Chelsea já deixou quase 100 milhões nos cofres do FC Porto

Dragões discutem quarta-feira a passagem às meias-finais perante um rival que não olha a gastos, seja a contratar ou a despedir, para se afirmar desde que Abramovich se tornou proprietário, em 2003.

Corria o ano de 2002 e um jovem multimilionário russo, com uma fortuna, avaliada em três mil milhões de dólares, construída nos negócios petrolíferos proporcionados pela dissolução da União Soviética, viajava por várias cidades da Europa Ocidental em reuniões relacionadas com a sua atividade. Nos tempos livres aproveitava para assistir a jogos de futebol. "Havia tanta emoção, tanto entusiasmo, que me lembro de pensar: "Quero fazer parte disto!"."

Para Roman Abramovich, de 35 anos, a solução foi simples: comprou um clube, o Chelsea. "Olhando para trás, sobretudo para a exposição pública que me proporcionou, talvez devesse ter pensado melhor em ser dono de um clube", confessou o empresário, que no ranking de 2020 já valia 14,4 mil milhões de dólares, numa rara entrevista dada em março deste ano à revista Forbes.

Esta semana, os londrinos vão começar a discutir a passagem às meias-finais da Liga dos Campeões (prova que já conquistaram uma vez) frente ao FC Porto, campeão português, a partir do qual Roman Abramovich começou a construir um clube com capacidade para se bater com os maiores da Europa e passar a fazer parte do lote de grandes de Inglaterra.

Apesar de um primeiro ano prometedor (segundo na Premier League, só atrás do invencível Arsenal, e de ter estado perto da final da Champions), o proprietário russo não ficou satisfeito. Despediu Claudio Ranieri e virou a atenção para o Porto, onde morava o recém-sagrado campeão europeu. De uma assentada, com a cumplicidade de Peter Kenyon (diretor executivo contratado ao Manchester United) e do empresário Jorge Mendes, "pescou" o treinador mais entusiasmante da época, o special one José Mourinho, e dois jogadores que acabariam por se revelar preciosos e um excelente investimento de longo prazo, o central Ricardo Carvalho e o lateral Paulo Ferreira.

Para o FC Porto, isso foi o início de uma excelente cumplicidade negocial. A essas primeiras transferências juntaram-se posteriormente as de Bosingwa, André Villas-Boas e Christian Atsu, o que movimentou um valor total de 94,5 milhões de euros.

O bolso fundo de Abramovich não beneficiou apenas os azuis e brancos em Portugal, uma vez que o Benfica também não se pode queixar. O médio Tiago juntou-se ao clube na mesma temporada de Mou e, depois disso, o clube da Luz ainda vendeu David Luiz, Ramires e Matic ao Chelsea. No total, mais 87 milhões de euros envolvidos, num total de mais de 180 milhões em negócios com o futebol português, isto não contando com outros contratados a custo zero, como Nuno Morais ou Hilário, ou noutras paragens, como Deco, Ricardo Quaresma, Maniche, Raul Meireles ou Eduardo. Ainda assim, uma verba pouco significativa nos gastos do clube em contratações desde a chegada de Abramovich: feitas as contas, contabilizou mais de dois mil milhões de libras (cerca de 2,3 milhões de euros)...

Vantagem blue

Já desportivamente, a emergência do "Chelski" - como passou a ser conhecido, sobretudo entre os adeptos rivais - ao primeiro plano não foi uma boa notícia para os clubes portugueses, que têm somado desaires frente aos londrinos. Ainda assim, o FC Porto - que vai defrontá-lo pela nona vez esta quarta-feira (e logo em Sevilha, uma cidade mágica no que diz respeito ao "renascimento" europeu dos azuis e brancos, depois da lendária vitória frente ao Celtic na final da Taça UEFA) - foi o único dos grandes a conseguir contrariar a formação londrina.

Nos oito confrontos anteriores, o clube nortenho já conseguiu duas vitórias e um empate, sempre no Dragão, mas também é verdade que na única eliminatória que disputaram até agora o Chelsea acabou por levar a melhor nos oitavos da Liga dos Campeões em 2006/2007. Benfica e Sporting tiveram pior sorte, perdendo sempre com os ingleses - os encarnados disputaram mesmo uma final da Liga Europa perante o Chelsea, resolvida aos 90"+3 num cabeceamento de Ivanovic quando o prolongamento parecia certo.

