Pandemia. Desemprego de longa duração quase duplicou

E mais de 70 mil pessoas, que estavam na fronteira do mercado de trabalho e que ainda tentaram encontrar trabalho ou mostraram alguma vontade, desligaram-se completamente.

O mercado de trabalho português registou várias melhorias importantes no segundo trimestre deste ano, como uma criação forte de empregos e uma ligeira descida na taxa de desemprego, mesmo comparando com 2019, quando a economia ainda não tinha ido ao fundo com a pandemia.

No entanto, segundo mostrou ontem o INE, há problemas graves que persistem e até se agravaram, cicatrizes que teimam em desaparecer, sinalizando que há segmentos da população que estão mais marginalizados ou afastados das atividades económicas e produtivas oficiais.

Segundo o inquérito ao emprego do Instituto Nacional de Estatística (INE), o desemprego de longa duração (pessoas que estão ativamente à procura de emprego há 12 meses ou mais, mas não encontram) aumentou mais de 85% no segundo trimestre deste ano face a igual período de 2020. Quase duplicou e com isso já equivale, novamente, a perto de metade do desemprego total.

O INE indica que estavam nesta situação (sem trabalho há mais de um ano) cerca de 154 mil pessoas. O desemprego de longa duração é um fenómeno persistente em Portugal. No tempo da crise na altura da troika e do governo PSD-CDS chegou a pesar entre metade e dois terços do desemprego total. É também um problema considerado grave pois quanto mais tempo uma pessoa está desempregada, mais desatualizadas ficam as qualificações, menos oportunidades encontrará, maior a estigmatização, pior para o currículo.

Com este inquérito, o INE iniciou "uma nova série de dados" na qual por exemplo "deixa de considerar como empregadas as pessoas ocupadas em atividades de agricultura e pesca para autoconsumo" e passa a considerar apenas como população ativa "o grupo dos 16 aos 89 anos". Até aqui era "15 ou mais anos".

Medir as cicatrizes

O novo estudo tem também novos indicadores para medir a saúde do mercado de trabalho e avaliar se há cicatrizes que estão a ser deixadas pela crise pandémica.

Por exemplo, o INE estima a dimensão do grupo "força de trabalho potencial", que é "composto pelos dois tipos de inativos que têm maior proximidade com o mercado de trabalho por cumprirem um dos dois critérios necessários à inclusão na população desempregada (procura ativa de emprego ou disponibilidade para começar a trabalhar no período de referência)". Este grupo está a diminuir. Tinha 242 mil pessoas no primeiro trimestre, no segundo, eram 173 mil.

Mas é neste grupo que se nota um outro problema grave: há muita gente tão desencorajada que parece ter desistido do mercado de trabalho, votando-se à inatividade pura durante o período de abril a junho, marcado por um ressurgimento da pandemia e dos confinamentos. Deixaram de procurar emprego ou de estar disponíveis.

Primeiro, o INE refere que "no segundo trimestre de 2021, 24,2% daqueles que no primeiro trimestre de 2021 estavam no grupo força de trabalho potencial transitaram para o desemprego", o que significa que procuraram ativamente e regularmente trabalho. Mas não encontraram.

E cerca de 19% transitou efetivamente para uma situação de emprego.

Problema: a maior fatia dessa população desencorajada, ainda que inativa, simplesmente desistiu. O INE refere que "29,3% dos que estavam no grupo força de trabalho potencial no primeiro trimestre de 2021 transitaram para o grupo outra inatividade no segundo trimestre, o que significa que deixaram de procurar ativamente emprego ou de ter disponibilidade para começar a trabalhar no período de referência, ficando assim mais afastados do mercado de trabalho".

Ou seja, segundo cálculos do Dinheiro Vivo, quase 71 mil pessoas (29,3% dos referidos 242 mil indivíduos que formavam a força de trabalho potencial) abandonaram a fronteira do mercado de trabalho. Desligaram-se, aparentemente. Este fenómeno explica parte importante da redução dos níveis de inatividade na economia neste arranque de ano. No entanto, são pessoas que terão mais dificuldades em voltar, em reentrar no mercado.

Como referido, a economia registou uma certa reanimação no segundo trimestre quando comparado com há um ano, um período bem mais sombrio, onde ainda nem sequer havia vacinas e em que os confinamentos foram mais duros e profundos.

O INE estima que o segundo trimestre tenha registado um aumento no número de empregos para 4,8 milhões. Trata-se de um incremento de 0,8% (mais 36,3 mil empregados) face ao mesmo período de 2019.

E comparando com o segundo trimestre de 2020, período em que a pandemia embateu com força e provocou a maior destruição de emprego, o nível de emprego subiu 4,5%.

É a maior subida destas novas séries, que remontam a 2011 e 2012, mas em parte deve-se ao facto de há um ano a esta parte o emprego ter sofrido também o maior colapso nestes registos (quebra de quase 4% no segundo trimestre de 2020).

Ademais, os dados do desemprego não indiciam ainda uma recuperação completa. O INE estima 345,7 mil desempregados no segundo trimestre deste ano, 5,2% acima do número do mesmo trimestre de 2019, havendo mais 17,2 mil sem trabalho. Em todo o caso, a taxa de desemprego desceu ligeiramente para 6,7% da população ativa no período de abril a junho de 2021.

O INE revela ainda que no segundo trimestre, mantinham-se com corte de horários ou suspensão total de contrato (como lay-off) 53,6 mil trabalhadores, mas isto num quadro de redução significativa do universo dos empregados "ausentes" por haver falta de trabalho (parcial ou total).

Ana Mendes Godinho, a ministra do Trabalho, celebrou os números do emprego, que considerou "impressionantes", e disse que isto "mostra que os apoios extraordinários criados para apoiar as empresas e o rendimento dos trabalhadores foram fundamentais para preservar o emprego durante a crise". O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, salientou o "sinal de vitalidade da economia".

Jornalistas do Dinheiro Vivo

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