Centeno: "Tenho a certeza que deixo o Eurogrupo em boas mãos"

Português despede-se hoje da presidência e Mário Centeno elogia os candidatos à sua sucessão. "Mostram que o Eurogrupo é mais importante e influente do que nunca." Espanhola Nadia Calviño é a favorita.

Mário Centeno coordena hoje, pela última vez, os trabalhos do Eurogrupo, numa reunião que "será marcada" pela eleição do seu sucessor.

Numa declaração gravada, e divulgada a poucas horas do arranque da reunião, o presidente cessante do Eurogrupo elogiou os "três excelentes candidatos", que entram nesta "corrida renhida".

Para o português, as candidaturas de Espanha, Irlanda e Luxemburgo "mostram que o Eurogrupo é mais importante e influente do que nunca". Centeno refere-se também ao período do seu mandado de dois anos em meio, em que para ele foi possível demonstrar "o grupo do euro pode liderar não apenas a área do euro, mas também toda a União Europeia ao uni-la".

"Estes ministros estiveram presentes por longas horas e inúmeras reuniões. Eles conhecem a importância deste grupo. Estou certo de deixar o Eurogrupo em boas mãos", afirmou na mensagem, gravada sob o sol de Lisboa, no topo do ministério das Finanças, a partir do qual o encontro europeu vai ser coordenado por videochamada, para a eleição eletrónica do sucessor de Centeno.

A candidata espanhola Nadia Calviño aparece como favorita, à medida que vai somando apoios, como o de Berlim, e já esta tarde, foi oficializado o apoio de Paris, depois do anúncio do ministro francês das Finanças, Bruno le Maire, justificando que a França "partilha com Espanha a mesma vontade de uma integração mais forte da zona euro".

Portugal também já tinha anunciado que o estreante João Leão, que substituiu Centeno no ministério das Finanças votará em Nadia Calviño, assegurando a preferência regional e política, e mantendo a "boa tradição" de Portugal e Espanha "de apoio recíproco às candidaturas internacionais", como afirmou o primeiro-ministro, António Costa, na segunda-feira, quando fez o anúncio.

"Apoiaremos a candidatura de Nadia Calviño à presidência do Eurogrupo, desde logo pelas suas qualidades pessoais, pela forte experiência que tem em matéria europeia e também pela convergência de pontos de vista que temos mantido sobre o que deve ser o futuro da União Económica e Monetária", afirmou António Costa.

Equilíbrio de forças

Com Nadia Calviño os vários equilíbrios permaneceriam praticamente inalterados: o Eurogrupo continuaria a ser dirigido por um governante de um país do sul, que, neste caso, como o português Mário Centeno, também a ministra espanhola é membro de um governo da família socialista europeia.

Além disto, é-lhe reconhecida uma larga experiência em cargos importantes, em Bruxelas.

Há outro fator, cujo o peso não está quantificado na decisão que vai ser tomada esta tarde, mas que algumas fontes admitem que possa ter influência: Nadia Calvino é a única mulher que se senta na mesa dos governantes do Eurogrupo.

Mas, nem tudo joga a favor da ministra Espanhola.

Em Bruxelas, há quem argumente que, na distribuição de cargos, o equilíbrio geográfico pode não estar assegurado, por o antecessor de Nadia Calviño no governo de Espanha, ocupar agora uma das vice-presidências do BCE.

Esse é um dos argumentos do veterano Pierre Gramegna. O luxemburguês que em 2017 desafiou Mário Centeno, é novamente candidato, em 2020, e tem a favor a dimensão e a centralidade do país que representa, que tradicionalmente tem conseguido chegar a diversos cargos de topo, nas instituições da União Europeia.

Mas, a nomeação do antigo diplomata entregaria dois dos tronos de Bruxelas, à família liberal, no Benelux, agora que o belga Charles Michel é presidente do Conselho Europeu.

O irlandês Paschal Donohoe pode por isso apresentar-se como o candidato de compromisso, caso a escolha do futuro presidente do Eurogrupo caia num impasse. Mas, as incertezas quanto ao futuro no ministério das Finanças, em Dublin, também não tornam obvia a nomeação do político liberal-conservador para a presidência do Eurogrupo.

Votação secreta por via eletrónica

O voto é secreto, e na era Covid teve de ser encontrada uma solução, para que numa videoconferência, pudesse ser assegurada esta regra. Assim, a votação será realizada pela via eletrónica.

O presidente do Eurogrupo é eleito para um mandato de 2,5 anos, com a responsabilidade de "elaborar o programa de trabalho a longo prazo do Eurogrupo, apresentar os resultados dos debates do Eurogrupo ao público e aos ministros dos países da UE que não pertencem à área do euro, representa o Eurogrupo nas instâncias internacionais (por exemplo G7), informa o Parlamento Europeu das prioridades do Eurogrupo".

O presidente do Eurogrupo pode também ser eleito presidente do Conselho de Governadores do Mecanismo Europeu de Estabilidade, se os membros deste Conselho assim o decidirem.

O presidente do Eurogrupo é eleito por maioria simples dos membros do Eurogrupo por um mandato de dois anos e meio.

"Se o presidente estiver impedido de exercer as suas funções, é substituído pelo ministro das finanças do país que exercer a presidência do Conselho. Se o país que exerce a presidência não for membro da área do euro, é substituído pelo ministro das finanças do próximo país da área do euro a exercer a presidência do Conselho. Se o presidente do Eurogrupo renunciar ao mandato, os membros do Eurogrupo têm de eleger um novo presidente o mais rapidamente possível", conforme está especificado na página do Conselho Europeu, na parte dedicada ao Eurogrupo.

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