UNICEF no apoio às crianças em tempos de covid

Os representantes da agência da ONU em seis países de língua portuguesa - Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste - contam os desafios que enfrentam em plena pandemia: desde a felicidade de Isabel ao ver os filhos registados ao desalento de Rafina , de novo sem escola um ano depois do ciclone Idai.

Responsabilidade partilhada para proteger uma criança

Jean François Basse é o representante interino da UNICEF em Angola, desde fevereiro de 2020. Natural do Senegal, formado em Direito Internacional dos Direitos Humanos. Tem mais de 25 anos de experiência de trabalho na UNICEF e é também o Conselheiro Regional de Proteção da Criança na África Oriental e Austral.

Numa missão realizada no norte de Angola, visitámos uma aldeia onde me chamou a atenção uma jovem mãe de aparentemente 30 anos que saía da sua casa de blocos de barro, deixando os seus afazeres para se dirigir, apressada, à escola que ficava a cerca de 500 metros. Isabel - era assim que se chamava - tinha de receber finalmente a certidão de nascimento dos seus filhos. Não me esqueço da alegria da mulher por ter em mãos aqueles documentos que concedem aos seus dois filhos o acesso a vários direitos sociais básicos. Em Angola, somente 25% das crianças menores de 5 anos possuem registo de nascimento e a UNICEF trabalha com o governo local para aumentar estes números. Uma das estratégias implementadas com o financiamento da União Europeia é o envio de equipas às comunidades e escolas mais distantes para fazer o registo de crianças e de adultos. Na aldeia do Bengo onde vive Isabel, chamou-me a atenção o facto de esta ação de registo mobilizar toda a comunidade, desde o soba, famílias, professores, até às crianças que, curiosas, acorriam ao local para saber o que se passava. Este cenário fez-me lembrar um adágio africano que diz: "É necessário uma aldeia para educar uma criança", remetendo para a necessidade da responsabilidade partilhada na educação das crianças. Neste caso, a aldeia toda estava unida e mobilizada para assegurar que os meninos e meninas fossem registados. A responsabilidade partilhada entre as famílias, aldeias, líderes políticos, parceiros privados, organizações internacionais e doadores internacionais impõe-se nos dias de hoje para que se alcance o desiderato de não deixar nenhuma criança angolana para trás.

Solidariedade com crianças, adolescentes e famílias vulneráveis

Florence Bauer é a representante da UNICEF no Brasil desde julho de 2017. Especialista em planeamento, gestão, monitorização e avaliação de políticas sociais relevantes para a realização efetiva dos direitos das crianças e dos adolescentes, é de origem francesa e alemã.

O mundo parou diante da pandemia do novo coronavírus, mas a solidariedade cresceu exponencialmente. No Brasil, onde já temos mais de 438 mil casos registados e mais de 26 mil óbitos, o apoio veio logo no início da crise. Unimo-nos a governos, empresas e sociedade civil para uma resposta ampla. Nas primeiras semanas, começámos a informar famílias sobre como se proteger do coronavírus e a distribuir, em parceria com empresas, itens de higiene e saúde. Já alcançámos mais de 89 mil pessoas em situação de grande vulnerabilidade e queremos chegar a muitas mais nas próximas semanas. No Rio de Janeiro, Cíntia, mãe de quatro filhos, agradeceu a doação de sabonetes: "Aqui há muitas crianças. Era um sabonete para todos. Às vezes, não temos dinheiro para comprar e temos de lavar as mãos só com água." É um retrato de como é difícil proteger crianças, adolescentes e famílias num mundo com tantas desigualdades. Seguimos juntos, apoiando o país para a continuidade dos serviços de educação através do acesso a aprendizagem online para crianças e adolescentes que estão fora da escola, com apoio a adolescentes para preservar a sua saúde mental e para prevenção da violência que tende a aumentar num contexto de confinamento. Agradecemos aos nossos parceiros pelas valiosas contribuições. Não podemos parar.

Reimaginar a vida para além da epidemia

Nadine Perrault é representante da UNICEF na Guiné-Bissau desde julho de 2019. Licenciada em Direito, é natural do Haiti.

A Guiné-Bissau tem um sistema de saúde frágil e condições de higiene precárias. A 25 de março registaram-se os primeiros casos de covid-19 e logo ativámos uma força de intervenção, juntamente com as Nações Unidas. Comunicámos massivamente nas redes sociais, imprensa, espaços comunitários e junto dos líderes tradicionais. Uma parte importante do nosso trabalho foi construir um plano de ação baseado em experiências anteriores de sucesso no combate ao vírus do ébola. Criámos locais próprios para isolar infetados e distribuímos sabão, máscaras e produtos de higiene. 20% das escolas da Guiné não têm água e apenas 35% têm lavatórios que funcionam. Com a paragem das aulas, situação que a pandemia agravou, temos de recuperar aprendizagens para resgatarmos o futuro de milhares de crianças. Enquanto escrevo para o Diário de Notícias de Portugal, o país passou de 53 casos diagnosticados para 1178 em menos de duas semanas. Continuamos, a par da covid-19, a cuidar das imensas necessidades das crianças guineenses, dos seus problemas de saúde e nutrição, das crianças talibé, que vagueiam nas ruas pela sua subsistência, e das milhares que nascem anualmente sem registo e que, por isso, não recebem vacinas. Demasiadas crianças morrem sem sentido. Cada dia é um dia, mas confio na minha equipa para, em conjunto com todas as autoridades deste país, tudo fazer para dar a estas crianças a possibilidade de um futuro melhor.

A infância de Moçambique no rosto de Rafina

Myrta Kaulard, coordenadora residente das Nações Unidas em Moçambique, e Mark Lundell, diretor nacional do Banco Mundial em Moçambique.

Para a Rafina, de 13 anos, da Beira, o sentimento parece familiar. Apenas se passou um ano desde que o ciclone Idai atingiu a sua cidade e a sua escola foi novamente fechada. Agora, no entanto, não há prédios em colapso ou ruas inundadas. O novo coronavírus que se infiltrou silenciosamente em Moçambique pode, todavia, ter um impacto muito mais devastador na vida da Rafina e na vida das crianças moçambicanas do que qualquer desastre anterior. Em Moçambique, desde 23 de março, fecharam 14 970 escolas e universidades, afetando mais de 8,5 milhões de estudantes. Uma decisão que provavelmente salvará milhares de vidas, mas que tem um preço alto. Com o encerramento das escolas em resposta ao ébola aprendemos que quanto mais tempo as crianças ficam fora da escola, menor é a probabilidade de regressarem, aumentando o risco de caírem no analfabetismo, ficando mais vulneráveis e em risco de abuso e exploração. Rafina, na sua tenra idade, já passou por mais emergências do que muitos de nós vivemos nas nossas vidas. A melhor coisa que pode ser feita para a tornar, a ela e à sua família, mais resilientes a futuros desastres é ajudá-la a obter uma educação sólida. No rosto jovem de Rafina vemos todos os sorrisos e esperanças de todas as crianças moçambicanas. E isso dá-nos muita força para continuarmos o nosso trabalho, de mãos dadas com as autoridades públicas de educação e saúde em prol de um futuro melhor.

Um país com muitos desafios para as crianças, agravados pela pandemia de covid-19

Mariavittoria Ballotta é representante da UNICEF em São Tomé e Príncipe desde 2018. Formada em Relações Internacionais, é natural de Itália.

Num dia de semana normal, as ruas da capital São Tomé e de outras comunidades das ilhas de São Tomé e Príncipe estavam cheias de crianças e jovens que iam para a escola ou que saíam das escolas. Eles levavam os seus uniformes coloridos e, acima de tudo, os seus sorrisos que simbolizavam verdadeiramente a sua esperança no futuro. Em março de 2020 a covid-19 atingiu São Tomé e Príncipe e as escolas já estão fechadas há mais de dois meses. A covid-19 não pode impedir as crianças de reimaginar o mundo que gostariam de encontrar quando o confinamento terminar e o medo desaparecer e, apesar da pandemia, a UNICEF não parou. Temos apoiado o Ministério da Educação para proporcionar oportunidades de ensino à distância via rádio e televisão. Mais de 800 rádios solares foram comprados pela UNICEF e serão em breve distribuídos em São Tomé e Príncipe para permitir às crianças e às famílias não só o acesso mais facilitado a oportunidades de aprendizagem, mas também a outros programas informativos sobre saúde, nutrição e direitos da criança. Para todas as crianças, educação.

Nunca houve nada parecido com isto, mas a humanidade é inacreditável

Valérie Taton é a representante da UNICEF em Timor-Leste desde 2017. Licenciada em Direito, é natural da Bélgica.

É sexta-feira, 21 de março de 2020. Uma data que ficará para sempre gravada na minha cabeça, e na de todos os timorenses. Timor-Leste via confirmado o seu primeiro caso de covid-19. Eu e os meus colegas já tínhamos trabalhado noutras emergências anteriormente, mas nada parecido com isto. Nós tínhamos um objetivo: fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance para parar a transmissão do vírus e reduzir o seu impacto nas crianças. Não tem sido fácil, com o fecho das escolas, restrições à mobilidade, e uma competição global pela necessidade de bens essenciais urgentes. No entanto, nós soubemos inovar e adaptarmo-nos. Em apenas uma semana, as crianças tiveram acesso a aulas através da televisão e na rádio, e agora, pela primeira vez, online. Também fornecemos material de lavagem das mãos a instalações residenciais de atendimento infantil, pré-escolar e unidades de saúde, instalámos estações públicas para lavagem das mãos em 12 municípios e desenvolvemos material, inclusive em língua gestual, para ajudar as crianças e as suas famílias a saber como se protegerem. Esta pandemia deu-nos a oportunidade de voltar a imaginar um futuro mais forte para as crianças. Mostrou-nos que a esperança nasce na solidariedade, e nisso, a humanidade é inacreditável.

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