Investimento estrangeiro vai afundar 40% este ano

Nações Unidas falam em quebra dramática devido à pandemia. Investimento internacional cai para níveis de 2005.

O investimento direto estrangeiro deverá cair 40% neste ano para valores não vistos desde 2005, de acordo com o relatório anual da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) divulgado esta terça-feira (16 de junho).

Nestas projeções, os fluxos de investimento direto externo globais deverão recuar dos 1,5 biliões de dólares de 2019 para um valor que poderá ficar abaixo de um bilião de dólares pela primeira vez em 15 anos - 920 mil milhões de dólares no limiar mínimo da previsão. A perspetiva é que a tendência de contração continue pelo menos até 2021.

O relatório da ONU destaca que, entre as cinco mil maiores multinacionais, a grande maioria reviu já em baixa as expectativas de resultados, prevendo-se, em média, quebras de 35% para os negócios com maior investimento internacional. E a recuperação está longe de ser dada como certa.

"Ao longos dos dois anos críticos de 2020 e 2021, o choque da procura será o maior fator a fazer cair o investimento", assinala a UNCTAD. Apesar de as alterações no crescimento tardarem habitualmente a ser incorporadas nas decisões de investimento externo, a reação à redução da procura será desta vez muito mais rápida e vai começar a materializar-se este ano para se acentuar mais ainda em 2021.

Além destes fatores, as ruturas de abastecimento observadas nos primeiros meses da pandemia, e que fragilizaram indústrias como o têxtil e automóvel, impelem agora as empresas a recolherem as cadeias de valor, com as políticas industriais nacionais e regionais apostadas também na autossuficiência.

A Europa e a Ásia serão, em termos absolutos, as regiões mais afetadas com a inversão do movimento de internacionalização ao longo destes dois anos.

Da perda de 620 mil milhões de dólares no investimento direto esperada globalmente este ano, os países asiáticos deverão receber menos 214 mil milhões de dólares. Outros 189 mil milhões a menos são previstos nos países europeus, onde Holanda, Irlanda e Reino Unido encabeçam a lista dos maiores recetores de investimento.

Já os Estados Unidos, primeiro destino de investimento internacional do mundo, e o Canadá deverão receber menos 107 mil milhões de dólares.

A América Latina e o Caribe poderão ver o investimento externo cair 94 mil milhões de dólares, enquanto África arrisca perder a chegada de 15 mil milhões de dólares face aos números de 2019.

No último ano, o investimento direto estrangeiro global conheceu uma subida ligeira de 3%, interrompendo dois anos de descidas em que muito do investimento de origem norte-americana foi contido em casa pelo alívio fiscal oferecido pela Administração Trump às empresas.

A UNCTAD admite a hipótese de em 2022 o investimento vir a retomar a tendência pré-covid. Mas sem levantar grandes expectativas. "A partir de 2022, os fluxos de investimento começarão lentamente a recuperar, impulsionados pela reestruturação das cadeias globais de valor para maior resiliência, pela reposição dos stocks de capital e pela recuperação da economia global".

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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