avaliar pela escassas visitas e as transferências para a metrópole já estaria desnacionalizada, optando por Angola. Nas vésperas de eu viajar para as bases da UNITA, em dezembro de 1974, a minha mãe e uma outra pessoa confidenciaram-me que tinha chegado "também" o momento dos "brancos de segunda". Não foi o que acabou por acontecer. Ainda hoje não estão esclarecidas as contingências que conduziram a tal desfecho. É uma matéria que merece investigação detalhada.

Portanto pais, tios, toda a família alargada, queriam ficar?
Na sua amplíssima maioria poderia ter convicção nessa opção.

Dos três movimentos de libertação, o MPLA era o que atraía mais os brancos ou a UNITA atraía também?
Em maio de 1975, numa reunião formal, Agostinho Neto (MPLA) disse a Melo Antunes considerar a FNLA um partido que não deveria fazer parte do futuro de Angola, o MPLA como o único representante do "povo angolano"; quanto à UNITA, porque representava os brancos (está registado em ata), podia fazer parte da solução. É uma perspetiva falsa, mas interessante.

Porque se vê a UNITA como o partido dos brancos?
Que não era. É claro que a UNITA incorporou o discurso integracionista dos brancos e no passado da UNITA havia também ativismo branco (como no MPLA). A então designada "4.ª Força" (pró-independência branca) se não foi uma quase-inventona, foi uma "atriz" violenta mas com uma expressão localizada e residual.

Pessoalmente fez uma opção pela UNITA. Foi uma opção arriscada?
Foi apenas uma opção. Os meus contactos com a UNITA começaram em 1972/73 quando eu estava no Moxico, como professor primário. A UNITA tinha uma célula na cidade do Luso e eu cruzei-me com um amigo de infância, Sabino Sandele (Cornélio). Em toda a zona de ação havia várias pessoas brancas com essas ligações.

De qualquer forma, o professor vem para Portugal em 1975 na vaga dos chamados retornados.
Vim para Portugal em março de 1975, uma semana depois do primeiro congresso nacional da JURA - organização da juventude da UNITA. Isto envolveu uma negociação com a minha família.

Portanto, não veio naquela vaga de quem perdeu tudo com a descolonização?
Eu vim nesse quadro, mas com outros propósitos, ligados à fundação das primeiras células da UNITA em Portugal, no caso, em Coimbra. Fiz treino político nas bases da UNITA entre dezembro de 1974 e janeiro de 1975. Foi um passo que eu achei natural ser dado. Nunca me ocorreu fazer parte de uma organização pró-independência branca. Permaneci em Portugal, entre Coimbra e Lisboa, de março a julho de 1975.

Os seus pais vieram consigo?
Eu vim como os meus pais e irmãos, fazendo parte de uma negociação. A minha mãe recusava-se a vir para Portugal se eu não viesse. Foi necessário previamente negociar com a UNITA.

A vida deles passou a ser cá também, em Portugal?
Alguns experimentaram a emigração europeia

Mas ficaram lá várias pessoas da família?
Irmãos da minha mãe e família ficaram no Huambo.

Chegou a conhecer Jonas Savimbi?
Passámos o Natal de 1974 com Jonas Savimbi e Zau Puna na base central da UNITA a sul de Cangumbi (Moxico). Houve uma particular empatia com Zau Puna. Acho que foi mútua.

Quando é que sai de Angola, pela segunda vez, para não voltar?
Entrei no SWA, no dia 3 ou 4 de novembro de 1975. Depois sobrevoei Luanda na noite da independência.

Como?
Regressei a Angola em finais de julho de 1975. Fiz trânsito em Luanda, já com a guerra civil deflagrada, e consegui chegar ao Huambo. Estive uns dias na cidade, onde participei no congresso da JURA (meados de agosto). Correu particularmente mal com um grupo de jovens universitários que criticou as tentações nepotistas do Dr. Savimbi e a promoção da família na liderança da juventude. Acabámos por ser "expulsos" da JURA e procurámos outras soluções dentro da UNITA. Houve alguns que escolheram ingressar nas FALA (forças armadas da UNITA): esses terão morrido mais tarde, no Bié. Eu tinha ligações a um dirigente da UNITA - Honório Van Dunem, que me aconselhou a não ficar em Angola e apoiou ativamente a minha saída. Saí incorporado numa pequena caravana de refugiados. Fizemos o percurso por Serpa Pinto para a Namíbia (SWA). Em rigor, durante o mês de setembro vagueámos pelo sul de Angola. Fomos assaltados e detidos pela SWAPO (Caiundo), ainda ligada à UNITA, e devolvidos a Serpa Pinto (Menongue), onde tivemos de negociar com o Daniel Chipenda, cujas forças integradas na FNLA controlavam, de facto, aquela zona de Angola.

O objetivo final era chegarem à África do Sul?
Era chegar vivo a algum lado seguro. Quando eu estava no Huambo e entrei em rutura com a UNITA foi necessário encontrar alguém que estivesse a organizar uma caravana de gente com destino às terras do sul. Encontrei um colega de liceu, oficial da FNLA e que estava a organizar uma pequena caravana familiar (cerca de 12 viaturas). Eu tinha viatura mas não tinha combustível. Um idoso funcionário branco do CFB, em troca de eu levar comigo o seu filho, um miúdo de 16 anos, ofereceu-me combustível. Assim foi.

Era uma caravana de vários carros que levava proteção militar?
Levava proteção militar da FNLA, mas não a suficiente para evitar o episódio do Caiundo. Regressados a Serpa Pinto, tivemos de estar 15 dias à espera do Chipenda. Entretanto, chegou à cidade uma caravana então estimada em três mil carros.

Eram os brancos portugueses a quererem ir em massa para a África do Sul?
Diria que estavam simplesmente a fugir de Angola.

Estamos a falar em estradas decentes ou em picadas?
Até ao Caiundo estava tudo asfaltado; depois seguia-se um troço de deserto de dez quilómetros, na margem direita do Cubango. A seguir, tínhamos que galgar umas centenas de quilómetros de terra batida (em processo de pavimentação pela TECNIL). Em Serpa Pinto a reunião com o Chipenda não correu bem. Nesse provável primeiro domingo de setembro, o nosso grupo decidiu avançar sozinho e por sua conta para o sul. A partir das cinco da tarde - em Angola já é quase noite -, de meia em meia hora saiu uma viatura. Tínhamos naquela noite de vencer o obstáculo do quartel da SWAPO (ponte do Caiundo) e o troço desértico (um jipe atravessou-o para trazermos um caterpillar da TECNIL para rebocar os carros). E foi feito. Depois a coisa complicou-se porque começou a falhar o combustível e houve gente que teve de ficar pelo caminho. Foi o meu caso e o de um juiz e dos seus progenitores. Ficámos abandonados na picada, a uns 50 ou 60 quilómetros do Cuangar.

Ainda em território angolano, certo?
Em território angolano, na margem do Cubango. Nesse dia, noite dentro, vimos o foco de viaturas a grande distância. Podia ser uma patrulha de guerrilhas. Nós estávamos todos armados e preparámo-nos para o necessário. Felizmente desta vez tratava-se de um pequeno grupo de segurança de um campo de refugiados que estava localizado na margem do Cubango, junto à fronteira, entre os marcos 46-47. Deixaram ali um segurança connosco e foram buscar combustível ao campo. Ficámos nesse campo (Caíra) com cinco ou seis mil refugiados que ali estavam há vários dias. Tinha assistência e controlo sul-africano e da Cruz Vermelha. Encontrei lá muitos colegas de infância e um familiar que nunca tinha visto na vida.

Essas pessoas destinavam-se à África do Sul?
Muitas provavelmente pensariam nesse destino. Eu ia um pouco com esse intuito, tinha contactos com meios protestantes para ali ficar, mas isso não se tornou possível, porque depois os sul-africanos quiseram entrar e forçaram a nossa transferência daquela zona para o Cuangar para preparar a expatriação. A maior parte desta população, a partir de 4-5 de novembro, acabou por ser evacuada diretamente do Cuangar para Windhoek para apanhar aviões da ponte aérea.

Era a TAP que a fazia?
Quem tinha viaturas pôde entrar no SWA e despachar os carros no porto de Walvis Bay (a 800 quilómetros do Rundu). Daí fomos transportados num avião militar para Windhoek, onde a TAP nos recolheu.

Essa operação da TAP para ir buscar os refugiados foi colossal, não foi?
Foi a TAP e foram outras companhias, com o governo português a organizar e outros países a cooperar com naves e a financiar o processo. Foi uma experiência muito interessante para os meus 21 anos. Eu já tinha entrado no SWA uns anos antes, mas desta vez foi diferente. Entrámos num mundo que não só separava os negros dos brancos como juntava aos negros ovambos os brancos provenientes de Angola, por os considerar adeptos do MPLA em fuga. Depois foi o trânsito terrestre atravessando os bantustões, com um rasto de práticas indignas que eu não vira em Angola (o que não quer dizer que não pudessem ter existido).

Na sua experiência de vida em Angola não havia nada que se parecesse com o apartheid sul-africano, imposto também na futura Namíbia?
Mais do que de vida separada, tive a noção de vida desigual, fratura não exclusivamente racial. Vida separada não a conheci nem como estudante nem como professor. A Anabela Muekalia, militante da UNITA, natural do Cubal, logo nas primeira páginas das suas memórias refere que na sua experiência de juventude (anos 1960-70) o problema racial não era visível e apenas o conhecia pela experiência passada evocada pelos progenitores. Acho que a questão racial em Angola necessita de uma análise regional.

Diz que podia variar muito de zona para zona em Angola, mas a sua experiência pessoal foi essa.
A minha família angolana (materna) era misturada. Eu não tenho a experiência de segregação racial, incluindo nas minhas escolhas sociais.

E o tal voo sobre Luanda?
No aeroporto de Windhoek estivemos seis horas isolados num parque cercado de arame farpado, à espera de que chegasse o transporte, no final do dia. Sobrevoámos Luanda por volta da meia-noite. O comandante da nave baixou de altitude para vislumbrarmos os festejos. Fizemos escala em Kinshasa para abastecer. Interessante foi o serviço de voo não dispor de alimentos, mas de bebidas. A pessoas que tinham andado meses em carência alimentar, de repente, foi-lhes servido um "banquete" de bebidas alcoólicas, o que deu problemas em Kinshasa. Chegámos a Lisboa no dia 11 de novembro de 1975 às seis da manhã.

E vai tirar o curso de História em Coimbra?
Sim. É a partir daí que eu decido fazer o curso de História.

Era um sonho seu já antigo?
Eu tive duas coevas paixões: a arqueologia (da resistência à ocupação colonial) e a agronomia (escola RA do Tchivinguiro). Mas o meu pai tinha um plano diferente (advocacia). Foi uma guerra familiar que durou uns tempos e que terminou no dia em que eu disse que não vinha estudar para a metrópole. Mas acabou por ser em Coimbra que fiz o curso de História.

Coimbra por alguma ligação familiar?
Nenhuma. Tinha lá uns amigos de Angola que estavam a fazer Medicina e que me permitiram ficar no apartamento deles durante cerca de um mês, mas depois, com as minhas atividades políticas, tive de mudar para umas águas-furtadas da Baixa, sem casa de banho, na Travessa dos Canivetes.

A licenciatura foi em Coimbra e o doutoramento aqui em Évora?
Sim. Acabei a licenciatura em junho de 1980. Fiz os três primeiros anos convencido de que iria para a especialidade da Arqueologia, mas acabei por fazê-la em História Contemporânea, no subcampo da História Rural.

Com a ideia de ser professor universitário?
Eu fui-me interessando pela investigação em torno da questão agrária, motivado pelos trabalhos que realizei com a orientação do professor Luís Ferrand de Almeida, o meu primeiro grande mestre, e pelos debates sobre a revolução agrária em curso no Alentejo que a disciplina de Geografia Humana (sob a direção do Prof. Alfredo F. Martins) proporcionou. Tal interesse conduziu-me à Universidade de Évora.

Mais uma vez, não tinha nenhuma ligação a Évora?
Não, não tinha. Há 40 anos, em junho de 1980, concluí a licenciatura e surgiram duas oportunidades de iniciar uma carreira académica que muito me atraía: uma no ISCTE e a outra na Universidade de Évora, um concurso para assistente estagiário em História Contemporânea. Optei pela segunda e ingressei no então Departamento de Línguas e História. Já aqui colocado, o professor Augusto Silva (Departamento de Sociologia), entretanto sabedor dos meus interesses, falou-me do arquivo histórico da Casa Eugénio de Almeida e abriu-me o caminho para a ele aceder. Comecei a pesquisa sob orientação do professor Ferrand de Almeida, um extraordinário académico. Quando percebeu que eu poderia beneficiar de uma orientação de alguém mais próximo da minha agenda, não hesitou em falar-me do professor Jaime Reis, que depois apoiou a minha formação até à conclusão da tese de doutoramento.

