Zona euro a caminho da maior desvalorização salarial de que há registo

Choque de desemprego já está a acontecer e vai doer mais nos países com maior proporção de trabalho a prazo e por conta própria, alerta o BCE. É o caso de Portugal: um terço dos trabalhadores tem este tipo de vínculos. São quase 1,6 milhões.

A zona euro deverá registar, neste ano, a maior desvalorização salarial nominal per capita de que há registo, mostram séries históricas da Comissão Europeia já com a nova previsão do Banco Central Europeu (BCE), ontem revelada.

E o choque de desemprego também não se fica por 2020, propaga-se 2021 a dentro, indica o BCE, ao contrário do que foi projetado por Bruxelas há um mês. As diferenças variam consoante os países, mas o banco liderado por Christine Lagarde avisa que o desemprego tenderá a atingir mais os países com maior proporção de contratos a termo ou a prazo, outros vínculos precários/temporários e de trabalho por conta própria. É o caso de Portugal, que regista a terceira maior incidência da Europa neste tipo de vínculos laborais.

Segundo contas do DN/Dinheiro Vivo com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística, no primeiro trimestre deste ano, estavam nesta situação a prazo e mais precária quase 1,6 milhões de pessoas, um terço do total de trabalhadores.

"Prevê-se que as taxas de desemprego continuem a apresentar diferenças substanciais entre os países da área do euro. No geral, espera-se que os países com uma alta proporção de trabalhadores temporários ou autónomos testemunhem um aumento nas taxas de desemprego e perdas de rendimento", alerta o BCE.

Em face deste cenário muito negativo, Lagarde anunciou ontem um reforço substancial da sua bazuca especial para comprar dívida pública dos governos da área do euro (quase que duplica o poder de fogo), ao mesmo tempo que prolonga a duração deste programa por mais seis meses.

Enorme e abrupta recessão, económica e salarial

Mesmo assim, vai ser complicado. Neste ano, a economia do euro vai afundar numa das maiores recessões de que há memória (o BCE baixou a fasquia para uma contração de 8,7% e, ato contínuo, avançou com previsões muito negativas para o mercado de trabalho).

O salário nominal médio por trabalhador deve recuar 1,9%, naquela que será a maior contração da história da zona euro (que nasceu em 1997). Colando as séries disponíveis (da Comissão Europeia), poderá ser a maior desvalorização salarial nominal desde 1960 (a segunda pior terá sido em meados dos anos 1990).

É uma queda "substancial", como diz o BCE, para mais num contexto de destruição de emprego. O BCE prevê uma redução de 2,8% no número de postos de trabalho. Ou seja, mesmo com o denominador a cair (o que contribuiria para um aumento do salário médio), a erosão salarial é tal que o salário médio desce em 2020.

Frankfurt não publicou cálculos por país, mas há um mês a Comissão Europeia já dava conta de uma estagnação salarial medida através do ordenado médio por trabalhador em Portugal (0%). É o registo mais fraco desde os anos da troika.

O BCE também prevê que a intensidade do desemprego aumente este ano, atingindo 9,8% da população ativa, e, contrariamente ao que previu a Comissão no início de maio, a degradação do mercado laboral continua no ano que vem, com a taxa de desemprego da zona euro a tocar os 10,1%. Bruxelas calcula que em 2021 o desemprego vai descer para 8,6%.

Ainda relativamente à desvalorização salarial prevista para este ano, reflexo da subida do desemprego e da torrente de lay-offs por essa Europa fora, o BCE desdramatiza um pouco.

Diz que "espera-se que a remuneração por empregado diminua acentuadamente no segundo trimestre de 2020", refletindo "a enorme e abrupta quebra nas horas trabalhadas por empregado durante os bloqueios impostos nas economias [por causa da pandemia] e uma compensação apenas parcial dessas perdas salariais através de esquemas de trabalho de curta duração".

No entanto, estas reduções detetadas nos salários médios podem ser "exageradas" porque "vários países não registam estatisticamente os apoios do Governo como remunerações, mas como transferências".

Em todo o caso, depois deste tombo, o BCE espera que o salário médio por trabalhador suba gradualmente ao longo do horizonte de projeção. Recupera 3,2% em 2021, mas depois abranda para 1,9% em 2022.

Bazuca duplica

O programa de emergência pandémica para comprar dívida (PEPP, na sigla em inglês), a chamada bazuca dos bancos centrais da zona euro para combater a crise do coronavírus, anunciada a 18 de março, vai ter um reforço enorme de 600 mil milhões de euros, passando assim para um total de 1350 mil milhões de euros em compras de dívida pública e até outros ativos, anunciou o BCE, esta quinta-feira. O plano quase que duplica e vai ser prolongado por mais seis meses.

"Em resposta à revisão em baixa da inflação no horizonte de projeção devido à pandemia", este programa de compra de dívida, que foi lançado a 18 de março com um valor inicial de 750 mil milhões de euros, foi expandido em valor e duração. Era para vigorar até ao final deste ano, mas vai ser prolongado, pelo menos, mais seis meses, terminando em junho de 2021 ou mais tarde se for preciso, anunciou Frankfurt.

Os outros programas de dinheiro barato mantêm-se e as taxas de juro a mínimos históricos também.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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