Nem um mês depois, Londres tira Portugal do corredor aéreo. Algarve "desiludido"

Londres volta a considerar Portugal continental um destino não seguro. Algarve é das regiões mais afetadas, com um impacto financeiro significativo.

Setembro foi o mês em que mais britânicos visitaram Portugal em 2019. Foram mais de 262 mil, muitos dos quais dormiram no Algarve. O turismo não esperava repetir o feito mas contava com estes viajantes para amenizar os efeitos da pandemia nas contas e o mês em que os golfistas começam a chegar podia salvar alguma coisa deste verão de 2020. O balde de água fria chegou ontem, com Portugal a voltar para a lista negra do Reino Unido menos de um mês depois de aberto o corredor aéreo, que desde 20 de agosto fez explodir as reservas.

"Isto representa uma profunda desilusão. É lamentável a todos os níveis. Alguém não está a fazer o trabalho de casa como deve ser. E não souberam salvaguardar a posição do Algarve relativamente ao que se verifica no resto do país, uma vez que a região tem ficado praticamente fora da pandemia desde o início em março", vincou Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), ao DN/Dinheiro Vivo.

"O Algarve continua a ser penalizado pela situação que se vive no resto do país. E isso causa enormes prejuízos não apenas no setor empresarial mas a toda a economia", afirma.

Uma opinião que não anda longe da reação do Presidente da República, que ontem lamentou que "o Algarve esteja a ser injustamente punido com esta decisão do Reino Unido". Ainda assim, e tal como o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, Marcelo - que vai reunir-se com os hoteleiros do país nos próximos dias - preferiu olhar a metade meio cheia do copo: "Felizmente, Açores e Madeira ficaram fora desta decisão. Agora há que olhar para a frente."

"Portugal continuará a remeter toda a informação sobre a evolução da situação epidemiológica no espírito de total transparência que caracteriza o nosso diálogo com o Reino Unido", acrescentou também o MNE em reação à decisão de Londres.

A restrição, que entra em vigor a partir deste sábado, aplica-se apenas a Portugal continental. Londres segue assim os passos já tomados quer pela Escócia quer pelo País de Gales, que já obrigam quem chega de Portugal a cumprir uma quarentena de 14 dias. "É uma decisão que tem impacto significativo na procura britânica, ainda mais em meados de setembro, mês de maior procura desses turistas pela região, mês em que a época alta do golfe recomeça e que dita uma nova procura de visitas à região, como o turismo da natureza", reage o presidente da Região de Turismo do Algarve, João Fernandes. Reconhece porém que, "face à evolução do número de novos casos por cem mil habitantes, era um anúncio que infelizmente já esperávamos".

No mesmo sentido, o presidente do Turismo do Porto e Norte, Luís Pedro Martins, reagiu considerando a notícia "expectável", mas uma "péssima notícia" para o turismo português.

Cancelamentos à vista

Em setembro do ano passado, o sul do país contou com mais de 2,5 milhões de turistas, grande parte deles britânicos. No total do ano, Portugal recebeu 27 milhões de hóspedes e registou 69,9 milhões de dormidas. A pandemia trouxe quebras nunca vistas, deixando o setor praticamente congelado. E a esperança de alguma recuperação, com um boost de reservas quando abriu o corredor britânico - a TAP subiu reservas em 300% num dia, no Algarve dispararam mais de 50% na primeira semana -, parece estar agora perdida.

A decisão do governo de Boris Johnson vai traduzir-se em cancelamentos nas unidades de alojamento turístico da região e, consequentemente, em prejuízos. Números que, contudo, não são ainda possíveis de calcular. "É prematuro termos medições de impacto em relação a períodos transatos porque é uma realidade distinta daquela que reconhecemos enquanto padrão", explica João Fernandes.

Apesar de se ter verificado um pico nas reservas aquando da inclusão de Portugal no corredor aéreo, o responsável nota também que estas semanas têm sido marcadas por alguma incerteza. "Porque acontecem em ciclos muito curtos, as revisões semanais geram incerteza nos destinos e nos diferentes operadores turísticos. E, por maioria de razão, nos próprios turistas, que começam a ter dificuldade em escolher viajar face a decisões que são revertidas em ciclos muito curtos."

Além da quebra do poder de compra de muitas famílias, os receios e a necessidade de distanciamento social a que obriga o combate à pandemia já levavam muitos a não viajar. Não é por isso de estranhar que o setor do turismo seja um dos mais afetados pela pandemia, com todas as regiões a sentir os efeitos.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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