Qual o título?
Traduzindo a minha evolução historiográfica e a necessidade de superar algumas falácias e aprofundar o debate cognitivo sobre a evolução o Alentejo latifundiário na era liberal, passou de "Os proprietários alentejanos no século XIX" (projeto, 1985) a "Economia e atitudes económicas no Alentejo no século XIX" (1993) [no livro editado pela IN/ICS em 1996, ficou O Alentejo no Século XIX: Economia e Atitudes Económicas]. Teses enraizadas como a do imobilismo económico regional ou do generalizado absentismo e rentismo das elites latifundiárias foram fortemente matizadas.

Nunca teve nenhuma tentação política aqui no Alentejo?
Eu, em Coimbra, como estudante universitário, estive ativamente ligado à UEC, durante três anos. Quando optei pela carreira académica achei que devia distanciar-me do ativismo partidário. Num contexto tão politizado como o dos anos 1980, ainda cheio de revolucionários, reacionários e contrarrevolucionários, considerei que a vida académica devia implicar, especialmente num campo como o do historiador, um distanciamento do ativismo político. Tal perspetiva tornou-se uma força condutora da minha carreira.

Porém...
Com uma exceção. Entre 1985-1986 cai na tentação de integrar uma lista patrocinada pelo PRD à vereação da Câmara de Évora, liderada por um amigo, o arquiteto Nasi Pereira. Com o sequente apoio local à candidatura à presidência de Maria de Lourdes Pintasilgo foi-me proporcionada uma muito interessante experiência para perceber como se controlavam os campos alentejanos. E a coisa morreu aqui.

Não falámos ainda do casamento, dos filhos, como é que aconteceram?
Eu fiz a licenciatura entre 1976 e 1980. Acabei por integrar um grupo de retornados que foi acolhido no Seminário de Coimbra pelas Cáritas Diocesanas. Depois, passei para bolseiro da universidade e para uma residência de estudantes. Conheci a Maria de Belém, angolana e colega de curso, no 2.º ano, começámos a namorar no 3.º ano, casámos no 4.º e tivemos o primeiro filho no 5.º ano (André). Viemos para Évora em outubro de 1980 onde nasceram a Maria Inês e a Maria Teresa.

E ela teve um percurso de vida parecido com o seu?
Em parte, ela veio de Luanda (nasceu na Praia do Bispo) também em 1975. Os pais eram metropolitanos dos arredores de Viseu, como o meu.

Portanto, essa vossa afinidade da experiência de Angola aproximou-os na universidade?
Sim, e a militância política também.

Ela já voltou a Angola consigo?
Já. A Dra. Maria de Belém é coordenadora pedagógica de um dos mais importantes colégios de Angola, que é o "seu" projeto educativo. Está a viver em Luanda.

Está a acontecer isso com muita gente, pessoas que foram retornadas?
Sim, houve muita gente que com a dinamização económica angolana pós-Luena e com a grande recessão portuguesa de 2010-14 foi para Angola. Para alguns deles, foi o verdadeiro retorno e momento de redefinição identitária.

Retornaram ao lugar onde nasceram...
Não foi isso que lhes aconteceu em 1974-75, pois muitos não eram retornados coisa nenhuma. Embora academicamente objeto de controvérsia, acho indispensável manter a classificação de "retornados" para as populações coloniais repatriadas para Portugal em 1974-75, porque o termo foi então estabelecido como um conceito político e racial.

Ou seja, a expressão, embora com defeitos, enquadra o momento?
Ela esclarece o momento.

Falámos há pouco do general Nunda. Naquele processo de paz de 1992, Nunda entra para as forças armadas angolanas em nome da UNITA (mais tarde tornou-se o número um), mas a paz só chega com a morte de Savimbi em 2002. Começou nessa altura a ser otimista sobre Angola?
Há quem ache benéfico o fim do conflito em Angola com a derrota de um dos lados; consideram que se tivesse existido uma paz baseada num compromisso entre a UNITA e o MPLA, tal via seria uma fonte de impasses que tornariam Angola ingovernável, afastando-a do caminho do progresso. Eu não estou em condições de discutir uma tese como esta, mas é claro que a partir de 2002, com o fim da guerra ficou um partido a hegemonizar completamente o poder mas o avanço do índice de Desenvolvimento Humano foi muito modesto.

