Sporting de Amorim ao nível do FC Porto de Mourinho e do melhor de Conceição

Neste século, só o FC Porto de Villas-Boas e o Benfica de Lage chegaram à 19.ª jornada com melhor registo de pontos do que os leões. Daúto Faquirá acredita que já podem encomendar as faixas de campeão.

É cada vez mais inevitável pensar num Sporting campeão após 19 anos de jejum. Com 51 pontos em 57 possíveis, dez de avanço sobre o FC Porto, onze sobre o Sp. Braga e 13 sobre o Benfica, começa a ser difícil até para os mais crentes adeptos adversários acreditar numa hecatombe leonina.

Olhando apenas para o século XXI, só duas equipas chegaram a esta fase do campeonato (19.ª jornada) com dez ou mais pontos de vantagem sobre os perseguidores: o FC Porto de José Mourinho em 2002-03 e o FC Porto de Jesualdo Ferreira em 2007-08. Em ambas as ocasiões, os dragões foram campeões com relativa tranquilidade.

"O avanço que o Sporting tem é substancial, dificilmente vai perder o título. Acho que há muito mérito do Sporting, mas também há muito demérito das outras duas equipas, que têm estado aquém das expectativas. Parece-me que o Sporting se prepara para encomendar as faixas de campeão", disse ao DN o treinador Daúto Faquirá, que na I Liga já orientou o Estrela da Amadora, o Vitória de Setúbal e o Olhanense.

Nos últimos 20 anos, a história diz-nos que 80% dos líderes à 19.ª jornada acabaram por se sagrar campeões. As exceções foram o Sp. Braga em 2004-05 e 2009-10, o Benfica em 2011-12 e 2019-20, o Sporting em 2015-16 e o FC Porto em 2018-19. Curiosamente, as ultrapassagens mais significativas aconteceram nas duas últimas épocas, quando nas 15 rondas finais o Benfica recuperou de uma desvantagem de cinco pontos há dois anos e o FC Porto de sete de diferença na temporada transata.

Para Faquirá, "enquanto matematicamente for possível, pode acontecer uma hecatombe", mas não lhe parece "plausível". "Este ano é muito atípico, com circunstâncias que têm favorecido um Sporting que veio de mansinho, colocou-se em 1.º lugar e chega a esta fase sem derrotas. É difícil de imaginar que o Sporting, mesmo perdendo jogos, vá perder quatro e os outros ganhem todos", crê o treinador moçambicano de 55 anos, que elogia a postura de Rúben Amorim.

"O Rúben tem feito uma gestão muito boa, com um discurso calmo e tranquilo, para manter o grupo focado e sem deslumbramentos. Lembro-me que há cinco anos o Sporting teve uma vantagem considerável com Jorge Jesus, mas o discurso era diferente, visava os adversários, o que criava uma certa instabilidade. O discurso do Rúben é mais cauteloso e tranquilo do que o dos rivais. Deve dar-se mérito à forma como ele tem comunicado, até no caso do castigo do João Palhinha. Não criou guerras nem confusões e as coisas correram bem a quem o substituiu", frisou, referindo-se a Matheus Nunes, que marcou o golo da vitória no dérbi frente ao Benfica a 1 de fevereiro.

Embora o Sporting de Rúben Amorim tenha um avanço pontual considerável sobre os rivais e ainda não tenha sofrido qualquer derrota, não está a protagonizar a melhor campanha de uma equipa nas primeiras 19 jornadas. No ano passado, o Benfica de Bruno Lage chegou a esta fase com 54 pontos, e há uma década o FC Porto de André Villas-Boas entrou para a 20.º ronda com 53. Ao nível da versão 2020-21 dos leões está o FC Porto de José Mourinho (2002-03 e 2003-04) e de Sérgio Conceição (2017-18), que também fizeram 51.

Fará diferença não ter Europa?

Para vários treinadores e comentadores, tem feito diferença a ausência do Sporting nas competições europeias, sobretudo numa época em que o calendário está muito apertado devido à pandemia e os principais rivais têm estado sobrecarregados.

No entanto, nas últimas duas décadas, nenhuma equipa tirou proveito da falta de jogos europeus para se sagrar campeã em Portugal. Nestas circunstâncias, o Benfica foi quarto classificado em 2001-02 e segundo na época seguinte, enquanto o Sporting foi vice-campeão em 2013-14.

