Bolsas tremem com novas medidas covid-19

Ações mundiais registaram a pior semana desde março com receios sobre o impacto nos lucros das empresas das medidas dos governos mo âmbito da epidemia. Cotadas expostas a áreas mais afetadas, como o retalho, turismo e a restauração, deverão ser penalizadas.

Se fosse por 15 dias, não traria tantos receios aos investidores. Mas a expectativa nos mercados é de que podemos estar a assistir apenas ao começo do progressivo reforço de medidas mais restritivas anunciadas pelos governos no âmbito da epidemia. As bolsas mundiais já refletem esses receios. As ações sofreram na semana passada a pior semana desde março, quando houve o início do confinamento em muitos países, com a exceção da Suécia, que rejeita a opção do confinamento. A vaga de vendas de ações surge quando muitos governos adotam medidas que podem afetar os lucros das empresas cotadas.

Nem as tecnológicas escaparam ao despejo de ações por parte dos investidores que também adotam uma posição de cautela em vésperas das eleições presidenciais nos Estados Unidos, no dia 3 de novembro. "As medidas de restrição dos governos (na Europa), bastante agressivas e abruptas, são prejudiciais para tudo o que é atividade económica", apontou, Steven Santos, diretor de Trading Platforms & Brokerage do BiG - Banco de Investimento Global. "A tendência é para haver pressão nos ativos de risco, como as ações", frisou.

O índice MSCI de ações mundiais desceu 1,2% na sexta-feira passada, acumulando perdas de 5,3% nas cinco sessões. Trata-se de queda mais pronunciada desde a onda de vendas registada em março. Em Lisboa, o PSI-20 perdeu 4,7% na semana passada e a queda não foi mais expressiva porque o principal índice da praça portuguesa fechou a subir mais de 2%, impulsionado pelos ganhos de 8% do Millennium bcp, que apresentou resultados que agradaram aos analistas. "Esta crise chega em má altura para o PSI-20, que ainda não tinha recuperado completamente da crise anterior", salientou Steven Santos.

Mas não são só as ações a sofrer o impacto. O aumento das preocupações dos investidores com a evolução da economia a nível mundial e o impacto das novas medidas restritivas do coronavírus na procura por combustíveis, pressionam os preços do petróleo. A cotação do Brent, que serve como referência internacional, caiu 1,7% na última sexta-feira, para 37 dólares o barril. Perdeu um décimo do seu valor ao longo da última semana.

Inverno sombrio

Com a chegada do frio e da chuva à Europa, têm disparado, como seria de esperar, os novos casos 'positivos' ao novo coronavírus e aumentado o número de mortes de pessoas que testaram positivo ao vírus. Em Portugal, onde se está a efetuar diariamente um número recorde de testes, quase todos os dias há novos máximos de casos positivos detetados. Foram registados no país, nas últimas 24 horas do dia 31 de outubro, mais 39 mortes com testes positivo ao novo vírus e 4.007 casos positivos, segundo dados da Direção-Geral da Saúde. O anúncio da subida de casos e mortes, que é comum também aos restantes países europeus, tem mantido os mercados acionistas pressionados porque os investidores receiam o impacto negativo nos lucros das empresas cotadas das medidas mais restritivas, que em alguns países incluem confinamento parcial.

Entre os setores que deverão ser os mais afetados estão os das atividades ligadas ao turismo e lazer, como viagens, hotelaria e restauração, mas também a banca, o retalho e distribuição.

Na Europa, muitos índices registam desvalorizações superiores a 20% desde que o ano começou, sendo que a maioria das quedas deu-se início em março, com o confinamento forçado das populações e o fecho da atividade económica. Em Portugal, o principal índice da bolsa, o PSI-20, regista uma queda de 25% desde janeiro. "Os investidores provavelmente permanecerão nervosos no curto prazo", salientou Candice Bangsund, vice-presidente e gestora de ativos da Fiera Capital ao Financial Times.

As medidas adotadas por governos, incluindo o português, afetam o consumo e o normal funcionamento da atividade económica. "O que Portugal está a fazer é a adotar, com algum atraso, as medidas que outros países já implementaram", disse Steven Santos. "Nos mercados, a maior parte do impacto das medidas já está descontado", afirmou. Para Steven Santos, "não há surpresas se for anunciado um confinamento parcial ou recolher obrigatório em Portugal". "A grande surpresa (para os investidores) seria se Portugal optasse por seguir um caminho diferente", do dos restantes países europeus, frisou.

Perante a expectável descida do consumo e potencial aumento maior do desemprego, com a consequência de haver menor rendimento disponível para as famílias, empresas expostas aos setores mais afetados poderão sentir o impacto nos lucros. "Empresas dos setores do retalho, como a Sonae, e da restauração, que é o caso da Ibersol são as mais expostas", disse Steven Santos. Quanto à Sonae, já perdeu 810 milhões de euros de valor em bolsa desde que o ano começou. Fechou na sexta-feira a valer 5,05 cêntimos de euro por ação, o que lhe dá uma capitalização bolsista de 1,01 mil milhões de euros, segundo dados da Euronext Lisbon. No caso do setor da banca, os receios de maiores custos para cobrir potenciais perdas futuras com créditos preocupa atualmente os investidores e pressiona as ações da banca em bolsa. Desde o início do ano, o BCP perdeu mais de 1,9 mil milhões de euros de valor em bolsa. Vale agora 1,14 mil milhões de euros, segundo dados da Euronext. O Millennium bcp registou menos 124 milhões de euros em lucros nos nove meses de 2020 quando comparando com igual período do ano passado. O banco liderado por Miguel Maya viu o seu lucro cair 46% para 146 milhões de euros, tendo posto de lado 550 milhões de euros para eventuais perdas, com a maior parte do valor a ser relativa a possíveis perdas no crédito.

Com o avanço das restrições impostas à atividade económica em vários países na Europa, a incerteza vai pairar sobre as bolsas. Para os analistas, só um desfecho pacífico do ato eleitoral nos EUA e o fim da incerteza política no país, pode ajudar a desanuviar um pouco o ambiente nos mercados acionistas europeus. Mas pode não ser suficiente para afastar os receios dos investidores.

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo

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