Salários mais altos estão em setores menos expostos à concorrência

Remunerações mais elevadas concentram-se na banca e seguros, na energia e no Estado. Fórum para a Competitividade lembra que a troika quis mudar entraves em setores protegidos. Crise contribuiu para elevar média salarial

Os maiores salários estão a ser pagos em setores menos expostos à concorrência, nomeadamente na administração pública, na energia e também no setor financeiro, que tem beneficiado de várias ajudas do Estado nos últimos anos. O rendimento médio líquido apurado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) foi de 839 euros em 2016, uma subida de 11 euros face a 2015. No entanto, algumas das maiores subidas ocorrem naqueles setores que pouco ou nada contribuem para as exportações, sendo por vezes cinco vezes superiores à média nacional.

"Esses salários mais altos ocorrem em setores de bens ou serviços não transacionáveis. A começar pelos bancos, onde os custos salariais têm aumentado de forma exponencial, como foi o caso da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A troika e o governo anterior tentaram alterar este panorama de setores protegidos, mas está à vista que não conseguiram", refere Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para Competitividade.

O salário médio no setor financeiro e seguros foi de 1409 euros em 2016, mais 49 euros do que no ano anterior, posicionando-se como segundo vencimento mais alto, logo a seguir à eletricidade e ao gás. Segundo um estudo de Avelino de Jesus, professor no ISEG, a CGD registou em 2015 um custo médio com o pessoal de 97,5 mil euros/pessoa, o mais elevado dos quatro principais bancos, longe do segundo que mais bem paga, o BCP, com 85 mil euros. Entre 2002-2008, o valor médio dos custos com o pessoal era de 79,3 mil euros por funcionário da CGD.

A administração pública, a Defesa, a Segurança Social e a Educação constituem outro caso típico de salários altos - acima de mil euros -, se bem que o aumento (de 7 a 16 euros) entre 2015 e 2016 se deva à reposição progressiva dos ordenados cortados em 2011. "É preciso ver que os vários subsetores do Estado têm, por vezes, pessoal mais qualificado e, portanto, vencimentos mais elevados. No entanto, olhando para as estatísticas do INE, é bem verdade que os salários mais altos estão muitas vezes em setores protegidos", explica João Carlos Cerejeira, professor da Universidade do Minho.

Rever e reduzir o número de profissões reguladas, liberalizar o acesso e o exercício a algumas atividades foram recomendações do Memorando de Entendimento assinado pelo governo português com a troika e que muito preocuparam as ordens profissionais. "O resultado foi o contrário. A troika queria reduzir o número de ordens profissionais e estas recorreram a Bruxelas. No fim do processo, Portugal tinha mais ordens profissionais do que em 2011. A resistência à liberalização no acesso a profissões encontra um bom exemplo na atitude dos taxistas perante a Uber", afirma Pedro Ferraz da Costa.

Setores como o da energia ou mesmo da banca funcionam numa lógica de mercado no que toca aos vencimentos. "Quanto mais o poder do comercial do setor em causa, maior será também a fatia do rendimento atribuído ao fator trabalho. Uma greve, por exemplo, tem um efeito grande sobre os lucros e os trabalhadores sabem que podem fazer mais reivindicações salariais e paralisar, uma vez que a empresa não vai fechar por causa disso", considera João Carlos Cerejeira.

A evolução dos rendimentos em Portugal tem sido em parte puxada pelo salário mínimo nacional (SMN). Neste momento, o SMN está nos 557 euros, ou 650 se distribuirmos o rendimento anual por apenas 12 meses. Este montante equivale a 64% do rendimento médio do país, sendo a proporção mais elevada de toda a União Europeia. "Ao longo da crise, os despedidos foram aqueles que menos ganhavam e os que ficaram tinham salários superiores. Daí que a média salarial também tenha subido por essa via", lembra João Carlos Cerejeira.

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