Europa tem de "recuperar a soberania, sem cair no protecionismo"

"Importantes setores da indústria europeia não podem estar paralisados porque deixam de chegar componentes fabricados na Ásia", defende Maria da Graça Carvalho, eurodeputada do PSD e presidente do Intergrupo Investimentos Sustentáveis de Longo Prazo.

A indústria europeia tem vindo a perder terreno, nomeadamente face aos Estados Unidos e aos grandes países asiáticos, e a pandemia de covid-19 veio pôr a nu as fragilidades. Para Maria da Graça Carvalho, eurodeputada e presidente do Intergrupo Investimentos Sustentáveis de Longo Prazo e Indústria Europeia Competitiva, a Europa "não pode estar dependente de outros mercados" para assegurar o abastecimento de máscaras e ventiladores, nem pode ter "importantes setores da sua indústria paralisados" porque deixam de chegar componentes fabricados na Ásia. "Há que recuperar essa soberania, sem cair no protecionismo", defende.

Falando ao Dinheiro Vivo/DN a propósito da reindustrialização, Maria da Graça Carvalho defende que, "a melhor forma" que as instituições europeias têm de promover as transformações necessárias "é criando condições para o desenvolvimento da inovação, envolvendo os diferentes stakeholders - indústrias, empreendedores, universidades e centros de investigação, nas tomadas de decisão". O Integrupo da Indústria, criado em fevereiro, pela primeira vez, no Parlamento Europeu, visa, precisamente, fazer essa ponte com os decisores políticos, refere. A transição digital e a descarbonização são outros dos desafios que tornam premente essa necessidade de reindustrialização europeia

Autora de um relatório sobre a agenda estratégica do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT), no âmbito do próximo programa-quadro Horizonte Europa, Maria da Graça Carvalho tem procurado tornar este instituto "mais equilibrado", tanto ao nível da distribuição geográfica dos apoios concedidos como dos seus diferentes pilares de atuação, "mais simples" nos procedimentos e "mais transparente". Sendo parte do programa-quadro da Ciência, o EIT intervém em todas as etapas do chamado triangulo do conhecimento - educação, ciência e inovação -, facto que, associado a um modelo de organização em torno de diferentes comunidades de conhecimento e inovação (KICs), dedicadas a áreas especificas como a saúde, as matérias-primas, a energia, o torna numa "plataforma particularmente útil" para a transferência de tecnologia para a indústria. "Tecnologia da qual esta precisa para se adaptar aos muitos desafios que tem pela frente, do Green Deal à digitalização".

O relatório que elaborou acabou por incluir propostas no sentido de reforçar a capacidade de resposta deste instituto à pandemia de covid-19, e a futuras crises, através do reforço de meios e capacidades das KIC"s nas áreas da saúde, mas também do digital, como resposta à crescente importância dos dados nas tomadas de decisão em situações como a que vivemos. "A Europa não tinha uma política verdadeiramente comum na área da saúde. Entretanto, pela primeira vez, a Comissão Europeia anunciou que teremos um plano de ação a esse nível, com meios adequados, o que é uma excelente noticia", destaca.

A grande tradição industrial portuguesa, sobretudo em alguns setores, e a "grande resiliência" que têm demonstrado são pontos positivos reconhecidos por Graça Carvalho que, no entanto, não considera que isso seja suficiente para colocar o país em posição de vantagem face aos nossos concorrentes, dentro e fora da União Europeia. "Na minha opinião, o que fará a diferença na indústria portuguesa será a sua capacidade de inovar, tanto dentro dos setores já consolidados como na afirmação de novos setores emergentes, nomeadamente nas tecnologias digitais", acrescentando que "precisamos de investir, cada vez mais, em ciência e inovação", mas também de "continuar o esforço de qualificação" da população e de "corrigir assimetrias, salariais e outras, que condicionam" o crescimento do país. "No passado, Portugal "perdeu" algumas revoluções industriais na Europa, e depois disso demorou muito tempo a tentar apanhar o comboio em movimento. Na revolução que aí vem, o objetivo tem de ser partirmos na linha da frente".

Na resposta à covid-19, as empresas portuguesas reagiram com rapidez, a questão é o que se seguirá. "Há uma característica que é universalmente reconhecida aos portugueses, e que se refletiu também nessa resposta por parte da indústria: a nossa capacidade de adaptação e de reação quando somos pressionados. As dificuldades costumam surgir quando precisamos de definir e de implementar estratégias a médio e longo prazo", reconhece a eurodeputada. Para Maria da Graça Carvalho, o futuro depende das opções que se tomarem daqui para a frente. "Se formos capazes de conjugar esse espírito criativo e essa flexibilidade com a disciplina e capacidade estratégica que por vezes nos faltam, estaremos seguramente no bom caminho".

O acesso justo aos mercados tem sido um tema muito questionado pelos responsáveis empresariais, que a pandemia de covid-19 acentuou. A eurodeputada do PSD reconhece que, nas relações comerciais da União Europeia com alguns países, nomeadamente asiáticos, mas não só - "vejamos o caso das grandes plataformas da Internet, por exemplo" - "nem sempre as regras têm sido equilibradas". Maria da Graça Carvalho assume que "não é grande apologista" de políticas protecionistas, porque, no final, "todas as partes ficam a perder", no entanto reconhece que a União Europeia "deve bater-se" por regras comuns para todos. "Basta pensarmos no Green Deal. Como podemos pedir às nossas empresas que façam a exigente transição para a descarbonização e para as energias verdes se, ao lado, estas tiverem concorrentes que praticam preços mais baixos porque não fizeram esse esforço?".

Questionada sobre a criação de incentivos específicos à reindustrialização, esta responsável aponta o Recovery Plan, em conjunto com o orçamento europeu, e o European Green Deal que contemplam já um conjunto de incentivos "muito importantes" para as empresas nos 27 Estados membros. "É importante concentrar esforços, nomeadamente ao nível do investimento, nos próximos dois anos, mas não devemos perder de vista o médio e o longo prazo", defende. Mas acredita que "estamos no bom caminho". A captação de investimentos é difícil, dado que a União Europeia é uma "conjugação de diferentes vontades", pelo que a capacidade de Bruxelas de impor regras para a atuação em bloco "nunca será a mesma de Washington, muito menos a de Pequim".

"É verdade que, quanto mais unidos formos, quanto mais coordenadas forem as nossas estratégias, mais fortes seremos. As assimetrias existentes dentro da União, as dicotomias Norte-Sul, em nada contribuem para o nosso futuro comum, mas a União Europeia não é um bloco. Duvido que alguma vez o venha a ser. Temos de continuar a encontrar formas de nos entendermos nas nossas diferenças. Tem sido essa a nossa história. E veja, ainda assim, todo o caminho que já percorremos".

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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