Nidhi Gulati: "Temos de usar lentes interculturais para criar cidades inclusivas"

O desenho das cidades em conjunto com as comunidades ajuda a evitar a explosão que se vive por estes dias nos EUA, considera a especialista em planeamento e inclusão, a partir de Nova Iorque.

Até que ponto um modelo de cidade mais inclusiva pode ajudar a evitar a explosão do barril de pólvora que se vive, neste momento, em muitas metrópoles e nos Estados Unidos, em particular, a propósito do caso George Floyd? "O desenho de cidades inclusivas é determinante, sobretudo se nos importamos com o bem-estar de pessoas que têm backgrounds muito diferentes, sabendo que a origem social, económica e racial e até o género interfere muito no modo como sentimos o espaço que nos rodeia", resume Nidhi Gulati, em entrevista a partir de Nova Iorque, no âmbito do Portugal Mobi Summit.

"No planeamento das cidades é preciso ter em conta a história de quem somos na comunidade e pensar nas necessidades dos vários grupos, que são muito diferentes, e isso significa que é preciso usar lentes interculturais", considera a diretora da PPS (Projects for Public Spaces), uma ONG que apoia as comunidades de Nova Iorque a planear espaços mais sustentáveis e inclusivos, desde 1975.

Ora, é justamente na falta dessas lentes interculturais que se encontra o rastilho para muitos dos problemas dos ecossistemas urbanos, e que a covid-19 veio pôr a nu, nomeadamente nos Estados Unidos, nota a especialista. Porque a reconfiguração das cidades é muito mais do que uma mera questão de estradas e edifícios, "tem sobretudo a ver com as estruturas de poder e de representação política", aponta a arquiteta indiana.

Será que quem faz as propostas políticas representa efetivamente as comunidades? E quem as interpreta, ao nível dos urbanistas, arquitetos, pedagogos, também representa a diversidade da população? A resposta para as questões levantadas por Nidhi Gulati é negativa e ajuda a explicar a razão pela qual uma parte importante da população vive insatisfeita nas suas comunidades, sem as suas necessidades atendidas, logo mais vulnerável para para fenómenos de radicalização.

Urbanismo ignora mulheres

Sendo as mulheres cerca de 50% da população, elas também são vítimas dessa sub-representação no modo de planeamento urbano, nomeadamente ao nível da mobilidade, considera Nidhi Gulati. A diretora senior da PPS refere por exemplo que "nos Estados Unidos - onde os homens são ainda muito o ganha-pão da família - os transportes públicos estão desenhados para fazer a distância mais curta do ponto A ao ponto B, ou seja, do subúrbio ao centro da cidade". Ora, observa, "a mobilidade típica das mulheres não está contemplada neste modelo, porque elas tanto podem ter de ir deixar os filhos a um lado, que fica numa direção, como ir fazer as compras ou a lavandaria noutro sítio, mas as redes de transporte público não têm essa flexibilidade, tornando o uso do carro individual a única alternativa".

Também o habitáculo dos automóveis, e os respetivo sistema de segurança, está desenhado para acomodar o corpo típico de um homem, havendo estudos que mostram que, por isso, as mulheres correm mais riscos em caso de acidentes, salienta a convidada do Portugal Mobi Summit.

Repensar todo o modo de viajar

Nidhi Gulati parte da sua própria experiência para defender que "tem de haver uma alternativa de mobilidade de futuro muito mais flexível e sustentável do ponto de vista ambiental". Apesar de ter vivido muitos anos em Nova Deli, conta, "sempre contei com os transportes públicos para me mover, desde o comboio ao táxi, nunca precisei de guiar um automóvel para me sentir autónoma, até que me mudei para uma zona suburbana do Texas onde só via auto-estradas e percebi que até para ir à mercearia ou para ir procurar um apartamento precisava de um carro".

Foi nesse momento que percebeu a razão pela qual o carro individual é tão institucional na América e que se tornou um desafio para si lutar por outro tipo de mobilidade.
Essa é a razão pela qual não imagina o regresso à normalidade no pós-covid. "Não quero voltar ao normal", diz, acrescentando que "temos de mudar, até porque não sabemos se haverá mais pandemias com a mudança climática".

Para Nidhi Gulati, "temos de repensar todo o modo de viajar. Por um lado viajar menos, depois para menores distâncias e, quando tiver mesmo de ser, adotar modos mais sustentáveis de transporte". Outra dimensão é a do consumo, que nos leva à questão de saber de quão longe vêm os bens que consumimos e se não deveríamos optar por consumir mais localmente, desenvolvendo as economias locais das comunidades, defende.

Quanto a bons exemplos, Nidhi Gulati aponta os modelos nórdicos de mobilidade, muito assentes no andar a pé, nas bicicletas e na micro-mobilidade. Quanto ao transporte coletivo em cenário de pandemia, Gulati considera que "se já temos automóveis do século XXI, também está na hora de termos transportes públicos do novo século", sendo, que neste momento, podem também ser mais frequentes ou com mais composições, para permitir o distanciamento social.

Resumindo a sua intervenção numa entrevista conduzida por Paulo Tavares e Charles Landry, co-curadores do Portugal Mobi Summit, Nidhi Gulati sublinhou ainda que para criar cidades mais inclusivas é preciso aumentar a participação cívica de todos os grupos que estão sub-representados e essa também é uma responsabilidade dos próprios.

(Veja tudo sobre mobilidade e o Portugal Mobi Summit em www.portugalms.com)

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