E se pensarmos em clubes que numa época só jogaram dois encontros europeus, caso do Sporting nesta temporada, também nenhuma aproveitou essa menor densidade competitiva para concluir o campeonato em primeiro lugar. O Sp. Braga de Domingos Paciência, vice-campeão em 2009-10, foi quem esteve mais perto.

Dragões e águias irreconhecíveis

Ironia do destino: a última vez que o FC Porto saiu da 19.ª jornada com tão poucos pontos no campeonato era orientado por Jesualdo Ferreira, precisamente o treinador que no sábado guiou o Boavista a um empate a dois golos no Dragão e atrasou mais os portistas na corrida pelo título. Em 2009-10, depois de o professor ter vencido três campeonatos consecutivos ao leme dos azuis e brancos, não conseguiu fazer mais do que 40 pontos nas 19 rondas iniciais.

No entanto, para encontrar o FC Porto tão ou mais pontualmente distante da liderança é necessário recuar até 1972-73, quando cada vitória ainda valia dez pontos. Nessa altura, os dragões atravessavam um jejum de títulos que haveria de durar 19 anos, entre 1959 e 1978.

Quanto ao Benfica, para encontrar umas 19 primeiras jornadas tão modestas, é preciso recuar à época em que as águias foram orientadas pelo espanhol Quique Flores, quando levavam 37 pontos por esta altura, menos um do que os homens de Jorge Jesus somam.

Por outro lado, é necessário recuar até 2002-03 e 2003-04, quando os benfiquistas eram comandados por outro espanhol, José Antonio Camacho, para encontrar tanto atraso pontual para o líder. Em ambas as épocas, o clube da Luz saiu da 19.ª jornada com onze pontos de desvantagem para o FC Porto de Mourinho.

E para descobrir uma época em que o Benfica estava fora do pódio à entrada para a 20.ª ronda, é preciso retroceder até 2004-05, quando o italiano Giovanni Trapattoni estava no leme. Curiosamente, nessa temporada, os encarnados sagraram-se campeões, quebrando um jejum de onze anos.

No entender de Daúto Faquirá, um dos aspetos que têm levado a esta diferença pontual para o líder Sporting e para "algum desnorte" de FC Porto e Benfica é a "densidade competitiva" que dragões e águias têm enfrentado nesta época atípica, que tem um calendário mais apertado do que o habitual devido ao tardio término na temporada transata. "Este cenário poderá alterar-se se estas duas equipas ficarem mais desafogadas. Poderão ter outro tipo de capacidade de resposta", acredita o técnico que já nesta época orientou o Sp. Covilhã.

O quarto melhor Sp. Braga

Embora esteja à frente do Benfica e a um ponto do FC Porto, o Sp. Braga já teve melhores registos à 19.ª jornada. Em 2004-05, com Jesualdo Ferreira, e em 2009-10, com Domingos Paciência, os bracarenses lideravam o campeonato por esta altura. Nessa temporada em que o antigo avançado do FC Porto estava no comando técnico, os minhotos tinham 48 pontos, mais oito do que em 2020-21.

Em termos pontuais, os arsenalistas também fizeram melhor em 2011-12 com Leonardo Jardim e em 2018-19 na segunda época de Abel Ferreira, quando somaram 43 pontos. Tal como agora com Carlos Carvalhal, em 2017-18 o registo após 19 rondas também era de 40 pontos.

Para Daúto Faquirá, este não é o "melhor Sp. Braga de sempre", mas "tem estado na bitola do que tem feito ultimamente". "É a quarta equipa, com uma espinha dorsal que se mantém, alterando aqui e acolá, e muito bem orientada pelo Carlos Carvalhal. Benfica e FC Porto não têm estado ao melhor nível, o que permite que o Sp. Braga se aproxime, mas o que me parece natural é que Benfica e FC Porto possam vir a cavar um fosso para o Sp. Braga, que ainda está aquém dessas equipas, até pelo nível de investimento, apesar de ter uma equipa muito boa. Mas se ambos se mantiverem neste registo, o Sp. Braga poderá manter este nivelamento com eles e lutar até ao fim por um lugar que dê acesso à Liga dos Campeões", perspetiva o técnico que em 2005 subiu o Barreirense à II Liga.

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