Taxas de juro poderão ficar em 0,5% ou menos até 2030

Economia da Europa sofre de anemia e a inflação afundou ainda mais. BCE avança com novo pacote de estímulos

O mercado de seguros (swaps) para quem investe em títulos indexados a taxas de juro apontava ontem para uma estagnação dos juros da zona euro em valores que nunca ultrapassam 0,5% até 2030. E para um máximo de 1% nos próximos 60 anos.

Hoje, em Frankfurt, Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), irá anunciar um novo pacote de estímulos à economia, que deverá incluir um reforço da compra de ativos... e taxas de depósito negativas ainda mais baixas. Porquê? Os bancos estão fracos, muitos continuam a precisar de capital, e a economia do euro recomenda-se pouco e é preciso dar-lhe mais um empurrão.

O FMI avisou nesta semana que o mundo está quase a "descarrilar". Outra vez. Pediu "ação" a todos: governos, empresas, bancos centrais. A retoma é "fraca" e sobre ela pesam "heranças não resolvidas". "Em muitas partes da Europa, os balanços dos setores soberanos e privados continuam altamente alavancados e o crédito malparado dos bancos elevado", sublinhou o vice-diretor da instituição, David Lipton. Não falou em Portugal, Itália ou Espanha, mas podia.

O conselho presidido por Mario Draghi volta a olhar para o problema. Razões não faltam. Além da anemia da Europa, a inflação afundou ainda mais em fevereiro (para -0,2%). Países como a Alemanha beneficiam de taxas de juro anormalmente favoráveis (negativas até), ao passo que outros, como Portugal, correm o risco de verem os juros razoáveis hoje praticados dispararem ao menor sinal de incómodo ou desconfiança dos mercados. Como aconteceu no mês passado. A moeda é única, mas o euro português parece valer menos do que o alemão.

Desde janeiro que Draghi anda a prometer medidas mais determinadas para reduzir o custo do dinheiro e facilitar a injeção de fundos na economia real. Tudo indica que o financiamento ultrabarato do BCE à banca, que se prolonga há anos, continua preso dentro do setor financeiro, não escoando para empresas e famílias em prol do crescimento e do emprego.

Os juros muito baixos, de quase zero, são o novo normal? Tendo em contas as últimos exames à saúde do euro, por exemplo, sim.

Desde o início de 2009 que a taxa de juro não passa dos 1,5%. Agora, Frankfurt, emparedada entre o "descarrilamento" da economia e uma taxa de juro oficial de 0,05%, tentará ampliar os programas de dinheiro barato já em marcha. O maior programa - a expansão monetária ou quantitative easing - poderá aumentar de tamanho. Em vez de compras de 60 mil milhões de euros mensais em ativos nos bancos (dívida pública e empresarial), o BCE pode ir mais longe. E prolongar no tempo o programa, que é suposto durar até março de 2017. Andrew Bosomworth, economista da Pimco, uma das maiores gestoras de títulos do mundo, aposta em "mais liquidez" na concessão tradicional de fundos; na redução da taxa de depósito de -0,3% "para -0,4%" e da taxa central "para 0%"; e na ampliação do QE de 60 mil milhões para 65 mil milhões de euros mensais. Outros apostam em 70 e 75 mil milhões de euros.

A redução da taxa de depósito estará ligada a esse último aspeto, uma vez que o BCE está a ficar sem dívida pública para comprar aos bancos. Esta taxa estabelece o limite até onde Frankfurt pode ir, permitindo adquirir títulos com taxas negativas. Os ingleses do think tank Centre for European Reform dizem que, mais do que mexer em taxas e tetos de compras de ativos, o BCE deve comunicar com mais veemência de modo a aumentar as expectativas de inflação.

Zona única mas divergente

Portugal paga mais, mas o maior credor do país recebe por pedir emprestado. Esse é um dos problemas de fundo na união. A República teve de pagar nesta quarta-feira cerca de 2% por um empréstimo a cinco anos no valor de 594 milhões de euros; quase à mesma hora, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), o maior credor do país, foi ao mercado e captou 5000 milhões de euros, a cinco anos, a uma taxa de juro negativa (-0,9%)

No fundo, o ESM está a ser remunerado para que os investidores possam aplicar dinheiro nos seus títulos mais sólidos e seguros. Tem rating máximo (AAA) e como principal acionista a Alemanha. Portugal é um investimento especulativo (lixo) e continua a ser constantemente censurado por não fazer todo o "trabalho de casa" que a troika mandou. Daí a disparidade no tratamento.

Quem menos precisa acaba por ser o mais beneficiado com a política de compra de ativos em grande escala iniciada há um ano por Mario Draghi.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG