Empresas testam regresso às feiras internacionais

Têxtil quebra o gelo e dá o primeiro passo. O calçado regressa em setembro a Milão, mas com quase um terço das presenças de 2019. Metalúrgica e metalomecânica estão mais reticentes

As feiras internacionais estão de volta, apesar da incógnita quanto à adesão dos visitantes e das reticências dos expositores. Mas, com as exportações de bens de consumo a caírem 17% no acumulado dos primeiros seis meses do ano, equivalentes a quase cinco milhões de euros a menos vendidos ao exterior comparativamente a igual período do ano passado, as empresas sentem necessidade de voltar a marcar presença nos palcos internacionais, para reforçarem as relações já existentes e procurarem novos clientes.

Na semana passada, três empresas portuguesas de vestuário marcaram presença na feira infantil Supreme Kids, em Munique, naquele que foi o primeiro certame profissional a decorrer presencialmente desde o início da pandemia. Carla Areal, CEO da Meia Pata, fala num "ato de coragem" das três marcas e garantiu, em declarações ao Jornal T, que o balanço final foi "extremamente positivo". Das 37 feiras que constam do calendário habitual do setor na segunda metade do ano, ainda só 15 têm edição física agendada. As restantes optaram por versões digitais. Já as empresas portuguesas estão a aderir "lentamente e em cima da hora", atendendo a toda a incerteza da covid-19, procurando "avaliar qual a tendência do mercado", diz a Selectiva Moda. Por outro lado, as próprias feiras "têm agora outra flexibilidade" para aceitar inscrições mais em cima da hora.

É o caso da Primiére Vision Paris, um dos certames de presença obrigatória da indústria da moda europeia, que vai decorrer nos dias 15 e 16 de setembro - menos um dia do que o inicialmente previsto - e que, além de ter feito um desconto de 15% na reserva do espaço, está, excecionalmente, neste semestre, a aceitar inscrições até ao final de agosto. No ano passado, Portugal fez-se representar na feira por quase 80 empresas, este ano, só estão inscritos, para já, segundo as informações disponíveis no site da feira, 22 expositores individuais. A Selectiva Moda aumentou o seu espaço quer no fórum tecidos quer na área dedicada à subcontratação de vestuário, como forma de "poder ter amostras das várias empresas que são habituais na feira e que, nesta edição, não estão confortáveis em ir fisicamente". Além das "muitas novidades" que conta apresentar no Green Circle, dedicado à inovação e à sustentabilidade.

"Estamos a fazer um grande esforço de comunicação para mantermos o nome de Portugal na linha da frente da inovação na Europa", sublinha Manuel Serrão. Lembra que há expositores que não vão às chamadas "feiras tradicionais", mas que, em contrapartida, vão a outras mais direcionadas para a Saúde, por exemplo, um setor desconhecido por muitas empresas até há pouco tempo. Para a Medica Dusseldorf, agendada para novembro, a Selectiva Moda tem já confirmado o triplo do espaço e cinco vezes mais empresas do que em 2019. Nos primeiros seis meses do ano, as exportações de têxteis e vestuário caíram 17,4% para 2,2 mil milhões de euros.

Dúvidas assolam o calçado

Também em Dusseldorf, mas já esta semana - de 30 de agosto a 1 de setembro - decorre a Gallery Shoes, a primeira feira de calçado a realizar-se após o confinamento. A comitiva portuguesa será mais reduzida do que em edições anteriores, conta com apenas seis empresas. Em setembro, de 20 a 23, é a altura de Milão receber a Micam, a mais importante feira do setor, na qual participarão cerca de 35 expositores nacionais, quase um terço dos da edição de setembro de 2019. Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da associação do calçado, APICCAPS, admite que "as dúvidas quanto ao impacto da feira e quanto às questões de higiene e segurança condicionaram várias empresas".

Para tentar ajudar, e além das muitas medidas tomadas a nível do reforço de segurança, a organização da Micam permitiu às empresas inscreverem-se mais tarde, além de ter concedido descontos no aluguer do espaço. E criou uma plataforma digital para todos os que não querem ou não podem estar presentes. A Micam Milano Digital Show pretende proporcionar "mais oportunidades de negócio", uma parceria com a NuOrder, que vai permitir aos expositores publicarem os seus catálogos de produtos na nova plataforma digital e, assim, alcançarem um universo de mais de 500 mil compradores.

De qualquer forma, Paulo Gonçalves é perentório: "Que não existam dúvidas. As feiras profissionais continuam a ser muito relevantes para as empresas, porque permitem testar coleções, contactar novos clientes, aprofundar parcerias existentes e mesmo conhecer melhor a concorrência". Mas, consciente do ano "atípico" que se vive, a APICCAPS tem procurado assegurar que as empresas possam contactar os seus clientes também por via eletrónica. "Reforçámos, de forma significativa, já este ano os investimentos na promoção online das nossas empresas e esse é um esforço que iremos continuar já a partir de setembro", frisa. As exportações portuguesas de calçado caíram 20,5% no primeiro semestre, para 678,4 milhões de euros. As previsões apontam para uma quebra do consumo mundial de calçado, por via da pandemia, da ordem dos 22,5%.

Metalurgia está renitente

Mais reticente na participação de feiras no exterior está a indústria metalúrgica e metalomecânica. Habitualmente, participa em mais de duas centenas de certames, por ano, a maioria dos quais, pelo menos os mais importantes, ocorrem no primeiro semestre. A associação do setor, a AIMMAP, tem a expectativa de poder vir a organizar um stand conjunto na ELMIA Subcontractor, na Suécia, em novembro, mas é a única em que admite participar. "Sabemos que a Metal Madrid está a fazer um esforço quase desesperado no sentido de ser levada a efeito, todavia, as nossas empresas que iriam integrar um stand conjunto da AIMMAP na feira não quiseram participar", diz . "Só em casos pontuais e muito bem estudados é que as empresas ponderam participar", garante.

O "desinteresse dos visitantes e potenciais clientes" é a principal razão apontada, com as empresas a não estarem muito interessadas em "investir em feiras que ameaçam não ter retorno". A campeã das exportações está, este ano, a cair 25% no primeiro semestre, para 7,7 mil milhões de euros. Isto, apesar de um crescimento de 8,4% nos mercados extracomunitários.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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