Pobreza e até fome: técnicos de eventos e espetáculos continuam à espera da retoma

Empresas despedem e outras fecham as portas. Praticamente sem atividade desde março, os técnicos de eventos e espetáculos querem apoios mas, mais do que tudo, querem voltar a trabalhar.

No último fim de semana de setembro, Tiago Cação fez-se à estrada. Começou no quilómetro 0 da Nacional 2 e foi por esse Portugal abaixo a pedalar na sua bicicleta. De Chaves a Faro são 738 quilómetros e Tiago percorreu-os em 48 horas. Tudo com o objetivo de angariar dinheiro para a União Audiovisual, um grupo informal criado durante o confinamento para apoiar os trabalhadores deste setor. Criou uma angariação de fundos e propôs-se chegar aos 7380 euros - ou seja, dez euros por quilómetro.

"Fiquei em estado de choque com esta paralisação [do setor audiovisual devido à pandemia de covid-19] porque sabia as dificuldades que os profissionais da cultura iriam enfrentar", explica ao DN Tiago Cação, que neste momento trabalha como booker na editora de música Universal, mas que antes disso trabalhou durante muito tempo em digressões de músicos. "Quis o destino eu ter abandonado a profissão de tour manager em janeiro para passar a ter um emprego estável com um contrato de trabalho. Por esse facto senti a necessidade de ser solidário e ajudar, porque poderia estar exatamente na mesma situação. A ideia da bicicleta foi simples: juntar o meu hobby à causa."

No site da angariação, recorda um pouco da sua experiência como tour manager: "Tive de aprender sobre luz, som, estruturas, palcos, segurança, autoestradas e portagens, aviões e comboios, hotéis e restaurantes, vistos e diplomacia, câmbios, fusos horários, línguas, política e geopolítica", diz aquele que era um dos "homens que se vestem preto e durante o espetáculo são invisíveis". E continua: "Mas há muitos mais invisíveis. Os que montam e desmontam. Os que passam cabos, disto e daquilo, os que penduram ferro pesado e que arriscam a vida fazendo autênticos malabarismos. Gente que deixa tudo pronto para nós. Os que chegamos depois deles: artistas, músicos, público, e quando todos nós vamos para casa, eles ainda cá ficam. A trabalhar, pois claro. Gente que descansa em cima de caixas rijas, que dorme debaixo de palcos, que não tem horários, mas que está sempre pronta a não dormir para viabilizar mais um espetáculo. Faça sol ou frio ou seja a 400 quilómetros de distância. São muitos os que trabalham num espetáculo, mas estes são os que mais trabalham. O show tem de continuar e nós precisamos deles. Eles são invisíveis porque é isso que lhes é exigido profissionalmente, mas, paradoxalmente, tornaram-se na face mais visível da precariedade e do desprezo pela cultura em Portugal."

A angariação termina na próxima segunda-feira, 5 de outubro, e até agora Tiago Cação já reuniu quase seis mil euros que vão ajudar alguns desses "homens invisíveis" a ter um Natal melhor. Mas ele ainda não está satisfeito, diz ao DN: "Satisfeito ficarei depois do objetivo cumprido. Há pessoas em sérias dificuldades para conseguir ir sobrevivendo. Se o Estado falha, a sociedade civil deve intervir. Atualmente corremos o risco de perder trabalhadores altamente qualificados que equacionam migrar para outras áreas (se conseguirem, claro). E isto é grave. Corremos o risco de voltar à estaca zero. Seja na produção, na parte técnica, artística, etc."

Cabazes para os que mais precisam

O dinheiro que Tiago Cação conseguir angariar será entregue à União Audiovisual e será imediatamente convertido em bens alimentares ou outros que sejam necessários para compor os cartazes que esta entidade entrega mensalmente a várias famílias carenciadas. Criada durante o confinamento, a União Audiovisual é, como se autodenomina, um "grupo informal" composto por voluntários, quase todos trabalhadores da área audiovisual, que se juntaram e organizaram para ajudar os colegas que estão a passar por dificuldades devido à paragem de atividade do setor desde março.

"Estamos a falar de músicos, técnicos, realizadores, produtores, toda a gente", explica ao DN António Lebres, técnico de som, e um dos responsáveis pela União Audiovisual. "Não damos dinheiro, damos cabazes com comida e outros bens, adequados ao agregado familiar. As pessoas inscrevem-se e só têm de dizer quantos são e o que precisam mais", explica. O grupo criou um site, uma página no Facebook e uma conta no Instagram, abrindo assim vários canais de comunicação. "Ao início, sentimos que algumas pessoas tinham vergonha de pedir. Mas nós damos a hipótese de o pedido ser anónimo, não pedimos documentos, não exigimos nada, só não queremos que as pessoas passem mal. E mesmo assim sabemos que há muita gente que está a ter dificuldades." Neste momento o grupo apoia perto de mil pessoas.

Tem havido recolhas de alimentos em vários espetáculos e teatros que se associaram à União Audiovisual, mas António Lebres reconhece que depois do ímpeto dos primeiros meses as ofertas estão a ser mais reduzidos. Daí a importância de iniciativas como a de Tiago Cação e outras - por exemplo, a Altice Arena ofereceu "um lugar cativo" para o ano de 2021 que foi vendido por seis mil euros; e também tem havido vários concertos de beneficência (o próximo é o de Agir, no domingo, 4 de outubro, no Village Underground Lisboa).

