Nélson Évora considera naturalização de Pichardo um "ataque pessoal" por parte do Benfica

O saltador do triplo salto assegura ao jornal do Sporting que os encarnados foram "negligentes" com ele e "deram a volta ao mundo para fazer esta borrada", referindo-se ao processo de naturalização do atleta de origem cubana

Nálson Évora admitiu em entrevista à edição desta sexta-feira ao jornal do Sporting que não gostou da naturalização do cubano Pedro Pablo Pichardo, mas acusa o Benfica de ter avançado para a contratação e a rápida naturalização do atual recordista nacional do triplo salto "com o objetivo de ataque pessoal" a si próprio.

"Foi feito por questões clubísticas e com o objectivo de ataque pessoal quando não houve nenhuma má intenção da minha parte na mudança de um clube para o outro. Foi o próprio clube que foi negligente com a minha pessoa. Não sei porque é que deram a volta ao mundo para fazer esta borrada", disse.

Nélson Évora admite que "todos têm o direito de mudar de nacionalidade", mas defende que ninguém tem "o direito de passar por cima de muitas coisas, de uma história". "Por interesses clubísticos fizeram-se coisas inacreditáveis. O Sporting é conhecido por dar a nacionalidade à Naide Gomes, que quase nasceu em Portugal, e ao Francis Obikwelu, que desertou aqui no Campeonato do Mundo de juniores. Até serem portugueses passaram por um processo, perderam competições. Por isso, deixou-me um pouco indignado. Não só pelas madrugadas que perdi [para obter a sua naturalização aos 18 anos], mas também pelas pessoas que estão aqui há muitos anos a lutar pela nacionalidade e não conseguem", assumiu.

O saltador do triplo salto do Sporting, que em 2016 deixou o Benfica, recordou a esse propósito todo o seu processo de naturalização. "Cheguei a Portugal com seis anos. O meu pai já tinha pedido o processo de naturalização dele bem antes de eu nascer. O meu pai era cabo-verdiano e trabalhou a vida toda na Costa do Marfim, mas tinha todas as poupanças em Portugal. Comprou aqui uma casa, pagava aqui os seus impostos e mesmo assim não tinha o direito de ser português. Com dez anos foi pedido o meu processo de naturalização e só com 18 anos é que consegui. Foram muitas madrugadas a ir para os registos pedir documentos, traduções... foi um processo longo do qual me orgulho porque quando me deram o documento português por vias legais eu já me sentia português há bastante tempo", recordou antes de deixar uma certeza: "Sou de origens cabo-verdianas, nasci na Costa do Marfim, mas tenho muito poucas memórias do país onde nasci. Sempre me senti português."

Nélson Évora garantiu ainda que a sua indignação não teve a ver com o facto de Pichardo ter batido o recorde nacional que estava na sua posse. "Os recordes nacionais não me dão nada, não me dão privilégio nenhum. A Federação [Portuguesa de Atletismo] paga-nos 35 euros por bater o recorde nacional. Não é por uma questão de dinheiro ou nada parecido. Eu, quando bato o recorde nacional, sinto o meu país e a minha pátria", explicou.

O atleta definiu ainda como seu objetivo estar no Jogos Olímpicos de Tóqui em 2020. "Pretendo chegar o mais forte possível a Tóquio. Quero fazer um resultado espetacular com 36 anos. Vou cuidar-me bastante bem, vou trabalhar com muita fome de ganhar para chegar lá sereno e fazer o que me compete", garantiu.

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