Crise no turismo europeu põe em risco até 11,7 milhões de empregos. Algarve é das regiões mais afetadas

Estudo da Comissão Europeia antecipa para este ano quebra de turistas de 38% no melhor dos cenários. Se houver novo fecho de fronteiras pode ir aos 68%.

O recuo do turismo devido à pandemia pode pôr em causa ainda neste ano até 11,7 milhões de postos de trabalho na União Europeia, caso as fronteiras voltem a fechar com uma chamada segunda vaga de infeções pelo vírus da covid-19, segundo um estudo publicado ontem pelo Centro de Investigação Comum da Comissão Europeia. Portugal não surge, no todo nacional, como um dos países mais afetados, mas sofre um dos maiores impactos regionais no Algarve.

O estudo, da unidade de investigação para apoio das políticas comunitárias, foi conduzido entre 15 de abril e 15 de junho para calcular os efeitos das alterações comportamentais dos turistas face à pandemia. Prevê três cenários, dos quais o pior, a implicar novo encerramento generalizado de fronteiras, vê o movimento turístico deste ano 68% abaixo do de 2019. Na melhor das hipóteses, a de um verão longo e com confiança relativa dos consumidores, as quebras poderão ficar contidas em 38%. Um cenário médio ainda marcado pelo medo de viajar mas ainda com procura por destinos domésticos e alternativos coloca a perda em 52%.

As previsões do centro de investigação de Bruxelas são, ainda assim, menos penalizadoras do que as já avançadas pela Organização Mundial do Turismo, que pressupõe recuos num intervalo de 58% a 78% ao longo deste ano.

Segundo o estudo, a retração da atividade turística vai ter um forte impacto no emprego, com entre 6,6 milhões e 11,7 milhões de postos de trabalho em risco (seja de despedimentos, não renovação de contratos ou redução do trabalho com maior adoção de part-time) nos 27 países da União Europeia.

Madeira entre as regiões de maior risco

Na análise por país, Croácia, Chipre, Malta, Grécia, Eslovénia, Espanha e Áustria deverão ser os países mais afetados. Mas o estudo aborda também impactos regionais diferenciados, mais fortes nas região com maior concentração de empregos no turismo, com economias menos diversificadas e mais dependentes do turismo internacional. É o caso do Algarve, onde o emprego na hotelaria tem um peso de 11,9% (o do turismo, em geral, supera os 30%), nos dados citados e relativos a 2018.

O estudo destaca a maior vulnerabilidade das regiões onde o peso do emprego no setor de alojamento é superior a 8%, e onde se destacam, na Grécia, o Egeu Meridional, as ilhas Jónicas e Creta, com percentagens entre os 12,2% e os 29,1%, assim como o norte de Itália (10,3%), o Tirol austríaco (9,4%) e, em Espanha, as ilhas Baleares (8,8%).

Ainda em Portugal, com uma concentração menor de emprego no alojamento turístico (apenas 6%), a Madeira surge também entre as regiões de maior risco.

O estudo assinala sobretudo o potencial de perturbação no mercado de trabalho por via do setor da hotelaria, onde cada emprego criado, nas estimativas feitas, se desdobra em até 6,7 outros no conjunto da economia, através das cadeias de valor.

Ainda assim, os autores assinalam que os efeitos no emprego poderão ainda ser mitigados face às perdas de resultados registadas pelas empresas do setor. Lembram que "despedir pessoas com contratos permanentes também tem custos" e consideram que, "sendo o pessoal central no setor turístico, as empresas tentarão tanto quanto possível proteger e conservar o capital humano". "No entanto, as pessoas com baixos níveis de qualificações e contratos a prazo poderão as mais afetadas pela crise."

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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