Comboios a hidrogénio à espera de combustível europeu para arrancar

CP quer transformar Vouguinha no primeiro comboio português a hidrogénio. IP vai ceder linhas, a partir de 2023, para testes de protótipo desenvolvido por três países

Portugal participa em dois projetos para desenvolver comboios a hidrogénio. A CP lidera um grupo nacional para estudar a transformação das automotoras a gasóleo que circulam na linha do Vouga. A Infraestruturas de Portugal (IP) integra um consórcio com mais três países para adaptar um veículo elétrico. Os dois projetos para comboios regionais dependem, contudo, do combustível europeu para chegarem à fase de testes, a partir de 2023.

A CP lidera o projeto H2Rail, que contempla um investimento de 34,6 milhões de euros. "Gostaríamos de explorar a possibilidade de substituição de um motor diesel pela utilização de células de combustível a hidrogénio, passando a gerar eletricidade por essa via", explica ao DN/Dinheiro Vivo o vice-presidente da CP, Pedro Moreira.

O H2Rail reúne as competências de quatro parceiros: CaetanoBus, por causa das células de combustível para autocarros a hidrogénio; CP, especialista no material circulante; NomadTech, que domina a eletrónica; e ainda a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e a Associação Portuguesa para a Promoção do Hidrogénio.

Para já, foi apresentada uma candidatura, em articulação com o Ministério do Ambiente e da Ação Climática, junto do mecanismo europeu IPCEI. Desta forma, o projeto poderá receber financiamento para ser compatível com as regras do mercado interno e que contribua para os objetivos da União Europeia. Este dinheiro será fundamental para implementar as seis fases do projeto liderado pela CP.

Nos primeiros seis meses, serão necessários estudos de viabilidade técnica e financeira para transformar uma automotora a gasóleo num veículo para receber hidrogénio e ainda avaliar a logística dos postos de abastecimento.

Caso haja sucesso nas duas primeiras fases, será necessário transformar uma automotora a gasóleo Allan num veículo a hidrogénio. Reunidas as condições, a CP poderá criar pontos de abastecimento e transformar as sete automotoras da série 9630. Este processo deverá demorar ano e meio e terá de ser encontrado um espaço próprio nas oficinas de Guifões, reabertas há quase um ano, em Matosinhos.

O Vouga será o palco dos testes de serviço. Esta linha vai manter-se com bitola métrica e não será eletrificada, pelo menos, até ao final desta década, segundo o programa de investimentos até 2030.

Os estudos e testes do protótipo da CP vão decorrer com o apoio da IP, que participa no FCH2Rail, outro projeto de comboio a hidrogénio. A gestora da rede ferroviária nacional vai disponibilizar algumas linhas para os ensaios da automotora elétrica Civia, construída pela espanhola CAF. Este projeto tem algumas diferenças face ao projeto português.

"Vamos agarrar numa automotora elétrica Civia, da Renfe, com três carruagens. Sobre esta unidade vamos adicionar um sistema gerador de energia híbrido, com células de combustível e baterias de lítio/titânio. Em linhas eletrificadas, o comboio funciona com tração elétrica. Em linhas não eletrificadas, entra em ação o sistema gerador de energia. O sistema pode ser aplicado a veículos novos ou então ser adicionado a comboios já existentes", explica o responsável da IP Eduardo Borges Pires.

Os ensaios deverão decorrer em 2023 ou 2024. "Estamos a considerar troços transfronteiriços para os testes, em horários sem operação comercial. A linha do Minho ou a nova linha entre Évora e Caia são as principais possibilidades para receber os ensaios desta automotora elétrica.

O projeto da IP prevê um investimento de 14 milhões de euros e conta com parceiros de Espanha, Bélgica e Alemanha. Além da CAF, estão as empresas Renfe, DLR, Toyota Europe, ADIF, CHN2 e Faiveley Stemmann Technik. Tudo aponta que esta iniciativa arranque em janeiro e com financiamento comunitário de 10 milhões de euros.

Opção regional

Os dois protótipos de comboios a hidrogénio vão servir, se tudo correr bem, para utilizar no serviço regional. Portugal acompanha os exemplos do estrangeiro: na Áustria, a OBB tem um veículo a hidrogénio em serviço regular; na Alemanha, a operadora ferroviária Deutsche Bahn e a Siemens vão testar um comboio com este combustível; em Espanha, a Talgo quer um comboio deste género a circular regularmente em 2023.

Os comboios a hidrogénio servem melhor linhas regionais porque "há uma utilização menos exigente, com menos paragens e velocidades mais baixas", justifica Pedro Moreira. No caso da CP, espera-se que o Vouguinha a hidrogénio consiga uma autonomia mínima de 150 quilómetros, ou seja, uma viagem de ida e volta entre Sernada do Vouga e Espinho com reserva de combustível.

Mediante o resultado destes testes, a CP poderá avançar para uma encomenda de comboios novos a hidrogénio, por um valor estimado de 240 milhões de euros. A operadora ferroviária também está a estudar a instalação de baterias nas novas 129 automotoras elétricas que vão ser encomendadas nos próximos anos para os serviços urbanos, regionais e de longo curso.

"Numa situação de emergência, as baterias permitem retirar o veículo de um túnel ou deslocá-lo para o apeadeiro mais próximo." Mas é preciso ter em conta "o espaço e o peso deste material extra e que pode implicar um consumo adicional de energia", acrescenta o vice-presidente da CP.

Para a IP, a utilização do hidrogénio nos comboios "pode servir como solução para terminais ou parques de manobras", através da adaptação de locomotivas a gasóleo. A empresa pública lembra que a rede ferroviária nacional será praticamente toda eletrificada até 2030. Mas um comboio que só emite vapor de água pode levar a repensar se isto será uma opção viável.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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