Jornalista do Diário de Notícias vence prémio com trilogia sobre adoção

Reportagens de Ana Mafalda Inácio convenceram o júri da 6.ª edição do prémio de jornalismo Os Direitos da Criança em Notícia, patrocinado pela Sociedade Portuguesa de Autores, na categoria Imprensa/Online.

A realidade da adoção em Portugal retratada no Diário de Notícias em 2019 foi agora distinguida. As reportagens mostram três realidades diferentes de um mesmo problema. As crianças que são adotadas -"Adoção: crianças que perderam tudo e ganharam tudo" -, as que esperam que um juiz lhes permita ter uma família - "Crianças dadas à nascença para adoção esperam um ano ou mais a decisão de juízes" - e as que se sentem rejeitadas -"Interrupção da adoção. "Fui devolvido. Ninguém me quer..." Foi esta trilogia publicada em junho e julho de 2019, que valeu o primeiro prémio à jornalista Ana Mafalda Inácio, no tema Os Direitos da Criança em Notícia, patrocinado pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), na categoria Imprensa/Online.

As peças fazem parte de um dossiê sobre crianças e jovens em risco, que o DN publicou durante várias semanas em junho e julho de 2019. "Foi uma ideia minha, um trabalho que eu quis muito fazer para alertar e chamar a atenção para uma realidade que ainda está muito escondida em Portugal, que tem que ver com o futuro das crianças e dos jovens em risco, principalmente as que são dadas para adoção, que perderam tudo. Que futuro para elas? O que a sociedade lhes reserva? Como podem ser integradas? Como podem ter uma infância feliz?", explicou a jornalista.

Das três, a que mais custou a digerir foi talvez aquela em que ouviu testemunhos de crianças a quem um dia disseram que iam ser devolvidas às instituições. "Sandro e o irmão foram devolvidos duas vezes pelas famílias que os adotaram. Sandro era o mais velho, o mais malcomportado e feioso, segundo as famílias. Pedro e João foram devolvidos uma vez. A família que os adotou considerava que já tinha outros filhos - os seus animais de estimação - e que eles foram perturbar a rotina. Samuel foi vítima de abusos na infância e foi parar a uma instituição. Teve como projeto de vida a adoção. Tornou-se parte de uma família que não tinha filhos, cujo pai também teve uma história de abuso na infância e não conseguiu lidar com a situação. Tempos depois, Samuel voltou à instituição e ainda hoje, quando se refere àquela família, os considera como os seus pais. Nunca mais voltou a ser adotado", contou na reportagem de 30 de junho de 2019, lembrando que não era caso único.

As reportagens de Ana Mafalda Inácio foram distinguidas entre 52 peças jornalísticas concorrentes, que abordaram problemáticas tão distintas como a violência no namoro, a regulação da responsabilidade parental, o cancro pediátrico, o abuso sexual, os maus-tratos, o abandono, o bullying, o brincar e as crianças imigrantes, entre outras questões centrais para a proteção e promoção dos direitos das crianças.

Rita Colaço, da Antena 1 (rádio) e Maria Amélia Moura Ramos, da SIC (televisão) são as outras vencedoras. "As três peças vencedoras têm em comum - além da análise cuidada dos factos, da riqueza de dados, da pluralidade de fontes e das narrativas aprimoradas que caracterizam o bom jornalismo - o foco sobre um dos direitos fundamentais das crianças: o direito a uma família ou, em caso de impossibilidade, o direito a proteção e assistência especial por parte do Estado", realçou o júri, composto pelo jornalista Adelino Gomes, Cristina Ponte, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Lídia Maropo, da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal.

José Jorge Letria, presidente da SPA, defendeu a importância de se premiar o bom jornalismo. Algo que a instituição faz desde 2012: "A SPA considera útil e relevante este apoio porque estimula o trabalho dos jornalistas e a sua liberdade de escrita e observação da realidade. Os jornalistas também são autores e por isso este apoio é forte e empenhado. Assim continuará a ser nas próximas edições, se a realidade o permitir."

O terceiro prémio da carreira em ano de crescimento do DN

Com 33 anos de profissão, começou a exercer jornalismo no extinto Diário Popular e ainda passou pelo também extingo Diário de Lisboa, até se fixar no Diário de Notícias em abril 1992. Ana Mafalda Inácio já tinha sido premiada anteriormente com outros trabalhos publicados no DN. Em agosto do ano passado a jornalista viu o trabalho intitulado "Um milhão e 700 mil portugueses têm incapacidade. Somos uma sociedade inclusiva?", publicado a 2 de dezembro de 2018, distinguido com o 2.º lugar (na categoria Imprensa Nacional) na primeira edição do prémio de jornalismo Analisar a Pobreza na Imprensa, atribuído pela EAPN Portugal/Rede Europeia Antipobreza. A primeira distinção foi em 1996, com uma grande reportagem nas urgências dos hospitais públicos. "Os corredores da morte", como lhe chamou, fê-la andar por 31 hospitais do país e valeram-lhe o Prémio Clube da Imprensa.

Agora volta a ser distinguida, num ano especialmente difícil para os media e o jornalismo devido à pandemia de covid-19. Apesar das dificuldades, o Diário de Notícias subiu no índice de confiança dos leitores em Portugal, ocupando o 5.º lugar. Segundo o Digital News Report do Reuters Institute, o mais importante diagnóstico mundial na área dos media digitais, 75% dos portugueses inquiridos assinalaram o DN como uma fonte de confiança.

A subida do jornal fundado em 1864 no ranking do relatório do Instituto Reuters vem reforçar a consolidação do jornal centenário, com cerca de três milhões de leitores, que é o 7.º lugar, entre os sites de media mais visitados em Portugal, segundo o ranking netAudience da Marktest.

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