De qualquer forma, a equipa de Sérgio Conceição vai apanhar pela frente um conjunto que pode estar sob pressão. Depois de um início de época irregular, a chegada de Thomas Tuchel despertou o Chelsea para um período bem-sucedido: nos primeiros 14 jogos com o alemão aos comandos, somou 10 triunfos e quatro empates, afastando o sempre complicado Atlético de Madrid na Liga dos Campeões.

Mas no último sábado sofreu um inesperado abalo, em pleno Stamford Bridge, ao perder por 5-2 com o aflito West Bromwich Albion, de Matheus Pereira, autor de um bis e uma assistência. A expulsão precoce de Thiago Silva explica em parte o desaire, mas não os seus números finais. Afinal de contas, tratou-se da pior derrota caseira desde que o primeiro escalão inglês se passou a designar Premier League, e Roman Abramovich não tem fama de ser um homem compreensivo.

Fortunas só a treinadores

Naturalmente, quem investe tanto - e só para comprar o clube, o russo, que entretanto adquiriu nacionalidade israelita, gastou na altura perto de 165 milhões de euros ao câmbio atual, incluindo 90 milhões de dívida - quer resultados e não está disposto a esperar muito. Nas 18 épocas como proprietário, já vai no seu 15.º treinador, e nem Frank Lampard, um dos jogadores que ajudou a projetar o Chelsea até ao patamar que agora ocupa, conseguiu durar mais de época e meia no cargo.

Segundo o site footmercato, o Chelsea já teve de gastar mais de 100 milhões de euros só em despedimentos. José Mourinho, com 30,5 milhões, lidera a lista graças às duas saídas, mas André Villas-Boas (15) e Luiz Felipe Scolari (14) também não se podem queixar. Perto só mesmo o italiano Di Matteo, que liderou a equipa no seu maior triunfo em Munique, com 12 milhões. Antonio Conte (9), Carlo Ancelotti (7), Claudio Ranieri (7), Frank Lampard (7) e Avram Grant (6,5) foram os outros contemplados, segundo a mesma publicação.

Quer se goste ou não do método, a verdade é que na era Abramovich o clube conquistou um total de 35 troféus entre o futebol sénior masculino e feminino e o de formação, incluindo-se aqui cinco vitórias na Premier League, duas na Liga Europa e a já referida conquista da Liga dos Campeões, cereja no topo do bolo obtida em Munique, frente ao Bayern. Dos 98 anos anteriores, contava no seu palmarés com um título de campeão, três Taças de Inglaterra, duas Taças da Liga, duas Taças das Taças e uma Supertaça Europeia para amostra.

Nada de estranhar se se considerar que o Chelsea nasceu quase por acaso, quando um empresário apreciador de futebol, "Gus" Mears, comprou Stamford Bridge, na altura um recinto dedicado a eventos de atletismo, com o propósito de exibir jogos de futebol de alto nível. Devido a um desacordo sobre o valor da renda com o Fulham, o clube da zona, Mears ponderou vender os terrenos a uma empresa para despejar carvão até um amigo lhe sugerir que fundasse um clube.

A 10 de Março de 1905 nascia o Chelsea FC e uma das suas primeiras contratações, a troco de 50 libras, foi a do guarda-redes William "Fatty" Foulke, naquele que foi um excelente golpe de marketing antes de o conceito chegar ao futebol. Com os seus mais de dois metros e 150 quilos, Foulke atraía multidões ao estádio - e não deixa de ser irónico que, passado mais de um século, o jogador mais caro alguma vez contratado pelos blues seja da mesma posição - Kepa Arrizabalaga custou perto de 84 milhões de euros e tem sido suplente.

CONTRATAÇÕES A CLUBES PORTUGUESES

FC PORTO 94,5 milhões de euros

José Mourinho 6M

Paulo Ferreira 20M

Ricardo Carvalho 30M

Bosingwa 20,5M

André Villas-Boas 15M

Christian Atsu 3M

SL BENFICA 87 milhões de euros

Tiago Mendes 15M

David Luiz 25M

Ramires 22M

Namanja Matic 25M

Nuno Morais (Penafiel), Hilário (Nacional) e Fábio Paim (Sporting) foram contratados a custo zero ou por valor desconhecido

dnot@dn.pt

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