De relatador do "golo do século" à luta pela liberdade de imprensa

Víctor Hugo Morales ficou conhecido pelo relato do segundo golo de Maradona à Inglaterra no Mundial de 1986. Agora lidera a luta contra as novas restrições à imprensa

"Arranca pela direita o génio do futebol mundial." Víctor Hugo Morales parecia adivinhar o que iria acontecer no Argentina-Inglaterra do Mundial de 1986. Quatro minutos após o argentino ter recorrido à "mão de Deus" para inaugurar o marcador, o camisola 10 pegou na bola... e o resto foi história.

Depois de já ter deixado quatro ingleses pelo caminho, o então comentador uruguaio de 38 anos deixou-se levar pela emoção, ainda antes de Maradona ter marcado. "Génio! Génio! Génio! Ta-ta-ta-ta-ta-ta gooool!" O relato ficou mundialmente conhecido, pois o comentador desfez-se em lágrimas. "Quero chorar! É para chorar, perdoem-me!", gritou, descrevendo a "jogada de todos os tempos" e celebrizando a expressão "barrilete cósmico", antes de lançar a questão: "De que planeta vieste para deixar pelo caminho tanto inglês!?"

A 22 de junho completar-se-ão 30 anos desde que Maradona emocionou Morales. Desde então, o uruguaio que vive na Argentina estava ligado à Rádio Continental, apesar de também colaborar com outras estações de idioma hispânico - conduziu um programa de grande audiência no Mundial 2014, De Zurda, formato que repetiu na Copa América do último ano, com a presença de Maradona.

Agora, Morales é notícia por outros motivos, nomeadamente a luta pela liberdade de imprensa, colocada em causa desde a chegada de Mauricio Macri à presidência da Argentina. O governo mudou a lei de imprensa, ao dissolver as entidades reguladoras dos media e das telecomunicações para formar um organismo conjunto. Além disso, passou a limitar o número de licenças audiovisuais.

Na sequência das novas normas, Morales foi despedido pela Rádio Continental, minutos antes de começar o programa La mañana. Centenas de fãs lançaram uma onda de contestação, o que levou a Rádio Continental a emitir um comunicado, alegando "incumprimentos contratuais que alteraram o normal funcionamento das edições". Morales não se conformou e denunciou que a liberdade de imprensa está em causa após a eleição de Macri.

"Isto é aquilo de que a direita política necessita: de vos silenciar. A partir de hoje, deixei de ter programa. O poder das corporações do governo avança contra a liberdade de expressão", reagiu, no Twitter. Segundo a imprensa argentina, Morales iria aproveitar a emissão em direto para atacar o novo presidente da Argentina, algo que levou a emissora a cancelar o programa.

O apoio a Morales ganhou enormes proporções, tanto que milhares de manifestantes encheram a Plaza de Mayo, em Buenos Aires, em protesto. "Estas pessoas não estão aqui a defender um jornalista, estão a defender o jornalista", disse o uruguaio.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG