Um verão à prova de preconceitos

Verão de 85 teve o selo da seleção de Cannes e estreia nesta semana nos cinemas. Vai dividir muitas opiniões, mas é um regresso feliz de François Ozon. O filme esteve neste fim de semana no Festival de San Sebastián.

Perplexidade das grandes: ao 19.º filme, Ozon assina um título inocente que poderia ser uma primeira obra. Verão de 85 é um filme de uma ingenuidade de debutante, embora seja inegável que a câmara do cineasta francês tenha um cinismo eminente, mas neste hino ao furor do romance e dos corpos o que está em causa é uma celebração de uma memória da juventude, neste caso, mais do que provavelmente, a do próprio realizador, mesmo que no genérico surja a informação de que esta é uma adaptação muito livre do romance Dance on My Grave, de Aidan Chambers. Sem medo do equívoco do kitsch, esta história de amor gay na Normandia dos anos 1980 é essencialmente uma carta de homenagem aos filmes teen desse período. De certa forma, é como se a memória cinéfila se sobrepusesse ao eco literário - é sabido que a liberdade na adaptação literária foi, neste caso, radical.

Este conto de verão mostra-nos um romance entre Alexis, de 16 anos, e David, de 18. Entre os dois surge de rompante uma atração física inevitável. Para Alexis, David é velocidade, perigo e o amigo que nunca teve. Para Alexis, David é apenas a paixão do momento, mas num verão à beira do mar e de um ideal de vida doce a morte pode estar à espera sem que antes surja uma promessa: "Tens de dançar na minha sepultura." Ao som dos The Cure e de Rod Stewart, somos levados numa viagem queer na qual há um savoir faire na maneira como somos transportados para uma época. Um tempo de sorriso fácil, de jogos naifs e do prazer mais pueril na areia. Mas no meio da ode dos amores do verão há uma possibilidade de negritude, uma espécie de conto policial que pisca o olho ao cinema negro. Mas neste Ozon a cor ganha ao fascínio necrófilo, por muito que Alexis adore as histórias do imaginário da morte. Aliás, neste Chama-me pelo Teu Nome francês, morte e vida correm juntas de mão dada, sem medo de efeitos de gosto mais duvidoso. Francois Ozon está aqui em modo de prazer sem culpa (há quem o chame de guilty pleasure, mas a culpa sensual tem muito que se lhe diga).

Além do mais, Ozon é um realizador que aposta num pacto com o espectador: ficarmos por dentro deste fulgor de juventude. Mas também pede uma pequena reflexão de verão: até que ponto é romântico inventarmos o amor da nossa vida num caso de verão? Não é pergunta séria, entenda-se, é antes pergunta malandra e leviana de cinema. A resposta está na ligeireza do próprio registo. Mesmo com todas as falhas, Verão de 85 é o filme perfeito para dizermos adeus a este verão.

E é incrível como neste "pequeno filme" Ozon sintetiza um pouco da sua obra: a obsessão visceral das personagens com um certo pêndulo melodramático. Aí está um cineasta que resiste a modas.

*** (bom)

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