A prova de Rúben: dar o salto aos 30 é raro, mas possível

Médio contratado pelo Sporting é apenas o sexto jogador de campo com 30 ou mais anos a transferir-se de outro clube luso para um dos três grandes, desde 1988

"A mentalidade portuguesa é como a marroquina: dizem que um jogador com 19 ou 20 anos é novo e não tem experiência. Quando chega aos 29 ou 30, é velho e a experiência já não importa. Não devia ser assim: um jogador com 35 ou 36 anos ainda pode dar muito ao futebol." Hassan Nader sabe do que fala, mesmo que tenha sido dos poucos futebolistas a derrotar o estigma da idade em Portugal. Em 1995, no verão em que celebrou o 30.º aniversário, o avançado marroquino transferiu-se do Farense para o Benfica: um salto raro para jogadores trintões, mas algo que Rúben Ribeiro replicou esta semana.

O médio-ofensivo, que se transferiu do Rio Ave para o Sporting, foi apenas o sexto jogador de campo com 30 ou mais anos a dar o salto de outro clube português para um dos três grandes do futebol nacional, nos últimos 30 anos. Em 76 trintões contratados por FC Porto, Sporting e Benfica desde 1988 (já incluindo nas contas do DN o reforço de inverno do emblema leonino), 54 eram nomes mais ou menos consagrados vindos do estrangeiro. Dos 22 oriundos do mercado nacional, seis eram originários de outros dos grandes e dez jogavam como guarda-redes (posição com maior longevidade no futebol). Sobram exceções como as de Hassan (Benfica, 1995-96), Matias (FC Porto, 1995--96), Lula (FC Porto, 1996-97), Wender (Sporting, 2005-06) e Lino (FC Porto, 2007-08), a confirmar a regra da raridade de uma transferência como a de Rúben Ribeiro para Alvalade.

"Um jogador dessa idade tem de ser uma aposta muito clara do treinador, que tem de ser capaz de convencer a direção de que necessita daquele atleta e daquele estilo em concreto. Os dirigentes ponderam sempre o retorno financeiro [de uma contratação do género], por isso é que é cada vez mais raro [isso acontecer]", descreve, ao DN, Wender. O antigo avançado - que se transferiu do Sp. Braga para o Sporting, no defeso de 2005, poucos meses depois de completar 30 anos - sabe bem as virtudes que um trintão pode trazer à equipa que reforça, embora tenha passado pouco tempo em Alvalade.

As vantagens da experiência

Quem contrata um futebolista com 30 ou mais anos recebe um jogador feito: "Já sabe o que fazer em campo, quando segurar ou soltar a bola, e ainda tem muita lenha para queimar", sublinha o brasileiro, que agora treina os juvenis do Sp. Braga. E esse pode ser um importante ponto a favor de quando se precisa de reforçar a equipa no mercado de inverno, acrescenta Hassan. "Nesta fase, o melhor é ir buscar alguém com experiência e com ritmo de jogo. Se for alguém que não possa encaixar logo, só vai ficar pronto no final da época", diz o marroquino, atual diretor técnico e treinador da equipa B do WAC Casablanca.

Wender reforça a dicotomia entre o retorno financeiro que uma jovem contratação pode trazer e o retorno desportivo imediato que um futebolista experiente mais facilmente garante. "O futebol é um negócio. Os jovens é que são caros e podem ser vendidos a um preço alto. Mas também temos de olhar pelo seguro, do ponto de vista desportivo. Há jogadores de 30 anos que ainda podem fazer a diferença e, ao mesmo tempo, ajudar os jovens a crescer. Há que depositar confiança neles", afirma o antigo avançado brasileiro. "Nessa idade, um jogador pode estar no auge da carreira: tem grande experiência, tem muitos jogos nos pés...", anui Hassan.

Para eles, como para Rúben Ribeiro, o salto para um dos chamados três grandes deu-se numa idade em que muitos já o julgavam impossível. Hassan e Wender nunca deixaram de acreditar que podiam, por fim, concretizar essa ambição. "Com 29 anos fui melhor marcador do campeonato, ao serviço do Farense [21 golos, em 1994-95]. Não era fácil nem era para qualquer um. Foi por isso que fui contratado pelo Benfica. Mas os três grandes já andavam atrás de mim há mais tempo", recorda o marroquino. "Eram outros tempos: antigamente um jogador tinha de fazer duas ou três épocas boas para ser aposta de uma grande equipa. Eu passei três anos na Naval [na II Liga] e ninguém quis pagar a cláusula. Só saí no fim de contrato para Braga", conta, por sua vez, Wender - que quatro épocas depois, renderia 1,1 milhões de euros ao clube minhoto, ao transferir-se para Alvalade.

Dificuldades de afirmação

Ora, a afirmação no onze de FC Porto, Sporting e Benfica, quando se lá chega com 30 ou mais anos e proveniente de outros clubes portugueses, é outro desafio. Matias (rendeu, na segunda metade de 1995-96, José Carlos, que saíra para o Vasco da Gama), Lula (sucedeu a Matias no eixo da defesa portista, em 1996-97) e Lino (reforço para a lateral-esquerda azul e branca, em 2007-08) raramente foram primeiras opções no emblema do dragão. E o mesmo sucedeu com Hassan e Wender, na Luz e em Alvalade (respetivamente).

"Quando comecei a jogar no Benfica, comecei logo a marcar. Depois, tive azar: uma lesão no joelho (inflamação na cartilagem) não deixou que conseguisse tudo o que queria [fez oito golos em 14 jogos na primeira época, um em 13 na segunda]", explica o marroquino, que regressou ao seu Farense no final de 1996-97. "No meu caso, não fui muito feliz, porque, dois meses depois, o treinador que me quis contratar [José Peseiro] foi despedido", lembra Wender, que voltou a Braga logo no mercado de inverno de 2005-06 (após 13 jogos e dois golos de leão ao peito).

Ainda assim, isso não abala a confiança de ambos em Rúben Ribeiro: "Espero que seja feliz e sirva de exemplo [para outros trintões]", resume o brasileiro. Afinal, a idade pode ser apenas um detalhe. Como provaram Wender e Hassan, que continuaram a colecionar golos em Braga e Faro, até aos 33 e 36 anos (respetivamente)...

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