Clássico no divã. Como a chicotada e o luto podem motivar o Benfica no jogo com o FC Porto

Jogo da 16.ª jornada vale "mais do que três pontos". Para o psicólogo Jorge Silvério, a mudança de treinador na Luz pode mexer com o lado emocional do balneário agora liderado por Veríssimo e antevê alertas da equipa técnica portista.

A derrota na Taça de Portugal (3-0, na semana passada) aliada à saída turbulenta e polémica de Jorge Jesus mexeram certamente com as emoções do balneário do Benfica. Como enfrentará a equipa da Luz o clássico de hoje (21.00, Sport TV1), após uma semana cheia de ruído, que terminou com a saída do treinador e como olhará o balneário dos dragões para tudo isto?

Para Jorge Silvério, psicólogo do Desporto, a "chicotada psicológica mexeria sempre com o lado emocional do balneário do Benfica mesmo que não fosse na véspera de um clássico". E há que colocar os últimos acontecimentos em perspetiva e valorizar apenas as informações que se têm como verdades absolutas. "Sabemos apenas alguma coisa sobre o que se passou no balneário que levou à saída do Jorge Jesus. A ser verdade que havia alguma insatisfação dos jogadores em relação a Jorge Jesus, e com a saída dele, haverá um fator extra de motivação e de empenho. Eu acho que já iria haver face ao último resultado (3-0) porque iria sempre obrigar a uma mudança de atitude perante o jogo, mas que será agora reforçado com esta chicotada psicológica", acredita Jorge Silvério.

Uma das grandes questões é saber se os jogadores encarnados estão emocionalmente equilibrados para voltar a um relvado onde na semana passada quase foram humilhados. A resposta de Jorge Silvério é "sim". Porque no futebol há uma máxima de "jogo a jogo" e o da Taça de Portugal já passou: "Agora é focar neste e pensar que começa 0-0." Por isso, "a equipa que tiver maior controlo emocional, maior confiança e que tiver jogadores mais tenazes - capacidade para lidar com situações difíceis - ficará mais perto do sucesso". Que é como quem diz da vitória. "E não é por tudo o que viveram nos últimos dias que estes profissionais experientes vão vacilar. Precisam é de estar focados e ter os níveis de confiança e motivação e controlo emocional repostos e no máximo", analisou ao DN.

Tudo isto tendo em conta que um clássico é um jogo onde a rivalidade se extrema e que o jogador profissional, embora seja um atleta de alta competição, não é um robô: "Os atletas são seres humanos. O que acontece na vida deles, ainda mais os acontecimentos desportivos, acaba por impactar. Não são robôs, mas têm de estar preparados para estas situações. A grande maioria tem muita experiência ao mais alto nível e estarão mais do que capacitados para dar resposta a um jogo destes."

O luto de Veríssimo

O Benfica será orientado por Nélson Veríssimo. Formado no Benfica, o antigo defesa central fez carreira fora da Luz. Voltou para treinar depois de pendurar as chuteiras. Era adjunto de Bruno Lage quando o agora treinador do Wolverhampton foi chamado a substituir Rui Vitória. Foi campeão, recebeu os louros pelo sucesso das bolas paradas do Benfica (31% dos golos obtidos) e promovido a treinador interino quando Lage saiu.

Com a chegada de Jesus, Veríssimo voltou à equipa B, onde evitou a descida de divisão e agora liderava a II Liga. Aos 44 anos, volta a ter o papel principal. Foi de novo chamado a servir a equipa principal, desta vez até final da época, e quando ainda há uma Taça da Liga, um campeonato e uma Liga dos Campeões em agenda.

Desta vez o convite aconteceu um dia depois da morte da mãe do técnico, que assim orientará a equipa a viver dias de luto. "O infortúnio pessoal do treinador do Benfica e o momento de luto e dor pessoal pode funcionar como coesão no grupo e ajudá-lo a passar por este momento. Os jogadores quererão oferecer-lhe um resultado positivo no primeiro jogo", antevê o psicólogo.

Veríssimo vai para o clássico apenas com um treino e não contará com Grimaldo (infetado com covid-19), Otamendi (castigado, após expulsão com o FC Porto) e Darwin (lesionado). Há por isso alguma expectativa para saber se mantém o esquema de três centrais de Jesus ou se opta pela tradicional defesa a quatro que tem dado garantias na equipa B.

E saber se aposta ou não em Pizzi, o jogador que tem nas costas o ónus de ter feito cair Jorge Jesus. O extremo foi convocado (e muito aplaudido na chegada ontem ao hotel onde a equipa estagiou) e é de esperar que todos os olhares o procurem no Dragão. "Independentemente de ser ou não verdade o que tem vindo a público, se jogar quererá ser mais um a mostrar que o que se passou no último jogo não é a realidade do potencial desportivo da equipa do Benfica", na opinião do psicólogo.