Despedimentos já começaram

A verdade é que, nos últimos meses, os técnicos de eventos e espetáculos têm tentado ser menos invisíveis. Manifestaram-se em agosto, no Terreiro do Paço, em Lisboa, e repetiram a experiência em setembro, na Avenida dos Aliados, no Porto, para chamar a atenção dos responsáveis políticos para os seus problemas. E a Associação Portuguesa de Serviços Técnicos para Eventos (APSTE), criada em plena pandemia, tem mais de 160 associados que representam mais de 1500 profissionais de todo o país: no último mês, os seus dirigentes reuniram-se com o secretário de Estado do Comércio e foram recebidos pelo Presidente da República e por vários partidos com assento parlamentar. A todos o presidente Pedro Magalhães disse o mesmo: "Nós não queremos subsídios, nós queremos ter condições para trabalhar ou, então, queremos ter condições para sobreviver até podermos trabalhar."

Os técnicos continuam à espera da anunciada retoma. Em março a paragem no setor foi de 100%, a partir do desconfinamento ficou nos 80% - e não dá mostras de melhorar. Pelo contrário. Um primeiro inquérito feito entre os associados em maio permitiu fazer um retrato aproximado das dificuldades do setor: 60% acederam ao regime de lay-off simplificado. "As outras empresas não conseguiram porque tinham dívidas ou outras dificuldades ou porque eram microempresas", explica Pedro Magalhães. "E 56% das empresas disseram-nos que a partir de julho não teriam capacidade para assegurar os pagamentos." No final de agosto, um novo inquérito revelava já uma realidade mais preocupante: 30% das empresas recorreram a despedimentos e "várias já fecharam ou tencionam fechar as portas em breve".

"Neste momento, as perspetivas são muito más para o setor. Começamos a pensar que não vamos conseguir retomar a atividade antes do verão do próximo ano", prevê o presidente da APSTE, referindo-se ao facto de o governo ter voltado a desaconselhar a realização de festivais, feiras e outros eventos. "Houve alguns eventos, uns concertos, a Festa do Avante!, uns festivais pequenos, mas é tudo ainda muito residual. Não tem impacto financeiro nenhum. Os eventos estão totalmente parados, sejam congressos internacionais sejam eventos empresariais. Estamos muito longe daquilo que era a nossa atividade habitual, muito longe mesmo. Os municípios, que em 2018, segundo a Pordata, gastaram 500 milhões de euros em eventos, estão com muito receio porque não querem ser acusados de contribuir para a propagação da doença. E se os municípios não avançam, os promotores privados também não. É uma questão de confiança. Nós consideramos que a saúde é importante mas, neste momento, já não podemos ter tanto medo. Temos de retomar as nossas atividades."

Pedro Magalhães admite que sem o lay-off e sem as moratórias que têm permitido adiar o pagamento dos créditos - "muitas empresas que fizeram um grande investimento no início do ano, porque se previa um ano de muito trabalho, endividaram-se e agora têm empréstimos para pagar" - a situação há muito que se teria tornado insustentável. E tem agora alguma esperança de que as medidas anunciadas nesta semana possam ir ao encontro daquilo que tem sido pedido pela associação: "Vamos aguardar para ver como irão concretizar-se estas medidas, mas temos a expectativa de ser abrangidos pelas medidas que vão ser aplicadas ao turismo e que preveem uma espécie de lay-off sem a suspensão do contrato de trabalho. Essa poderá ser a única maneira de as empresas sobreviverem."

"Há pessoas em situação de pobreza extrema"

É de sobrevivência que fala também Rui Galveias, dirigente do Cena - Sindicado dos Trabalhadores dos Espetáculos , do Audiovisual e dos Músicos: "A situação é preocupante. Estamos a falar de um conjunto alargado de pessoas que estão praticamente sem trabalhar desde março e que não tem quaisquer perspetivas para o futuro. Os poucos eventos de verão, que se realizaram ao ar livre, estão a acabar, e o inverno vai ser muito difícil para estes trabalhadores porque se não trabalharem não ganham nada", diz ao DN.

A verdade é que muitos dos técnicos acabaram por ficar excluídos dos vários apoios que foram disponibilizados pelo governo - quer porque a maioria deles não está inscrito como profissional da cultura e por isso não pode candidatar-se aos apoios para esta área quer, por outro lado, porque muitos deles são trabalhadores em situação precária (recibos verdes) ou, pior ainda, estão "fora do sistema, são trabalhadores informais". "O problema não é de agora, está identificado há muito tempo, mas claro que se tornou mais visível neste momento de crise", explica Rui Galveias.

As consequências são dramáticas: "Sobretudo porque há famílias em que vários elementos trabalham nesta área. Já há pessoas em situação de pobreza extrema, que dependem das ajudas de colegas e amigos para sobreviverem. A sociedade civil está a mobilizar-se mas temos de exigir que o Estado cumpra as suas responsabilidades. Corremos verdadeiramente o risco de ver um setor desaparecer, de as empresas fecharem e as pessoas desistirem."

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