Morreu Seninho. O ex-jogador do FC Porto que jogou com Pelé e grandes craques

Arsénio Rodrigues Jardim, ex-jogador do FC Porto mais conhecido por Seninho, morreu este sábado aos 71 anos. Recorde aqui a história de vida contada pelo próprio ao DN num trabalho feito em janeiro de 2017

Seninho, ex-jogador do FC Porto, morreu na madrugada deste sábado aos 71 anos, no Hospital de São João, onde se encontrava internado. O antigo extremo do FC Porto disputou 275 jogos ao longo de toda a sua carreira, 150 com a camisola azul e branca. Para a história fica um jogo onde vestiu a pele de herói, contra o Manchester United, na Taças das Taças de 1977-78, quando marcou dois golos e permitiu aos dragões seguir em frente na eliminatória.

Recorde aqui a conversa do DN em janeiro de 2017 com Seninho, na qual o ex-jogador passou em revista a sua carreira.

Foi e ainda é o nome de guerra de Arsénio Rodrigues Jardim, antigo avançado que em 1977-78 ficou ligado à quebra do maior jejum de títulos nacionais do FC Porto. Foram quatro golos em 28 jogos no campeonato, que contribuíram para o feito de uma equipa comandada por José Maria Pedroto, que 19 anos depois devolveu os dragões ao sucesso.

Aos 67 anos, Seninho está afastado do futebol, um pouco por opção. "Não me identifico com a forma como se fala de futebol, onde há liberdade de expressão, mas falta educação", assume ao DN, garantindo que não sente qualquer mágoa por estar longe dos holofotes. "Quando acabei a carreira não quis ser treinador... não tinha vocação", refere. Por isso mesmo, mudou a sua vida. "Tive negócios imobiliários e de táxis, mas vendi tudo e agora vou reformar-me, dedico-me apenas à família", revelou.

A vida de Seninho no futebol teve um ponto de viragem a 2 de novembro de 1977. Nessa noite, o FC Porto jogava em Old Trafford a passagem aos quartos-de-final da Taça das Taças, depois de na primeira mão ter goleado o Manchester United por 4-0. Foi o momento de glória para Seninho, que marcou dois golos que permitiram aos dragões passar a eliminatória apesar da derrota por 5-2.

"O Manchester United era na altura uma das melhores equipas da Europa e aqueles dois golos acabaram por ser um trampolim extraordinário para mim", recordou. É que no dia seguinte, ainda em Inglaterra, estava reunido com emissários do New York Cosmos. "Tinha convites de Man. United, Inter Milão, Atlético de Madrid e Cosmos. Para Inglaterra não quis ir porque tinha um futebol muito direto, também rejeitei Itália por causa do catenaccio e o futebol em Espanha tinha muita porrada, por isso escolhi ir para os Estados Unidos", conta.

A transferência para o então mítico clube americano não foi fácil. "O meu vínculo terminava em 1978 e eles aceitaram esperar. Ofereceram-me um contrato de um milhão de dólares, que era então 20 mil contos, muito dinheiro na altura", revela. No entanto, no fim do contrato, como existia a famosa lei de opção dos clubes para com os jogadores, a sua transferência estava complicada. Até que um dia tudo mudou: "Recebi um telefonema do Pelé, que me perguntou de que é que eu estava à espera para me mudar para Nova Iorque. Falei-lhe da lei de opção e ele tranquilizou-me, lembrando que a NASL [North American Soccer League] não era um campeonato reconhecido pela FIFA, pelo que essa lei não podia ser aplicada."

Foi o início de "uma experiência extraordinária". No Cosmos encontrou "uma equipa fabulosa, cheia de craques como Pelé, Beckenbauer, Johan Cruyff, Carlos Alberto, Neeskens..." Era o início de uma vida nova. "Tinha acabado de ser campeão pelo FC Porto, quebrando o jejum de 19 anos, casei-me e fui para Nova Iorque. Comecei por viver em Manhattan e, mais tarde, mudei-me para New Jersey, para perto do Giants Stadium, onde jogávamos", lembra.

Guerra, velocidade e estrelas

Para trás ficava o FC Porto e as memórias da guerra no Ultramar, onde esteve "entre os 21 e os 25 anos", mais de metade desse tempo passado "no Leste de Angola, isolado perto da Zâmbia". Foram tempos difíceis. "Felizmente nunca tive contacto com o inimigo, pois era enfermeiro, mas senti medo e ansiedade, pois contactei com muita gente em combate", refere Seninho, que até nasceu na cidade angolana do Lubango, antiga Sá da Bandeira.

Esse facto causou até alguma confusão, mais tarde, quando chegou aos Estados Unidos. "Na primeira entrevista, perguntaram-me quem afinal eu tinha defendido na guerra, pois tinha nascido em Angola e fui jogar futebol para Portugal. Eu ia responder, mas a Warner Bros, a proprietária do Cosmos, disse ao jornalista que eu estava ali para falar de futebol e não de política."

Os americanos ficaram impressionados com a velocidade de Seninho, que corria os cem metros em 10,8 segundos. "Perguntavam-me porque não fui para o atletismo e disse-lhes que se fosse americano era um Carl Lewis, mas vivia em Portugal, onde o atletismo não era potenciado", recorda aquele a quem chamavam Speedy González, Fórmula 1, Mirage ou Expresso do Norte.

Como jogador do Cosmos, onde conquistou três títulos de campeão - o quarto foi pelo Chicago Sting -, Seninho não se limitava a jogar. "Além de termos três jogos por semana, íamos a muitos eventos sociais, sobretudo aos soccer camps, onde contactávamos com crianças e deficientes. Era um trabalho das oito da manhã às oito da noite. Era uma vida muito preenchida", refere. Outra das facetas era o contacto com as estrelas, mais fácil por o Cosmos ser da empresa cinematográfica Warner Bros. Um dos momentos altos era após a final da liga. "Todos os anos se realizava o Soccer Ball, que era uma espécie de cerimónia dos Óscares para o futebol, onde convivíamos com os grandes artistas americanos, como os Rolling Stones, Diana Ross, Aretha Franklin, Robert Redford ou Sylvester Stallone", diz com saudade.

O fim da NASL, em 1984, fez que Seninho pendurasse as chuteiras aos 35 anos. Daí para cá mantém o gosto pelo futebol, mas o contacto direto com a bola aconteceu apenas quando trabalhou "em part-time" com a escola de Humberto Coelho "há sete ou oito anos".

Trabalho originalmente publicado a 15 de janeiro de 2017.

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