IP esteve dois anos à procura de sistema de controlo de velocidade

Gestora de infraestruturas garante que máquinas de serviço vão continuar a sair para a linha. Novo sistema vai demorar um ano a ser instalado.

Apenas no dia 22 de julho de 2020, há duas semanas, é que a IP - Infraestruturas de Portugal encontrou uma solução para instalar um sistema de controlo de velocidade nas suas máquinas de via. A gestora de infraestruturas esteve dois anos à procura de um sistema que poderia ter evitado o acidente de sexta-feira do Alfa Pendular em Soure, a 190 km/h, depois do abalroamento de um veículo da IP que não respeitou o sinal vermelho e do qual resultaram dois mortos.

O novo sistema de controlo de velocidade, contudo, vai demorar 12 meses até começar a ser implementado. Até lá, as máquinas da IP vão continuar a circular nas vias sem este sistema, segundo os esclarecimentos prestados esta segunda-feira pela empresa a partir da sua sede, no Pragal.

A gestora alega também que cumpriu todas as recomendações dos peritos do GPIAAF - Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários relativamente à circulação destas máquinas. A procura pelo sistema de controlo de velocidade, designado de Convel, apenas começou em julho de 2018, apesar de, até ao início de 2016, as máquinas da IP terem passado o sinal vermelho mais de uma dezena de vezes. A gestora de infraestruturas esperou pelo resultado da análise dos peritos do GPIAAF relativamente a um incidente ocorrido em Roma-Areeiro em janeiro de 2016.

"Logo na altura, foram inscritos cerca de quatro milhões de euros no orçamento de 2019/2020 para fazer face a esta necessidade de investimento", referiu o vice-presidente da IP, Carlos Fernandes, na conferência de imprensa. Com a proposta para equipar as suas 50 máquinas de via, a IP contactou os canadianos da Bombardier, que detêm as patentes do Convel, sistema utilizado pelos operadores ferroviários portugueses CP, Fertagus, Medway e Takargo.

Em janeiro de 2019, no entanto, o negócio com a Bombardier não avançou. "A proposta mereceu reservas de exequibilidade técnica", alega a IP. Seguiram-se contactos, infrutíferos, com as autoridades da Suécia, Noruega e Bélgica, que também usam o Convel como equipamento de segurança.

Não havendo o sistema português - vindo da década de 1980 mas "muito fiável" -, a empresa pública contactou várias multinacionais especialistas em sinalização para fornecer o sistema europeu de gestão de tráfego ferroviário europeu, o ETCS. As portuguesas Nomad Tech e Quantico Solutions, os alemães da Siemens, os franceses da Alstom, os japoneses da Hitachi Rail e até os canadianos da Bombardier foram contactados entre o final de março e o início de abril.

O ETCS tinha de conseguir "ler" o Convel português, instalado em 1600 quilómetros da rede ferroviária nacional, como a Linha do Norte. Mas as respostas, já em maio, não correspondiam aos critérios da IP, como aconteceu com a Alstom, que apresentaram uma "proposta incompatível"; a Bombardier, como dona da patente do Convel, pediu mais tempo.

No meio das "negas", a empresa pública garante que ministrou "uma média de 6000 horas de formação" por ano, entre 2017 e 2019, aos trabalhadores com funções de condução, segundo a diretora de segurança, Luísa Garcia. A IP assegura também que quando estas máquinas de via estão a circular, o foco está nas linhas do comboio. "A tripulação não tem outras tarefas incumbidas durante o período de condução do maquinista."

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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