Voo de esperança. Foto que foi capa do DN vence prémio Foto do Ano

A Fotografia do Ano do prémio Estação da Imagem, da autoria de Leonel de Castro, foi publicada no DN e na Notícias Magazine.

Uma adolescente de pé num baloiço, com os galhos de árvores e o céu azul em fundo numa Beira destruída pela passagem do ciclone Idai. Foi a fotografia com este cenário, que Leonel de Castro apelidou de Voo de esperança, a vencedora da categoria Fotografia do Ano dos prémios Estação Imagem.

Esta fotografia foi publicada na capa do DN de 6 de abril do ano passado, data em que foi publicada a reportagem feita pela jornalista Céu Neves e pelo fotojornalista Leonel de Castro, do Jornal de Notícias. A mesma fotografia foi publicada à época na Notícias Magazine.

Contexto: "A fotografia é um resumo da totalidade dos trabalhos e é uma das primeiras que eu fiz à chegada à Beira. Estive lá duas semanas no rescaldo da catástrofe ambiental que dizimou o povo", comenta o autor premiado ao DN.

Leonel de Castro destaca dessa imagem a sua "simplicidade", característica que considera "difícil de captar no quotidiano". E acrescenta: "É um casamento perfeito entre a linguagem do jornalismo, que responde às questões do [modelo de] Lasswell e a linguagem estética da fotografia. Tem tudo no sítio certo do ponto de vista de composição e de informação, que é o que nós queremos no fotojornalismo."

A repórter Céu Neves recorda o cenário: "Pobreza, destruição, tudo se agravou na Beira, Moçambique, com o ciclone Idai, que fustigou o país há um ano. E, no meio dos destroços, uma miúda brinca num baloiço e diz-nos que a vida continua, que há esperança. Lembro-me bem da imagem que o Leonel de Castro fixou, várias vezes premiada e, agora, com o título de Foto do Ano do Prémio Estação Imagem."

A equipa de reportagem do JN e do DN viajou para acompanhar a missão da Cruz Vermelha Portuguesa na Beira. "Insisti para que deixássemos o hospital de campanha e fôssemos até à baixa da cidade perceber como as pessoas estavam a reagir à catástrofe. Num parque em frente ao restaurante Tuga, alguma crianças brincavam, uma mulher recolhia pedaços de madeira das árvores caídas, um homem reconstruía a casa, um comerciante revelava com satisfação como tinha conseguido manter o seu quiosque de pé, metendo sacos de areia em cima do telhado. Testemunhos que deram mote à reportagem 'Histórias felizes de um país que sofre demais' e a foto que o Leonel de Castro titulou Voo de esperança foi a capa do DN do dia 6 de abril de 2019", diz a jornalista do DN.

Leonel de Castro foi ainda distinguido pelos seus trabalhos resultantes da mesma viagem: uma menção honrosa na categoria Vida Quotidiana, pela reportagem sobre o Grande Hotel Beira; e o prémio na categoria de Assuntos Contemporâneos, com a reportagem sobre o orfanato destruído, publicado na Notícias Magazine.

Foi aliás, esse o momento mais emocionante da viagem. "Além da destruição, de passar por aldeias onde as pessoas não tinham condições mínimas para viver, aquilo que mais me surpreendeu e comoveu foi o trabalho sobre os Continuadores, um orfanato que ficou sem tecto, sem água, sem luz, sem roupas, sem comida, e que albergava 78 crianças. Até havia uma criança vítima de mutilação para usarem em bruxaria", recorda.

O facto de se ter dado voz e imagem àquela situação permitiu que várias instituições tenham acorrido àquelas crianças. "Esse retorno da reportagem é espetacular", comenta.

A esse propósito, este profissional realça "a importância do fotojornalismo do enviado especial em territórios que nos são familiares, colocando de parte o colonialismo e o nacionalismo, mas toda a complexidade histórica que temos com os PALOP". Territórios que estão no mapa e no coração e que, quando assolados por uma catástrofe como o ciclone Idai, é importante que jornalistas portugueses deem visibilidade ao sucedido para que a ajuda chegue, e com a máxima brevidade.

Leonel de Castro, que acumula uma dezena de distinções nas mais diversas categorias dos prémios Estação Imagem, deixa ainda uma palavra de apreço àquela associação cultural. "Não trabalhamos para prémios, mas quero realçar a importância da Estação Imagem, que é a única associação que promove o fotojornalismo, não só em Portugal, mas também no estrangeiro. São eles quem nos leva a[o festival internacional de] Perpignan, ao acontecimento mais importante da profissão."

O prémio Estação Imagem 2020 foi atribuído a José Sarmento Matos pelo trabalho feito junto da comunidade luso-venezuelana, e intitulado "Abandonando o sonho venezuelano".

Mais Notícias