Centeno quer Banco de Portugal a aconselhar "desenho de políticas públicas"

Na sessão do 175.º aniversário do Banco de Portugal, Centeno definiou como objetivo "contribuir para uma economia portuguesa recuperada e resiliente". Lagarde, presidente do BCE, revelou ser "muito improvável" a subida das taxas de juro em 2022.

O governador do Banco de Portugal (BdP), Mário Centeno, disse esta quarta-feira que até 2025 a instituição quer contribuir para a recuperação económica nacional "através de um aconselhamento fundamentado sobre o desenho de políticas públicas".

"Até 2025, é objetivo do Banco de Portugal contribuir para uma economia portuguesa recuperada, resiliente e convergente na Europa, no médio e longo prazo. Vamos fazê-lo através de uma análise económica oportuna e de qualidade e através de um aconselhamento fundamentado sobre o desenho de políticas públicas", disse o responsável máximo do banco central.

Mário Centeno falava na sessão solene comemorativa do 175.º aniversário do Banco de Portugal, que decorre hoje no Museu do Dinheiro, em Lisboa, e conta com a presença do primeiro-ministro, António Costa, e da presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde.

"Vamos fazê-lo também ouvindo as pessoas e os nossos parceiros, nacionais e internacionais, adotando formas de comunicação que favoreçam a compreensão pública sobre o que fazemos e porquê", prosseguiu o governador.

Na sua intervenção, que abriu a sessão, o antigo ministro das Finanças defendeu que na zona euro a prosperidade "depende de uma moeda única estável, merecedora da confiança dos cidadãos, e essa confiança tem de ser salvaguardada e promovida no dia a dia pelos [...] bancos centrais".

Segundo o governador, por esse motivo é que o Banco de Portugal, "no Plano Estratégico para 2021-2025, elegeu como prioridade o reforço da confiança no euro".

"Este reforço só poderá concretizar-se se os bancos centrais tiverem presente a importância de cultivarem uma relação próxima com os cidadãos, demonstrando-lhes porque é que os objetivos que perseguem, de estabilidade de preços e de estabilidade financeira, são fundamentais para o seu dia a dia. Promover a proximidade e reforçar a confiança é, por isso, o mote do novo Plano Estratégico do Banco de Portugal", prosseguiu.

Mário Centeno frisou que "a nova estratégia assenta num binómio essencial para a tomada de decisão: bons dados, boa análise".

Remetendo para o passado do Banco de Portugal, o governador lembrou que a instituição "soube ser, sempre, um pilar de resiliência para a sociedade portuguesa, contribuindo para a estabilidade económica e financeira de Portugal".

"Nas crises devemos explicar, informar e contribuir para as soluções. Em momentos onde tudo parece estar bem devemos identificar os desafios e deixar os alertas necessários à estabilidade financeira", advogou.

Para Mário Centeno, a História ensinou que "a estabilidade económica e financeira é o resultado do complexo funcionamento dos nossos sistemas económicos, sociais e até políticos e culturais".

"Sendo um desígnio coletivo, é uma responsabilidade acrescida para o Banco de Portugal", vincou.

"Perante esta plateia, que se estende da Rua do Comércio a todo o país, posso garantir-vos que podem contar connosco para construir uma estratégia de desenvolvimento e prosperidade para Portugal e para a Europa, renovando a cada ano o compromisso assumido há 175 anos", concluiu o líder do banco central.

Lagarde considera "muito improvável" subida das taxas de juro em 2022

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse nesta cerimónia ser "muito improvável" que estejam reunidas as condições para subir as taxas de juro em 2022.

Falando acerca das três condições que "precisam de ser satisfeitas antes de as taxas começarem a subir", Christine Lagarde considerou que no próximo ano ainda não estarão reunidas as condições para essa subida.

"Apesar da atual subida da inflação, as perspetivas para a inflação no médio prazo permanecem moderadas, e portanto é muito improvável que essas três condições sejam satisfeitas no próximo ano", disse hoje na sessão que decorreu no Museu do Dinheiro, em Lisboa.

Falando acerca do programa de emergência de compra de ativos adotado para fazer face à pandemia de covid-19 (PEPP), Christine Lagarde afirmou que "por agora" o BCE continuará a usá-lo "para salvaguardar as condições de financiamento favoráveis e assegurar que os custos do crédito para todos os setores da economia não apertam indevidamente".

"Um aperto indevido das condições de financiamento não é desejável numa altura em que o poder de compra já está a ser comprimido por maiores contas na energia e nos combustíveis, e representaria um vento contrário sem garantia para a recuperação", afirmou Christine Lagarde.

A presidente da instituição sediada em Frankfurt acrescentou ainda que as medidas de calibração do ritmo de compra de ativos "num mundo pós-pandémico" serão anunciadas em dezembro pelo BCE.

"Mesmo depois do esperado fim da emergência pandémica, será importante que a política monetária - incluindo a calibração apropriada da compra de ativos -- apoie a recuperação e o regresso sustentado da inflação para o nosso objetivo de 2%", vincou.

Também para depois da pandemia, Christine Lagarde alertou para o risco de que "a transição 'verde' pode causar mais volatilidade nos preços da energia", bem como para a problemática das desigualdades causadas pela transição digital.

Adicionalmente, a antiga diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiu ainda para as alterações climáticas.

"Externamente, a pandemia mostrou-nos quão vulneráveis nós somos a disrupções que ameaçam a ordem do comércio mundial. Isto é particularmente verdade para a Europa, sem integração profunda na economia mundial", sustentou.

"As disrupções nas cadeias de oferta podem apenas ser um ensaio para algumas das dificuldades que encontraremos quando os desastres naturais se tornarem mais frequentes", advertiu a responsável máxima do BCE.

Christine Lagarde considerou ainda que o mesmo pode acontecer "se as relações internacionais se tornam mais tensas e as cadeias de oferta comecem a ser influenciadas por enviesamentos geopolíticos".

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