Ranking FMI. Portugal ficou mais pobre com a pandemia e deve estagnar com a guerra

FMI mostra que país fica estagnado na posição 45 a nível mundial no indicador da riqueza per capita corrigida pelo poder de compra, em 2022. É ultrapassado por Porto Rico, Polónia e Hungria.

Portugal empobreceu com a pandemia (situação económica per capita em 2021 comparada com a de 2019), tendo caído um lugar no ranking mundial do Fundo Monetário Internacional (FMI). Está agora na posição 45 numa lista de mais de 190 países, indicam cálculos do Dinheiro Vivo a partir dos novos dados do FMI ontem divulgados no âmbito do panorama económico mundial (outlook).

O indicador usado é o que permite uma comparação mais direta e fiável entre os níveis de vida dos diferentes países do globo: o produto interno bruto (PIB) per capita, a preços constantes, corrigido das paridades de poder de compra.

Mas 2022 também não corre de feição para a economia nacional neste contexto global. Os dados do FMI indicam que Portugal fica estagnado na mesma posição, sendo inclusive ultrapassado no nível de vida per capita por três países: Porto Rico, Polónia e Hungria.

No encalce de Portugal estão, muito perto, em 2022, o arquipélago das Bahamas e a Eslováquia.

Ou seja, Portugal cresce, mas não o suficiente para sair da posição 45. São as dificuldades impostas pela guerra da Rússia contra a Ucrânia que estão a elevar preços e a travar algumas atividades exportadoras, aliadas a um contexto menos amigo dos países muito endividados, de subida das taxas de juro.

Este ranking do FMI mostra que metade dos territórios do mundo (cerca de 95 países) não consegue reverter os efeitos adversos das duas crises (pandemia e guerra) em 2022. Portugal é um deles.

Segundo a previsão do FMI, o PIB per capita nacional corrigido pelo poder de compra deste ano ainda ficará 0,1% abaixo do nível pré-pandemia.

Com a Alemanha e o Canadá acontece o mesmo. Mas, por exemplo, Itália e França logram uma recuperação total, superando ligeiramente o nível de riqueza individual anterior à pandemia.

Este ranking permite ainda ver quais os países mais ricos e mais pobres do globo, medido pela média de riqueza por pessoa.

No pódio de 2021 (dados quase finalizados) estão Luxemburgo, Singapura e Irlanda.

No fim da tabela, aparecem nações africanas: Burundi, Sudão do Sul e República Centro-Africana.

Crescimento revisto em baixa

A economia portuguesa deve crescer cerca de 4% em vez dos 4,9% previstos pelo governo na proposta de Orçamento do Estado de 2022 (OE2022) e o défice deve ultrapassar 1,9% do produto interno bruto (PIB), a meta assumida pelo ministro das Finanças, Fernando Medina, há uma semana, segundo o mesmo estudo do FMI, que calcula que o défice português seja 2,4% do PIB no final deste ano.

Este novo Outlook foi discutido pela cúpula da instituição de Washington a 11 de abril, mas a equipa que o elabora não é clara sobre a data concreta em que fechou estas previsões. Mas deixa perceber que ainda não incorpora medidas do novo OE2022 por este não estar ainda aprovado.

Ainda assim o FMI é, neste momento, a entidade que recolheu mais informação e mais recente que melhor reflete os acontecimentos ligados à guerra e à crise da energia e de outras matérias-primas. Isso ajuda a explicar que seja, agora, a entidade mais pessimista quanto à retoma de Portugal.

Em março, o Banco de Portugal assumiu um crescimento de 4,9%. O cenário do governo na nova proposta de OE2022 reiterou a meta de 4,9%. Agora, o FMI diz 4%. No Outlook de outubro passado, antes desta nova crise, o Fundo previa uma retoma de 5,1% em Portugal.

Mesmo com esta revisão em baixa, Portugal cresce mais do que a média da zona euro (fortemente desbastada face à previsão de janeiro, para 2,8%).

Mas a tendência é para a economia portuguesa perder essa dinâmica, já que o ritmo da retoma arrefece para apenas 2,1% no próximo ano, abaixo da expansão da zona euro (2,3%). Portanto, volta a divergir da média europeia.

Na meta do défice, o governo, agora pela mão de Fernando Medina, reiterou a vontade de a baixar até 1,9% do PIB em 2022. Pelas contas do FMI, o desequilíbrio entre receitas e despesas será o equivalente a 2,4%. Ainda assim, abaixo da fasquia de 3% do Pacto de Estabilidade e dos 2,8% do ano passado.

Na inflação, ambos (FMI e Finanças) convergem para uma projeção de 4% este ano.

O mesmo não acontece no desemprego. O Ministério das Finanças assume, no novo OE2022, que o peso do desemprego pode descer para apenas 6% da população ativa este ano. Já o FMI aponta para 6,5%, uma décima a menos do que a marca final de 2021 (6,4%).

Mundo sofre com a guerra

Em janeiro, o Fundo projetava uma retoma global na ordem dos 4,4% em 2022. Agora, considera que não deve ir além dos 3,6%. Diz que dois terços dessa perda são explicados pelos efeitos das sanções à Rússia e o contágio internacional provocado pela guerra deste país contra a Ucrânia, que atingiu em cheio a Europa.

Tanto assim é que o resto da erosão na retoma mundial é explicado pelo enfraquecimento da própria economia europeia, muito pela dependência da energia da Rússia, dos cereais da Ucrânia e pela exposição a uma inflação geral demasiado elevada para os cânones monetários e financeiros seguidos na Europa, a partir de Bruxelas e Frankfurt.

O modelo monetário e económico europeu (zona euro) está montado para uma inflação estável em redor dos 2%. O FMI prevê mais do dobro: 5,3% este ano.

A situação é preocupante e pode piorar, avisa a instituição internacional sediada em Washington.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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