Israel fortíssimo vs. palestinianos divididos

Se contarmos o plano de partilha da ONU, a solução oferecida por Bill Clinton e o mapa apresentado por Ehud Olmert, já por três vezes desde 1947 os palestinianos recusaram a hipótese de um Estado. Agora, perante a proposta feita por Donald Trump, acrescentam uma quarta recusa, sem dúvida a mais justificada de todas, pois nem sequer foram consultados antes, com um telefonema de última hora do presidente americano a não ser atendido para não servir de argumento. O problema é que, como sempre, são o lado que mais fica a perder. E sem grandes perspetivas de poder inverter a relação de forças, perante um Israel cada vez mais forte (e apoiado pelos Estados Unidos) e um mundo árabe cada vez menos solidário com Gaza e Cisjordânia (e uns Estados Unidos também menos imparciais).

O maior problema dos palestinianos, porém, é a sua divisão e essa vem de longe. Com Yasser Arafat houve durante algum tempo a sensação de que um chefe carismático seria capaz de dialogar de igual para igual com os primeiros-ministros israelitas, e daí os Acordos de Oslo com Yitzhak Rabin que deram certa autonomia a Cisjordânia e Gaza e permitiram a criação da Autoridade Palestiniana, mas o líder histórico da OLP acabou por morrer no seu quartel-general em Ramallah em 2004, cercado pelos tanques enviados por Ariel Sharon. Israel responsabilizou Arafat pessoalmente pela Segunda Intifada, a revolta armada palestiniana que se seguiu ao fracasso do Acordo de Paz proposto no verão de 2000 por Clinton, com a concordância de Ehud Barak.

Mahmoud Abbas sucedeu a Arafat como presidente da Autoridade Palestiniana, também como líder da Fatah e da OLP. Hoje com 85 anos, já percebeu que não será o líder que conseguirá um Estado para os palestinianos. Recusou de imediato a proposta de Trump, o que é natural, dado aquilo que foi oferecido ser muito menos do que Clinton e Barack propuseram em 2000 ou o que Ehud Olmert, com apoio do presidente americano George W. Bush, ofereceu ao próprio Abbas em 2008.

Nos dois casos anteriores, pelos pormenores conhecidos, Israel era bem mais generoso na área da Cisjordânia deixada aos palestinianos, na quantidade de colonatos judaicos a desmantelar, na divisão da soberania sobre Jerusalém, também no controlo do vale do Jordão, que no plano de Trump, elaborado pelo seu genro e conselheiro Jared Kushner, passa a território israelita.

O problema é que mesmo depois de Abbas dificilmente surgirá o tal líder capaz de falar em nome de todos os palestinianos. Hoje estão divididos entre OLP e Hamas, o movimento islamita que aproveitou as eleições que se seguiram à retirada dos colonos judeus em 2005 para se apoderar de Gaza. Estão também divididos entre os pragmáticos que sabem que uma solução passará por um compromisso com Israel (com base nas fronteiras de 1967, como tanto tempo pareceu ser a ideia, partilhada até pela diplomacia americana) e aqueles que sonham em empurrar os judeus para o mar. E deixaram de contar com a solidariedade ativa de certos países árabes, interessados na normalização com Israel.

Ora, para negociar com Israel, um futuro líder palestiniano terá de ter uma autoridade que lhe permite isso mesmo, negociar. Ou seja, propor, recusar, aceitar, contrapor. E no final ter crédito para oferecer ao povo algo que ficará sempre aquém das expectativas. A prova de que não é missão fácil, mas sim perigosa, até é dada pelo lado israelita: em 1995, dois anos depois dos Acordos de Oslo, Rabin, herói militar e Nobel da Paz, foi morto por um judeu radical.

Netanyahu está no poder em Israel desde 2009. Na sua primeira experiência como primeiro-ministro, entre 1996 e 1999, ainda chegou a encontrar-se com Arafat, mas nunca foi um entusiasta da ideia de dois Estados em plano de igualdade. E ao contrário de outras figuras da direita, como Sharon, nunca mostrou qualquer sinal de perceber que sem uma solução para o problema palestiniano a paz em Israel nunca estará garantida a 100%.

É fácil dizer que este plano de Trump serve só para efeitos eleitorais em Israel (que volta às urnas em março) e nos próprios Estados Unidos (cujas presidenciais são em novembro). Contudo, ao ser validado por Netanyahu, mostra como Israel se sente confortável hoje com o statu quo: o muro de segurança quase estancou o terrorismo vindo da Cisjordânia, os abrigos e o sistema antimíssil são cada vez mais eficazes perante os ataques com rockets disparados de Gaza. Por outro lado, a esquerda é minoritária e o chamado campo da paz pouco se faz ouvir. E nenhum primeiro-ministro arriscaria confrontos entre israelitas para retirar centenas de milhares de colonos da Cisjordânia, basta pensar como foi complicado em Gaza. Assim, esta proposta parece ser uma win-win situation: Israel ganha se os palestinianos aceitarem, Israel ganha se estes recusarem.

A paz em regra é feita pelos falcões (Rabin e Arafat). E não há bons falcões hoje nem em Israel nem entre os palestinianos. Financiado generosamente, o plano de Trump poderia na melhor das hipóteses ser um ponto de partida para os palestinianos, que teriam de reivindicar muitas, mas mesmo muitas cedências ao lado israelita; para Israel, não ficaria mal reconhecer que este plano exagera ambições e beneficia demasiado dos erros acumulados pelo lado palestiniano, logo a começar em 1947, quando não perceberam que a relação de forças no terreno, a memória viva do Holocausto e a cooperação de americanos e soviéticos na ONU beneficiavam os judeus. Também os palestinianos nunca perceberam que vários países árabes usaram a sua causa para fins diversos, e não dando sequer a nacionalidade aos refugiados para os manter como recurso contra Israel.

Se fosse tempo de se acreditar em utopias, talvez se pudesse falar de um só Estado, de judeus e árabes (afinal, hoje 20% dos israelitas descendem dos palestinianos que não fugiram). Um Estado onde coubessem os bisnetos dos pioneiros sionistas chegados desde finais do século XIX a terras do Império Otomano e dos seus vizinhos árabes e judeus que há muito lá viviam, os bisnetos dos sobreviventes do Holocausto e também os dos judeus expulsos do mundo árabe depois de 1948, e claro os bisnetos daqueles palestinianos que fugiram ou foram expulsos e hoje vivem na Jordânia, no Líbano ou na Síria. Em democracia, como Israel sempre quis ser. Mas estes não são tempos de utopias e há demasiados ódios acumulados, além de que a demografia também tem a sua influência nessas terras.

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