Vale mais que três pontos

Mas o clássico tem dois lados e a equipa do FC Porto tendo um papel ativo no jogo tem de ser tida em conta. Saber se haverá algum relaxamento, mesmo que inconsciente dos portistas depois de terem vencido facilmente na semana passada e terem agora assistido, mesmo que à distância, a toda esta crise do Benfica é a questão. "Não. Penso que a equipa técnica do FC Porto terá a preocupação de alertar os jogadores para isso. Até porque a diferença entre ambos, em termos desportivos, não é tão grande assim. Haverá certamente uma chamada de atenção a lembrar que o jogo da Taça já passou e este terá uma história diferente. Levará a um aumento de confiança motivado pelo último resultado e por perceberem que toda esta instabilidade no adversário pode levar um menor desempenho desportivo", considera o psicólogo.

Por tudo isto, será este o jogo onde Sérgio Conceição e Nélson Veríssimo terão de ser mais psicólogos que treinadores? "Os técnicos acabam sempre por ter uma vertente psicológica. Este jogo não fugirá ao que acontece habitualmente. Quando se fala de um jogo deste tipo, um clássico e para o campeonato, é um daqueles jogos em que os três pontos valem mais do que os três pontos pelo impacto que o resultado pode ter no futuro. Estamos a falar de adversários que lutam pelos mesmos objetivos", acredita Jorge Silvério.

A quatro pontos do FC Porto, o clássico da 16.ª jornada aparece numa altura de tudo ou nada para um Benfica em crise, uma vez que uma derrota deixa os encarnados a sete pontos da liderança. Já uma vitória pode funcionar como um balão de oxigénio.

O FC Porto surge estável e motivado pelo triunfo na Taça de Portugal (3-0) e quer segurar a liderança - Sporting jogou ontem à noite com o Portimonense, já após o fecho desta edição - e já terá Sérgio Conceição no banco após cumprir 15 dias de castigo. O técnico portista não perde com Benfica há sete jogos e o FC Porto vai tentar somar a 11.ª vitória consecutiva em partidas a contar para a I Liga esta temporada.

Sem Luis Díaz no jogo em que Conceição pode superar as águias

Uma baixa de peso de última hora na equipa do FC Porto para o clássico desta noite. O avançado colombiano Luis Díaz testou ontem positivo à covid-19 na ronda de testes antigénio feita ao plantel e está de fora dos planos de Sérgio Conceição para a partida com o Benfica. No ataque, Evanilson também está indisponível, por estar a cumprir um jogo de castigo após ter sido expulso no jogo da Taça de Portugal diante do Benfica.

Impedimentos à parte, caso vença hoje os encarnados, Sérgio Conceição passa a ter 10 triunfos em 23 jogos com o Benfica. Com nove vitórias, quatro empates e nove derrotas (24-25 em golos), o técnico portista está invicto há sete jogos, um deles frente a Nélson Veríssimo, que já tinha comandado o Benfica na reta final da época 2020-21.

Uma semana após eliminar as águias da Taça de Portugal, com um categórico 3-0, que acabou por ser o último jogo de Jorge Jesus no comando do rival, o técnico portista procura hoje uma vitória para a estatística pessoal.

Desde a derrota a 2 de março de 2019, por 2-1 ( Rafa e João Félix responderam ao golo inicial de Adrián López) que catapultou o Benfica para o título 2018-19, Conceição soma cinco vitórias e dois empates face ao eterno rival. Em 2019-20, conduziu o FC Porto a dois triunfos no campeonato (2-0 fora e 3-2 em casa), face a Bruno Lage, e à vitória na final da Taça de Portugal (2-1 em campo neutro), em 2019-20, frente a um conjunto comandado por Nélson Veríssimo. Num embate disputado em Coimbra, à porta fechada, culpa da pandemia, em 1 de agosto de 2020, o FC Porto ficou com 10 unidades após 38 minutos, face à expulsão de Luis Díaz, mas, ainda assim, venceu por 2-1.

Sem Sérgio Conceição no banco, também expulso por Artur Soares Dias (43 minutos), os dragões venceram com dois golos do central Mbemba, de nada valendo aos encarnados o penálti de Vinícius.

Já com Jorge Jesus (2020-21), somou um triunfo na Supertaça (2-0 em Aveiro) e dois empates na I Liga, ambos 1-1. E na quinta-feira, os dragões impuseram-se por 3-0 no Dragão no primeiro duelo de 2021-22, para os oitavos de final da Taça de Portugal, com dois golos de Evanilson e um de Vitinha - o brasileiro foi expulso sobre o intervalo.

Com este resultado, Conceição reforçou o histórico como treinador do FC Porto, face ao Benfica, que se cifra agora em sete vitórias, três empates e apenas duas derrotas. As outras sete derrotas, duas vitórias e um empate foram conseguidas enquanto técnico do Olhanense, Vit. Guimarães e Sp. Braga. Apesar de regressar hoje ao banco, o portista optou por não fazer a antevisão do clássico. O treinador só voltará a falar aos jornalistas após o clásssico.

No geral, o FC Porto vai tentar somar a 11.ª vitória consecutiva em partidas da I Liga esta temporada. Além disso, os dragões procuram manter o registo perfeito em casa em jogos a contar para o campeonato, em que neste momento levam sete triunfos, com 19 golos marcados e apenas três sofridos.

isaura.almeida@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG