Comerciantes admitem concentrar mercado dos carros usados

A falta de veículos novos no mercado está a afetar a venda de unidades em segunda mão. Standvirtual admite que plataformas possam comprar diretamente a particulares. Portugueses compram na internet veículos até 100 mil quilómetros a valer 10 a 15 mil euros.

A falta de carros por causa da crise dos semicondutores pode ditar novas tendências no comércio de usados. A plataforma Standvirtual admite que grandes plataformas possam comprar automóveis diretamente aos particulares, para depois serem revendidos, como solução para suprir a falta de usados no mercado automóvel.

As associações do setor defendem que esta alternativa seria insuficiente e exigem mais regulamentação no mercado.

"O mercado de usados em Portugal é dividido, em 50%, em vendas entre particulares e vendas de profissionais a particulares. Em mercados como o inglês, quando os profissionais têm menos carros mas há mais regulamentação e garantias, o mercado é eficiente e vai buscar unidades aos particulares", explica ao Dinheiro Vivo o diretor-geral do Standvirtual, Nuno Castel-Branco.

Em Inglaterra há plataformas que conseguem comprar 300 mil carros aos particulares num trimestre. Depois da compra, os carros são recondicionados e postos à venda na internet.

O Standvirtual admite que "pode tentar ajudar a criar" esse mercado em Portugal. O modelo permite que as transações "paguem IVA, deem garantia aos veículos, maior transparência de preço e ainda potenciam o negócio das oficinas".

Nuno Castel-Branco entende que a opção pode ajudar "80% dos vendedores, que são de pequenos negócios, e que não conseguem ir buscar carros a gestoras de frotas, empresas de aluguer de veículos e até a concessões".

As associações do setor, por outro lado, estão de pé atrás com a proposta da plataforma que liga consumidores a concessionários de venda de usados.

"Se um consumidor vender o carro a um cliente final, o preço final será mais alto do que se for vendido a uma empresa", defende o secretário-geral da Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel (ANECRA). Para Roberto Gaspar, "o negócio entre particulares continua a existir por causa disso".

A proposta do Standvirtual seria apenas "abrir um novo canal de venda" em vez de responder ao problema atual: "as grandes empresas que antigamente abasteciam os concessionários de usados começaram a vendê-los diretamente aos consumidores porque perceberam que tinham de controlar o negócio".

Mais regulamentação é a principal exigência da Associação Portuguesa do Comércio Automóvel (APDCA)."É necessária a clarificação das regras do comércio automóvel de usados", entende o presidente, Nuno Silva.

"Temos muitos particulares que fazem mercado paralelo e que não pagam quaisquer imposto. Se querem esse negócio, então devem ter uma carteira profissional, com o preenchimento de uma declaração junto da Autoridade Tributária", detalha o empresário. O dirigente também defende que os carros usados sejam certificados por entidades externas.

O comércio de veículos em segunda mão vai continuar a passar por dificuldades nos próximos dois anos anos, por causa da falta de novas unidades para entrega aos consumidores, antecipa Nuno Castel-Branco.

"No primeiro semestre de 2022 vai continuar a haver falta de produto novo por causa da crise dos semicondutores. Depois disso, lá para o terceiro trimestre do próximo ano, a recuperação será do ponto mais baixo do período pré-pandemia."

Como o comércio de veículos zero quilómetros só deverá voltar à normalidade em 2023, os concessionários de unidades usadas só serão beneficiados em 2024.

Caminho para elétricos

"O mundo está a preparar-se para suportar os carros elétricos", acredita o líder do Standvirtual. A empresa conduziu um estudo recentemente e 60% dos 775 inquiridos admitiram, no futuro, comprar um veículo sem emissões.

Os consumidores, no entanto, têm um ideal de autonomia entre 500 e 700 quilómetros para os veículos elétricos, algo ainda raro de encontrar nas unidades à venda.

"As pessoas têm de ajustar as expectativas, porque só precisam de percorrer esses quilómetros uma ou duas vezes por ano", entende Nuno Castel-Branco. "Se isso acontecer, os condutores têm de planear as suas viagens para recarregarem os veículos." A educação dos consumidores pode ser a chave para corrigir o problema.

Sobre o mercado de usados, os inquiridos valorizam fatores como a confiança na plataforma, o historial do carro e a facilidade da transparência da propriedade. Os portugueses apenas admitem comprar veículos que tenham até 100 mil quilómetros e que custem entre 10 e 15 mil euros, segundo um inquérito realizado pela Marktest junto de 775 consumidores.

Tudo indica que os portugueses vão continuar a precisar dos carros nos próximos anos, até à chegada da condução autónoma, daqui a mais de uma década. "Isso é outro campeonato da mobilidade."

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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