Mas que conseguiu cooptar gente da UNITA.
Conseguiu cooptar, nos meios militares, gente da UNITA, neutralizando alguns deles. Não foi exatamente o caso nem do Nunda nem de outros que eu conheço: em 1992, Nunda decidiu não acompanhar o afastamento de Savimbi em relação ao sistema e o regresso à guerra civil.

Uma escolha complicada na altura.
Claro. Eu não direi que foi uma escolha desacertada. Acho que em 1992, apesar de, reconhecidamente, ter havido batota no jogo eleitoral - isso, hoje, é um dado adquirido -, acho que se devia ter aceitado os resultados. Savimbi terá sido bem avisado sobre essa matéria, mas escolheu a via militar.

É curioso que Nunda fez a opção em 1992, mas outro aluno seu de que falámos há bocado, "Kamorteiro", está até ao fim com Savimbi.
O "Kamorteiro" é uma figura importante na UNITA. Os Acordos de Luena (Moxico) foram inicialmente assinados pelo então chefe do Estado-Maior-General adjunto das Forças Armadas angolanas, general Geraldo Sachipengo Nunda, e o então chefe do Alto-Comando das FALA, general Abreu Ucuachitembo Kamorteiro. De ambos temos hoje conversado.

Como foi o momento de 2008-09, quando ao fim de quase 40 anos volta a pisar solo angolano?
Foi um momento de afeto. A experiência da descolonização permitiu arrumar na minha cabeça algumas noções de identidade: não sou um patriota, de lado nenhum. Tenho interesse na mobilização em torno de objetivos coletivos e as pessoas são mobilizadas pela segurança, o bem-estar e o progresso.

Pode dizer que é português, como poderia ser considerado angolano se o processo fosse esse?
A partir dos anos 1970, ser português foi meramente instrumental. Sinto-me mais europeu do que português. Mas quando em 2008-09 desembarquei em Luanda, como professor da Universidade de Évora, percebi que era um "filho da terra", que tinha retornado à mátria (usando a expressão da Natália Correia). Formalmente, tenho hoje as duas "nacionalidades"

Está prestes a reformar-se. Qual a sua visão geral da carreira na Universidade de Évora?
No plano individual fiz a carreira que quis. Adotei a agenda de investigação que me interessou (economia e elites regionais; mobilidade social; história social das lutas de libertação na África Austral). Ajudei a fazer um Departamento de História "universitário", é certo que acabou por ter uma duração limitada. Contribuí para a criação de vários centros de investigação (atualmente integro o CICP). Formei investigadores. Valorizo as deceções, como a do não acolhimento do meu programa de candidato a reitor (2009), onde desafiei a instituição para o que designei de "internacionalização interna". Pelos vistos pedia muito, uma "radicalidade" que já na época me pareceu prioritária. Não foi essa a via adotada; certo é que a UE continua sem vencer o gap da internacionalização, uma consciência que agora renasce. Perdeu-se uma década. Tudo somado, foi uma exigente e dedicada mas também animada e divertida carreira. Escolhi bem.

Como historiador, Angola e a África Austral em geral parecem dominar agora os seus interesses. É mesmo assim?
Sim, um interesse quase exclusivamente académico. Por um lado, continuarei empenhado em formar historiadores sólidos mantendo a orientação de teses de doutoramento. Como investigador estou mais focado na região transcolonial/nacional (África Austral) do que no espaço exclusivamente angolano. A agenda é a da luta de libertação, a dos movimentos de contracolonização/descolonização, e a sua evolução pós-colonial. O propósito é ajudar a superar as narrativas ideológicas e enviesadas das histórias nacionalista, patriótica e internacionalista (nas suas múltiplas expressões), com uma narrativa de história cognitiva, desafiar a enraizada historiografia de "combate" com a historiografia do "debate".

Tem plano para umas memórias?
Não afasto essa "perigosa" tentação. Acompanho aqueles que acham que a narrativa memorialística é essencialmente "criadora" de passado para uma confortável acomodação do presente. Por isso, a fazê-lo teria de estar decidido e capaz de evitar tal ratoeira. Para já tenho um lastro de arquivo pessoal e anotações diarísticas.

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